O bitcoin caiu abaixo de US$ 60 mil pela primeira vez desde outubro de 2024, ampliando a reversão de ativo queridinho do mercado após a reeleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para vítima de um ambiente especulativo em rápida transformação. A maior criptomoeda do mundo recuou até 6%, a US$ 59.770, na sexta-feira, durante o horário de negociação em Nova York. O bitcoin já perdeu mais da metade de seu valor desde que atingiu um pico acima de US$ 126 mil em outubro do ano passado e agora vale menos do que no momento em que Trump, visto como favorável ao setor cripto, voltou à Casa Branca. A nova rodada de queda foi alimentada por uma combinação de saques de investidores em fundos negociados em bolsa ligados ao bitcoin, renovadas tensões geopolíticas e preocupações crescentes sobre a durabilidade de uma das fontes de demanda mais importantes do mercado. A Strategy Inc., de Michael Saylor, que ajudou a impulsionar o último ciclo de alta com grandes compras de bitcoin, tornou-se foco de apreensão sobre o modelo de tesouraria em ativos digitais depois de divulgar, nesta semana, uma venda rara da criptomoeda. O pano de fundo mais amplo também se tornou menos favorável para o setor. Durante boa parte da última década, as criptomoedas ocuparam um lugar privilegiado na economia da tomada de risco. Hoje, o dinheiro que antes fluía quase automaticamente para cripto está sendo distribuído entre um conjunto mais amplo de ativos especulativos, enquanto a inteligência artificial concentra a atenção como a mais nova commodity tecnológica. “Durante muito tempo, cripto foi aquele investimento quente pelo qual o Vale do Silício e os investidores institucionais eram obcecados — e a IA tomou esse lugar”, disse Michael Antonelli, estrategista de mercado da Baird, por telefone. “É simples assim: a IA substituiu cripto como a grande tendência de investimento.” As ações ligadas à inteligência artificial se tornaram a principal aposta de crescimento do mercado, reduzindo o apelo do bitcoin. Em outras frentes, investidores de varejo estão colocando dinheiro em opções de curtíssimo prazo e mercados de previsão. Mesmo dentro dos ativos digitais, stablecoins e os chamados contratos futuros perpétuos atraem uma atenção que, em ciclos anteriores, provavelmente teria ido para o bitcoin. Criptomoedas menores também caíram junto com o bitcoin na sexta-feira. O ether recuou até 12,8%, ao menor nível desde abril de 2025, enquanto XRP, solana e dogecoin caíram mais de 5%. Efeito Trump A queda ocorre em um momento que, em tese, deveria ser de triunfo para a indústria cripto. A administração Trump ajudou o setor a conquistar muitas das vitórias que a indústria buscava havia quase uma década: um presidente simpático à pauta, reguladores mais favoráveis, aceitação institucional e um arcabouço legislativo que cada vez mais trata os ativos digitais como parte permanente do sistema financeiro. Ainda assim, em vez de desencadear uma nova onda de demanda, esses marcos coincidiram com uma das quedas mais profundas do bitcoin em anos. A máxima histórica do bitcoin ocorreu poucos dias antes de o mercado cripto entrar em uma liquidação prolongada, alimentada por bilhões de dólares em apostas liquidadas que deixaram o mercado mais frágil. O conflito no Irã piorou o apetite dos investidores por ativos de risco, deixando o bitcoin de lado enquanto as ações disparavam com os avanços da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, a renovação das preocupações com a inflação beneficiou mais o ouro do que o bitcoin, enfraquecendo o status da criptomoeda como proteção contra a alta de preços. A promessa de adoção institucional deu lugar a dúvidas sobre se os maiores compradores conseguirão continuar ampliando suas posições no ritmo que os investidores esperavam. “Se o ouro compete com o dólar americano, então o bitcoin, na prática, compete com a liquidez global”, disse Dean Chen, analista da corretora cripto Bitunix. “Quando os mercados passam a acreditar cada vez mais que os juros permanecerão altos por mais tempo e que o custo de capital continuará elevado, os investidores naturalmente reduzem a alocação em ativos que não geram rendimento.”
Bitcoin cai abaixo de US$ 60 mil pela primeira vez desde vitória de Trump em 2024
Criptomoeda perde mais da metade do valor desde a máxima de outubro, pressionada por saques em ETFs, tensões geopolíticas e migração do apetite especulativo para ativos ligados à inteligência artificial















