Nacionalistas russos rejeitaram nesta sexta-feira (5) uma carta aberta escrita pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ao presidente Vladimir Putin, classificando-a como uma manobra maliciosa de relações públicas destinada a provocar descontentamento dentro da Rússia, e não a encerrar a guerra. Zelensky publicou a carta, na qual propõe um encontro entre os dois líderes para negociar o fim de mais de quatro anos de combates, enquanto Putin participava de um encontro com editores de veículos internacionais durante o principal fórum econômico da Rússia, em São Petersburgo. Durante a reunião, Putin manteve sua posição dura sobre a guerra e afirmou que as tropas russas avançam diariamente no campo de batalha. Ao mesmo tempo, disse que as propostas de paz do presidente dos EUA, Donald Trump, poderiam encerrar os combates caso Kiev estivesse disposta a fazer concessões. Ambos os lados acusam o outro de se recusar a ceder. Putin, que deve discursar mais tarde nesta sexta-feira no fórum, ainda não respondeu publicamente à carta, mas seu porta-voz afirmou que ele foi informado sobre seu conteúdo. Nacionalistas russos e blogueiros militares foram extremamente críticos em relação à mensagem de Zelensky. “Se você olhar para o texto da declaração em si, não há sequer um vestígio de diplomacia genuína”, escreveu Rybar, influente blogueiro militar com mais de 1,5 milhão de seguidores, descrevendo a iniciativa como um blefe. “Uma parte significativa da carta consiste em insultos diretos, retórica sobre ‘sua guerra sem motivo’, ameaças aos cidadãos russos com ‘drones sobre suas cidades’ e alegações sobre escassez de combustível e uma suposta nova onda de mobilização.” “Tomado em conjunto, tudo isso representa mais uma tentativa de provocar descontentamento interno na Rússia”, afirmou. Volodymyr Zelensky; Ucrânia — Foto: Michael Probst/AP “Objetivo é semear pânico” Oleg Tsaryov, ex-deputado ucraniano e atualmente figura pró-Rússia, apresentou interpretação semelhante. “A carta (...) sugere que a Ucrânia e seus aliados ocidentais acreditam que chegou a hora de concentrar esforços na frente doméstica russa”, afirmou. “O objetivo é semear pânico e insatisfação com a guerra.” Konstantin Malofeyev, magnata nacionalista casado com uma alta autoridade do governo e nomeado por Putin para cargos oficiais, disse que a resposta correta da Rússia seria ignorar a carta e derrotar a Ucrânia no campo de batalha. “Se ele [Zelensky] quisesse transmitir ou propor algo a Vladimir Vladimirovitch (Putin), teria feito isso por canais privados”, disse Malofeyev. “Mas Zelensky queria fazer um espetáculo, uma ação de publicidade.” Blogueiros militares também questionaram o que Putin e Zelensky teriam para discutir diante do aparente impasse nas negociações de paz. Segundo eles, Putin já afirmou repetidamente a Zelensky que, se quiser encerrar a guerra, deve retirar suas tropas do restante da região de Donbass, no leste da Ucrânia. Zelensky rejeitou essa exigência, afirmando que ela equivale a exigir a capitulação da Ucrânia. Segundo ele, abrir mão do território afetaria o destino de centenas de milhares de pessoas e deixaria o país perigosamente vulnerável a novos ataques russos. “Se não há pontos em comum além da troca de prisioneiros e dos corpos dos mortos, que acordos e memorandos podem existir?”, questionou Voenkor Kotyonok, blogueiro militar com mais de 300 mil seguidores. “O que Zelensky quer discutir?” Segundo ele, o Kremlin já deixou claro diversas vezes que Putin e Zelensky poderão realizar uma reunião presencial quando um compromisso negociado já tiver sido alcançado para formalizar um acordo — mas não antes.