Há quase sete décadas, o escritor John D. MacDonald pensou que o mundo andava desonesto e violento demais. Escreveu então "Cabo do Medo", uma história de bem contra o mal, sobre um estuprador que sai da cadeia querendo se vingar do homem que testemunhou contra ele. O livro virou filme cinco anos depois.

Em 1991, o cineasta Martin Scorsese, menos afeito a maniqueísmos, quis apimentar a trama com ambiguidade moral. Tornou o herói menos bondoso e o vilão menos maníaco e refez "Cabo do Medo" nos cinemas, o segundo maior sucesso comercial da sua carreira. Trinta e cinco anos se passaram, e o diretor decidiu emprestar sua expertise à nova encarnação da obra, pela primeira vez na televisão.

A minissérie "Cabo do Medo" chega ao Apple TV nesta sexta-feira com o anseio de ampliar os debates que Scorsese suscitou lá atrás —a Justiça é falha? Por que mentimos? Quão imoral é possível ser?

A diferença agora é que, em vez de só uma pessoa com culpa no cartório, conhecemos um casal que construiu sua felicidade em cima da punição de Max Cady, um condenado que tenta provar ter sido preso injustamente.

Nick Antosca, o "showrunner", diz que por isso ele considera a história septuagenária tão atual. "Há muita incerteza sobre de onde as ameaças vêm hoje em dia. Sentimos o tempo todo que estamos sendo vigiados. Estamos cercados de instituições que deveriam nos proteger, como a Justiça, a economia e a religião, que são falhas e desmoronam."