Se a bolsa brasileira sofre com a saída de recursos estrangeiros, Wall Street parece estar absorvendo parte desse capital. Em maio, o Nasdaq, índice que reúne grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, subiu 8% e registrou o segundo melhor desempenho entre os principais mercados globais, atrás apenas do Nikkei 225, do Japão. O avanço lá não ficou restrito às ações de tecnologia. No mesmo período, o S&P 500 acumulou alta de 5,15%, enquanto o Dow Jones avançou 2,78%. Na direção oposta, o Ibovespa recuou 7,22%. O rali também aparece no acumulado de 2026. O Nasdaq subiu, até o fim do mês passado, 16,05% no ano, seguido pelo S&P 500, com ganho de 10,73%, e pelo Dow Jones, que avança 6,18%. O que explica a alta? Segundo Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, a valorização das bolsas americanas reflete, principalmente, a robustez dos fundamentos microeconômicos. Para ele, a inteligência artificial segue como o principal motor do mercado americano. No entanto, houve uma mudança importante nos últimos trimestres: a tecnologia deixou de ser apenas uma promessa de crescimento para começar a aparecer de forma mais clara nos resultados financeiros das companhias. Essa mudança ajuda a reduzir, ao menos por enquanto, os receios de que o setor esteja vivendo uma bolha. "A diferença em relação aos trimestres anteriores é a monetização mais clara desses produtos e serviços, gerando receitas consistentes e impactos positivos nas margens. Esse ciclo de inovação atrelado à capacidade de execução é o principal responsável por sustentar a performance das bolsas", diz Lobo. O movimento ajuda a explicar a força do Nasdaq, que continua sendo impulsionado pelas gigantes de tecnologia. Mas os ganhos não ficam restritos a elas: fabricantes de semicondutores, empresas de infraestrutura para data centers e companhias de energia e utilidades públicas (utilities) também vêm se beneficiando já que são indispensáveis para suportar a crescente demanda computacional. Além disso, empresas de diferentes setores que incorporam IA em suas operações têm conseguido elevar a produtividade e reduzir custos. Ou seja: também se beneficiam desse movimento. Ainda há espaço para subir mais? Apesar da forte valorização recente, Lobo avalia que o mercado dos Estados Unidos continua oferecendo oportunidades para investidores com horizonte de longo prazo. Isso porque a inflação nos Estados Unidos segue acima da meta do Federal Reserve, o banco central americano, o que pode levar os juros a permanecerem elevados por mais tempo. Somam-se a isso as tensões geopolíticas globais, que podem aumentar a volatilidade dos mercados no curto prazo. "Neste contexto, é importante ressaltar que a economia dos Estados Unidos demonstra resiliência, e o ciclo de adoção de inovações tecnológicas mantém a capacidade de destravar valor corporativo. No entanto, o cenário macroeconômico exige cautela", pondera o especialista da Nomad. Para o investidor brasileiro, ele pontua que, além da perspectiva positiva para o longo prazo, um dos benefícios é a própria diversificação geográfica, tendo em vista que boa parte concentra o patrimônio em ativos locais, ficando mais vulnerável aos ciclos econômicos e políticos do país. Ao investir lá fora, o investidor também consegue acesso a empresas globais e a setores ligados à inovação tecnológica que não possuem equivalentes na bolsa brasileira. Outro benefício é a exposição ao dólar. Mesmo em queda no acumulado do ano, como boa parte dos produtos consumidos pelos brasileiros tem influência da moeda norte-americana, uma parcela do patrimônio dolarizada pode ajudar a preservar o poder de compra ao longo do tempo. Como investir na bolsa americana Além de investir diretamente nos papéis listados lá fora, para quem deseja começar a investir no exterior, os ETFs costumam ser uma das portas de entrada mais simples e econômicas, diz o especialista da Nomad. Esses fundos replicam índices de mercado e permitem acesso a dezenas ou centenas de empresas por meio de uma única aplicação. "Ao adquirir cotas de um ETF atrelado ao S&P 500 ou ao Nasdaq, o investidor acessa simultaneamente uma cesta com as empresas mais capitalizadas do mundo. Esse modelo pulveriza o risco associado à escolha de empresas individuais, e permite capturar de maneira passiva e sistemática o retorno de risco do mercado americano, mitigando a complexidade de escolha e de monitoramento ativo de carteiras", diz ele.