A Marcha para Jesus, em sua 34ª edição, é uma linha reta somente no percurso da estação da Luz até o Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. No mais, da concepção à execução, a Marcha tem cruzamentos explícitos entre religião e política, e curvas sinuosas que vão da fé evangélica popular ao entretenimento gospel

"Todo lugar que a planta do vosso pé pisar vos tenho dado, como eu prometi a Moisés" é o versículo bíblico utilizado para incentivar os participantes a escreverem seus pedidos de oração em uma palmilha de calçado distribuída pela Marcha. Neste ano, os participantes poderão escrever, além dos pedidos pela família, saúde e trabalho, o pedido para serem os ganhadores do carro elétrico que será sorteado durante a Marcha.

Estevam Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo e presidente da Marcha, sabe articular interesses distintos com rara habilidade. Políticos buscam visibilidade e votos. Cantores buscam público e cachê. Pastores buscam demonstrar força institucional. E os fiéis buscam experiências religiosas que os façam sentir pertencimento, entusiasmo e comunhão.

Não há, em princípio, nada de ilegítimo em cada grupo perseguir seus objetivos. O problema começa quando se observa o modo como esses interesses se entrelaçam. Vereadores que destinam emendas para financiar a Marcha costumam aparecer com destaque, seja em carros de som, seja no palco, seja nos discursos voltados a milhares de pessoas. A fronteira entre apoio institucional e uso político do evento se torna, no mínimo, nebulosa.