Encontro ocorre em momento de fortalecimento da aliança entre Pyongyang e Moscou e de crescente disputa entre Pequim e Washington por influência global O presidente da China, Xi Jinping, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, se encontraram em Pequim — Foto: Jade Gao/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 10:49 Xi Jinping visita Coreia do Norte para reforçar laços com Kim Jong-un Xi Jinping realiza sua primeira visita à Coreia do Norte em sete anos, buscando fortalecer laços com Kim Jong-un em meio a uma aliança crescente entre Pyongyang e Moscou e tensões globais com os EUA. A cúpula de dois dias visa reafirmar a influência chinesa enquanto Kim explora sua proximidade com a Rússia para obter concessões econômicas. Essa dinâmica pode impactar o equilíbrio de poder na região, com implicações para a estabilidade e o programa nuclear norte-coreano. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A última vez que o principal líder da China, Xi Jinping, viajou para a Coreia do Norte, o ditador do país, Kim Jong-un, enfrentava o impacto das sanções internacionais e o fracasso das negociações nucleares com os Estados Unidos. Agora, quase sete anos depois, quando Xi retornar à Coreia do Norte na segunda-feira, encontrará um líder fortalecido por uma aliança com a Rússia que ajudou sua economia a sair do isolamento. Espera-se que Xi use a cúpula de dois dias com Kim para demonstrar uma frente unida entre aliados contra o Ocidente. Mas analistas afirmam que a China também está interessada em reafirmar sua influência sobre um vizinho que vem se aproximando de Moscou. Kim, por sua vez, deseja ser tratado menos como um parceiro subordinado à China e provavelmente usará sua nova proximidade com a Rússia para pressionar Pequim por concessões econômicas. Se a Coreia do Norte conseguir equilibrar com sucesso suas relações com os dois gigantes vizinhos, Kim poderá sentir-se ainda menos limitado para avançar em seu programa de armas nucleares. Isso pode desestabilizar uma região onde aliados dos EUA já demonstram preocupação tanto com o fortalecimento militar da China quanto com a capacidade de Washington de honrar seus compromissos de defesa enquanto consome recursos em uma guerra contra o Irã. Veja o que é importante saber sobre o encontro. Sinalização de unidade Xi provavelmente aproveitará seu raro acesso a Kim para lembrar ao mundo que a Coreia do Norte continua dependente da China e que Pequim não pode ser deixada de lado. Essa mensagem está alinhada aos esforços de Xi para projetar a China como uma superpotência em pé de igualdade com os Estados Unidos. Pequim busca mostrar que, enquanto Washington semeia instabilidade — seja por meio de sua guerra contra o Irã ou da imposição de tarifas a aliados e adversários —, a China atua como uma força estabilizadora no cenário internacional. Essa narrativa foi reforçada nas recentes cúpulas realizadas em Pequim. Apenas em maio, Xi recebeu Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, em cúpulas consecutivas na China. Neste ano, líderes de 17 países — do Canadá ao Paquistão e a Mianmar — já viajaram à capital chinesa. — Xi está tentando demonstrar que mantém relações melhores com os membros de seu grupo de aliados autoritários do que o presidente Trump mantém com seus parceiros democráticos — afirmou Kurt Campbell, ex-vice-secretário de Estado no governo do presidente Joe Biden (2021-2025)e presidente do Asia Group. Mas a decisão de Xi de fazer uma rara viagem ao exterior também evidencia a necessidade de cultivar sua relação com Kim. Pyongyang reduziu sua dependência de Pequim ao restabelecer, em 2024, um acordo de defesa mútua com Moscou que remonta à Guerra Fria. A Rússia forneceu à Coreia do Norte petróleo, alimentos e tecnologia militar em troca de tropas e munições para a guerra na Ucrânia. Isso criou um problema para a China, que deseja manter sua influência sobre a Coreia do Norte para conter comportamentos imprevisíveis do regime e garantir estabilidade em suas fronteiras. — Não há dúvida de que os chineses estão preocupados com o grau de proximidade da relação entre Coreia do Norte e Rússia — afirmou John Delury, historiador especializado no Nordeste Asiático e pesquisador da Asia Society em Seul. — Essa viagem ajuda a conter um pouco essa tendência e é uma forma de Xi voltar a se inserir na equação. Kim vive fase favorável A situação de Kim parecia difícil há apenas alguns anos. Primeiro, Trump abandonou as negociações nucleares com ele em 2019, frustrando as expectativas de que os Estados Unidos suspendessem as sanções. No ano seguinte, Kim levou seu país a um isolamento ainda maior ao fechar as fronteiras em resposta à Covid-19. A medida interrompeu o comércio com a China, principal fonte de mercadorias e divisas da Coreia do Norte. A sorte de Kim mudou não apenas com o fim da pandemia, mas também quando ele aproveitou as dificuldades enfrentadas pela Rússia na guerra da Ucrânia para estreitar laços com Moscou e recalibrar a política externa norte-coreana, até então fortemente orientada para a China. — A Coreia do Norte já não é uma nação dependente de um único patrono — afirmou Lee Byong-chul, analista do Institute for Far Eastern Studies, em Seul. — Ela encontrou uma nova sustentação estratégica na Rússia, além da China, que há muito tempo era sua tábua de salvação. Trump e as armas nucleares Uma das questões centrais em torno do encontro é qual pressão, se houver alguma, Xi exercerá sobre Kim para que ele volte a dialogar com os EUA. Desde que retornou à Casa Branca, Trump tem sinalizado repetidamente o desejo de realizar uma nova cúpula com o líder norte-coreano. É possível que o americano tenha pedido a Xi que transmitisse alguma mensagem durante sua passagem por Pyongyang. Kim, porém, permanece firme em sua posição de rejeitar qualquer diálogo com Washington que inclua seu programa nuclear como tema. Há muito tempo Kim considera esse programa uma forma de reduzir sua dependência de Moscou e Pequim em matéria de segurança, além de servir como proteção contra uma eventual invasão dos Estados Unidos. Essa percepção foi reforçada pela justificativa apresentada pelo governo Trump para atacar o Irã, alegando, em parte, a necessidade de impedir que o país desenvolvesse armas nucleares. A postura desafiante de Kim evidencia uma mudança significativa na forma como as maiores potências lidam com a Coreia do Norte. Durante anos, Pequim e Moscou compartilharam com Washington o objetivo de limitar o programa nuclear norte-coreano, votando ao lado dos EUA quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou amplas sanções contra Pyongyang em 2016 e 2017. Mas, há dois anos, Putin pareceu oferecer aprovação tácita ao programa nuclear norte-coreano ao assinar o pacto de defesa e prometer assistência técnica militar da Rússia. — Pyongyang tem o direito de adotar medidas razoáveis para fortalecer sua própria capacidade de defesa — afirmou Putin. Nesta semana, a Coreia do Norte revelou o que parece ser uma nova instalação de enriquecimento de urânio, divulgando imagens de Kim inspecionando centrífugas. Acredita-se que o país já tenha produzido material físsil suficiente para cerca de 90 ogivas nucleares e que tenha montado aproximadamente 50 delas até agora, segundo um relatório de 2024 da Federation of American Scientists. Nos últimos cinco anos, Pyongyang também avançou em um plano de modernização de armamentos, construindo um arsenal diversificado de armas com capacidade nuclear projetadas para atingir alvos em Seul e nos EUA. O líder norte-coreano Kim Jong-un inspeciona uma fábrica de produção de materiais nucleares recém-inaugurada em local não revelado da Coreia do Norte — Foto: AFP PHOTO/KCNA VIA KNS / AFP A China se opõe oficialmente à existência de uma Coreia do Norte nuclearizada, preocupada com a possibilidade de que aliados dos EUA, como a Coreia do Sul, passem a buscar seus próprios arsenais nucleares. No entanto, segundo analistas, sua posição tem mudado recentemente para refletir o desejo de melhorar as relações com Pyongyang e a percepção crescente de que uma Coreia do Norte armada nuclearmente oferece poder de barganha diante de Washington e Seul. Quando Xi e Kim se encontraram em Pequim em setembro passado, os comunicados oficiais dos dois governos omitiram qualquer referência à remoção de armas nucleares da Península Coreana, algo que havia sido parte padrão da linguagem diplomática por muitos anos. Pequim pode considerar que há pouco ganho geopolítico em ajudar Trump a administrar a ameaça nuclear norte-coreana e também pode concluir que forçar Pyongyang a abandonar seu programa nuclear seria impossível sem prejudicar as relações bilaterais. No mês passado, a Casa Branca anunciou que Trump e Xi “confirmaram seu objetivo comum de desnuclearizar a Coreia do Norte”. O governo chinês, porém, apresentou uma versão mais discreta da conversa, afirmando apenas que ambos “trocaram opiniões” sobre a Península Coreana.