O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu ontem à possibilidade de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, disse que pretende ir à reunião do G7 na França neste mês, afirmou que recorrerá a Donald Trump e voltou a criticar o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Em nota, o Palácio do Planalto classificou a possível taxa como uma medida protecionista e citou ainda a Lei da Reciprocidade, aprovada no ano passado. Na nota, o Executivo afirma que o argumento dos EUA para justificar a sobretaxa de 12,5% para países como o Brasil — de que falharam ao impor restrições à entrada de produtos fabricados com “trabalho forçado” — é “absurdo” e “lamentável”. “É lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais”, diz o texto. “É um absurdo tentar associar a competitividade da economia brasileira a insumos externos obtidos por meio de comércio que viole a dignidade humana”. Na nota, o governo manifestou “profunda discordância” com a conclusão a respeito do trabalho forçado e disse que o Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, “para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional”. Busca de novos parceiros O Brasil participará como convidado do encontro das maiores economias do mundo, o G7, que vai ocorrer entre os dias 15 e 17, e o Palácio do Planalto vê no evento uma possibilidade de reunião com Trump. Integrantes do governo afirmam que não há agenda entre os presidentes marcada, mas como o grupo de líderes presentes é menor, um encontro será “inevitável”. A ida do republicano ao encontro também não foi confirmada. — Eu nem ia para o G7, mas agora eu vou — disse Lula, ao abrir uma reunião ministerial ontem. — Alguém tem que tentar colocar ordem na casa e colocar um paradeiro nesse desmonte da democracia. O presidente também anunciou que pretende mandar uma nova carta a Trump para tentar derrubar as novas tarifas impostas ao Brasil pelo governo americano. Segundo Lula, a ideia é mostrar que os EUA “estão equivocados”. “Esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil, ele é um latino-americano frustrado”, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República — Vou mandar outra carta ao presidente Trump, vou escrever quantos artigos forem necessários na imprensa americana e mundial para mostrar que eles estão errados, equivocados e que eles estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária — disse. Lula afirmou que, caso os EUA não aceitarem negociar, não vai “ficar chorando” e buscará novos parceiros comerciais: — Se ele não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar, não vamos ficar reclamando. Se não quiser investir aqui vamos procurar outros. Defesa do Pix Durante a reunião no Palácio do Planalto, uma tela ao fundo exibia os dizeres “o Pix é do Brasil”, em referência à acusação feita pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) para sobretaxar o Brasil, de que o país adota práticas desleais de comércio por meio do sistema de pagamentos instantâneo usado por milhões de brasileiros. A defesa da soberania e do Pix se tornou o ponto central da reação brasileira às medidas anunciadas pelos EUA e trunfo eleitoral de Lula, que acusa a família Bolsonaro, em especial o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato ao Planalto, de ter articulado as sanções junto a Trump. Lula participa de reunião ministerial. Ao fundo, um painel diz que 'o Pix é do Brasil' — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo Lula ainda manteve a estratégia de focar as críticas mais duras ao secretário de Estado americano e evitado confronto mais direto com Trump. A tática, que já havia sido adotada na terça-feira, em discurso em evento em Goiás, ficou explícita na abertura da reunião ministerial ontem. Rubio faz parte da ala mais radical do governo americano e integra o movimento Make America Great Again (Maga). Também é entre os membros do primeiro escalão o que tem relações mais próximas com a família Bolsonaro. De origem cubana, Rubio é ainda um crítico de governos de esquerda da América Latina. — Esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil, ele é um latino-americano frustrado — afirmou. Durante o discurso, Lula lembrou declaração de Rubio sobre não considerar o Brasil um aliado. O secretário disse que a América Latina está “cheia de aliados” dos EUA, com exceção de Cuba, Venezuela, Nicarágua, Brasil e o governo colombiano de Gustavo Petro. A declaração foi dada durante um depoimento do chefe da diplomacia americana ao Comitê de Relações Exteriores do Senado. — Nós somos grandes, temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil esta semana, não é possível — afirmou o presidente brasileiro. Em sua nota de resposta aos EUA, o governo disse ter fornecido manifestações escritas e explicações sobre o arcabouço legal nacional para coibir importações de bens produzidos por trabalho forçado. Afirmou que as autoridades aduaneiras brasileiras detêm competência legal para negar a entrada e confiscar qualquer mercadoria estrangeira que seja contrária à moral pública, aos bons costumes, à saúde pública ou à ordem pública. “Qualquer bem produzido no todo ou em parte por trabalho forçado enquadra-se nessa definição”, afirma a nota. O Planalto disse ainda que o Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil segue à disposição dos EUA e afirma esperar que recomendações preliminares do USTR não se convertam em tarifas efetivas. Além disso, reiterou que adotará medidas para reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros.
Reencontro com ‘climão’: após novo tarifaço, Lula e Trump podem ficar cara a cara ainda neste mês na França
Lula diz que vai participar da reunião do G7, pretende mandar carta para Trump e endurece críticas ao secretário de Estado americano. Em nota, Brasil reforça que pode recorrer à Lei de Reciprocidade












