O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024. Deste total, mais de 28 milhões de toneladas tiveram destinação inadequada e apenas 7,1 milhões de toneladas foram para reciclagem. O volume representa uma taxa de reaproveitamento de 8,7%, segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) - um percentual que teima em permanecer abaixo dos dois dígitos mesmo após a expansão de programas de logística reversa e a criação de novas metas regulatórias. A logística reversa busca garantir o retorno de produtos, embalagens e materiais após o consumo para reaproveitamento, reciclagem ou destinação adequada. Prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos, ela distribui responsabilidades entre fabricantes, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público. Para Pedro Maranhão, presidente da Abrema, ainda é necessário corrigir problemas em praticamente todas as etapas da cadeia. A separação inadequada dos resíduos pelos consumidores, a baixa cobertura da coleta seletiva, os custos logísticos elevados e a dificuldade de tornar economicamente atrativa a reciclagem continuam limitando o avanço do setor. “Os prefeitos não são sensibilizados para implantar coleta seletiva. As pessoas ainda separam errado e, quando separam, muitas vezes o material chega contaminado. Além disso, a coleta seletiva é bem mais cara do que a coleta convencional”, diz Maranhão. O fator econômico aparece como outro obstáculo relevante. “Hoje, vários produtos reciclados são mais caros do que o produto virgem. Nós pagamos impostos novamente sobre aquele material reciclado. Isso reduz o valor agregado do produto, diminui a renda dos catadores e reduz a competitividade da indústria”, diz o presidente da Abrema. Algumas empresas tentam construir cadeias próprias de reaproveitamento. Um dos exemplos é o Havaianas reCICLO, programa criado pela Alpargatas, em 2020, para recolher chinelos usados e reinseri-los em novas cadeias produtivas. Mais de 560 mil pares de chinelos já foram recolhidos, o equivalente a cerca de 200 toneladas de material. O volume ainda representa uma fração reduzida diante dos cerca de 200 milhões de pares comercializados anualmente pela marca. “A coleta é apenas a ponta do iceberg. Até poucos anos atrás, a cadeia de reciclagem da borracha expandida praticamente não existia no país. O desafio central está justamente em estruturar essa cadeia de ponta a ponta, incluindo coleta, logística, triagem e o desenvolvimento de aplicações que permitam transformar o resíduo em novos produtos”, afirma Maria Augusta Bottino, diretora de sustentabilidade da Alpargatas. Hoje, a iniciativa envolve mais de 50 cooperativas distribuídas por 13 Estados e cerca de 3.500 famílias. Nos últimos dois anos, a coleta em lojas cresceu 130%, enquanto o volume recebido pelas cooperativas aumentou 163%. “Há desafios de custo, especialmente em um país de dimensões continentais, entraves logísticos e regulatórios para transporte de resíduos, baixa cobertura de coleta seletiva e limitações da própria infraestrutura de reciclagem. Não existe um elo que, isoladamente, resolva o problema”, diz Bottino. Um dos maiores exemplos de boas práticas está no setor de baterias automotivas de chumbo-ácido. O Brasil apresenta uma das cadeias de logística reversa mais eficientes do mundo para esse produto, com índices de retorno e reciclagem superiores a 90% das unidades comercializadas. O desempenho é atribuído ao valor econômico dos materiais recuperados e à estrutura consolidada de coleta e reaproveitamento. A coleta também continua dependente do trabalho dos catadores para alguns materiais, como as latas de alumínio, onde o Brasil é referência mundial com taxas de reciclagem acima de 95%. A Abrema estima que cerca de 4,6 milhões de toneladas de resíduos recicláveis tenham sido recolhidas informalmente em 2024. Para ampliar a participação desses trabalhadores na cadeia, empresas, associações e governos apostam em novos instrumentos. Nos últimos anos, surgiram entidades gestoras para organizar a logística reversa e foram regulamentados os créditos de reciclagem, que remuneram as cooperativas pela recuperação de materiais. Em dezembro, o governo federal lançou o Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular (Pronarep), com aporte de R$ 10 milhões da Caixa para financiar o setor e ampliar a coleta seletiva. Apesar dos avanços, o país segue distante de absorver a totalidade dos resíduos gerados. “A logística reversa depende de coordenação e escala. Exige integração entre empresas, cooperativas, municípios e consumidores”, aponta Bottino.