A carta aberta do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, oferecendo negociações presenciais de paz para encerrar a guerra na Ucrânia, foi endereçada ao presidente russo Vladimir Putin, mas tinha a intenção de ecoar pelos corredores do fórum de investimentos realizado nesta semana em São Petersburgo — e muito além dele. Zelensky publicou a carta na noite de quinta-feira, enquanto Putin concedia uma entrevista a editores de veículos internacionais durante o principal evento empresarial da Rússia. No dia anterior, drones ucranianos haviam atingido um terminal petrolífero em São Petersburgo, lançando grandes nuvens de fumaça ao céu próximo ao local do fórum. Segundo uma autoridade ucraniana familiarizada com a elaboração da carta, Kiev acredita que setores da elite russa — incluindo “funcionários públicos, empresários e parceiros da Rússia” — desejam o fim de um conflito que deixou a economia russa, estimada em US$ 3 trilhões, estagnada. O evento de alto perfil evidenciou visões divergentes dentro da Rússia sobre a guerra, que já dura quatro anos. Enquanto alguns participantes defenderam que a Rússia continue combatendo e se prepare para um confronto prolongado com o Ocidente, outros destacaram as vantagens econômicas de encerrar uma guerra que, segundo eles, se aproxima de um ponto decisivo a cada semana. Ucrânia busca transmitir confiança Há meses, Zelensky vem repetindo seu apelo por um cessar-fogo e sua proposta de se reunir com Putin, iniciativas que o líder russo tem rejeitado repetidamente — como voltou a fazer nesta sexta-feira. A autoridade ucraniana, que falou sob condição de anonimato, insistiu que Zelensky está genuinamente interessado em retomar as negociações. Entretanto, Dmytro Iarovyi, professor associado da Escola de Economia de Kyiv e especialista em psicologia política, afirmou que tanto o ataque com drones quanto a carta, que classificou como “performática”, fizeram parte de uma tentativa coordenada de influenciar a narrativa do fórum. Segundo ele, a mensagem buscava mostrar à sociedade russa e aos governos ocidentais — especialmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que os recentes avanços territoriais da Ucrânia e os ataques de longo alcance contra alvos russos fortaleceram significativamente a posição de Kiev em eventuais negociações. “Trump sempre diz que a Ucrânia não tem cartas na mão”, afirmou Kurt Volker, ex-embaixador dos EUA na Otan e enviado para a Ucrânia durante o primeiro governo Trump. “Bem, a Ucrânia agora está mostrando que se encontra em uma posição mais forte.” Meses de negociações de paz apoiadas pelos EUA terminaram em impasse, com ambos os lados mantendo suas posições. Putin declarou aos editores estrangeiros que as conversas realizadas com Trump em Anchorage, no Alasca, em agosto do ano passado, já haviam delineado as condições necessárias para encerrar o conflito — uma aparente referência à sua exigência de que a Ucrânia ceda o restante da região de Donbas, o principal centro industrial e bastião militar do leste ucraniano. Mas Zelensky parece hoje menos disposto do que nunca a ceder à pressão dos EUA para entregar território. Em sua carta, afirmou que acolhe a participação americana, mas ressaltou que as questões relacionadas à Ucrânia “não serão decididas em Anchorage”, e sim pela própria Ucrânia e pela Rússia. Segundo ele, Moscou já não pode esperar conquistar toda a região de Donbas.
Carta de Zelensky a Putin tinha outros destinatários em mente
Mensagem tinha como alvo elites russas insatisfeitas com a guerra e os governos ocidentais, numa tentativa de projetar força












