A oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX provavelmente tornará ainda mais rico o já abastado governo do presidente dos EUA, Donald Trump. Dez autoridades, do enviado especial Steve Witkoff à administradora da Small Business Administration (Administração de Pequenos Negócios) Kelly Loeffler, declararam participações financeiras na empresa de foguetes de Elon Musk ou na xAI, companhia de inteligência artificial e redes sociais que se fundiu com ela em fevereiro, segundo suas divulgações financeiras públicas mais recentes. Ao todo, os servidores federais detinham ações da SpaceX ou da xAI avaliadas entre US$ 9,9 milhões e US$ 43,8 milhões, de acordo com os documentos, apresentados no ano passado e que informam os valores dos ativos em faixas amplas. Essas autoridades podem ter vendido parte ou a totalidade de suas participações desde então sem necessidade de novas divulgações. A SpaceX se destaca tanto pelo tamanho sem precedentes de seu IPO planejado quanto por seus estreitos laços com o governo e integrantes da administração. A operação, que deve ocorrer já na próxima semana, tem potencial para transformar Musk no primeiro trilionário do mundo caso alcance a avaliação pretendida de pelo menos US$ 1,8 trilhão. Também se espera que a oferta transforme diversos executivos e investidores da empresa em bilionários, além de gerar milhões de dólares em riqueza para funcionários. A empresa é uma importante contratada do governo, com US$ 4 bilhões em transações federais no ano fiscal de 2025. No mês passado, recebeu outros US$ 6,5 bilhões em dois contratos da Força Espacial dos EUA para fornecer satélites de comunicação e monitoramento de ameaças aéreas. Enquanto isso, Musk ajudou a selecionar dezenas de pessoas para cargos voltados ao corte de contratos e à coleta de dados em todo o governo federal durante o período em que comandou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge). Muitos deles eram seus próprios funcionários, vindos da SpaceX ou de outras empresas de seu grupo. No último mês de Musk em Washington, Paul McInerny, ex-engenheiro da SpaceX, foi nomeado diretor de informação (CIO) do Departamento do Interior. McInerny declarou a maior participação em SpaceX entre as autoridades analisadas, entre US$ 5 milhões e US$ 25 milhões. Ele não precisou se desfazer do investimento e recebeu uma dispensa ética para atuar em questões amplas que poderiam afetar a empresa, mostram os registros. Um porta-voz do Departamento do Interior afirmou que McInerny se declara impedido de participar de qualquer assunto relacionado a seus interesses financeiros. “Paul McInerny decidiu servir ao nosso grande país porque acredita na missão do governo Trump e sabe que toda a estrutura governamental pode operar de forma mais eficiente para o contribuinte americano”, disse o porta-voz. “O sr. McInerny leva suas obrigações éticas a sério.” Steve Witkoff Outro detentor de participação relevante na SpaceX era Witkoff, que atuou em negociações de paz envolvendo Ucrânia, Gaza e Irã. Ele declarou ativos entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões na 3G Investors LLC, veículo cujo único investimento informado no documento era a SpaceX. Um porta-voz da Casa Branca não comentou a declaração de Witkoff. Na maioria dos casos, não está claro se as autoridades alteraram suas participações desde que foram declaradas. Embora sejam legalmente obrigadas a informar a venda de determinados ativos em até 45 dias após a transação — incluindo ações e títulos — participações em empresas privadas estão isentas dessa exigência. Novas declarações financeiras apresentadas em maio devem se tornar públicas até meados de junho. “Sem precedentes” A SpaceX pretende captar até US$ 75 bilhões, o que faria da operação a maior oferta pública de ações da história. Mas especialistas em ética no setor público afirmam que o caráter incomum do caso vai além do tamanho da operação. “Este é realmente um evento único”, disse Caleb Burns, copresidente da área de legislação eleitoral e ética governamental do escritório Wiley Rein LLP. “É a maior oferta pública da história, liderada por um ex-aliado próximo do presidente que, por meio de suas iniciativas no Doge, teve envolvimento com praticamente todos os órgãos administrativos do governo federal.” “Historicamente, não há precedentes comparáveis”, acrescentou. Kevin Warsh Em pelo menos um caso, um indicado ao governo precisou se desfazer de sua posição na SpaceX para atender às exigências éticas. Kevin Warsh, que substituiu Jerome Powell na presidência do Federal Reserve no mês passado, tinha exposição à SpaceX por meio de um fundo ligado ao Duquesne Family Office, liderado pelo bilionário Stan Druckenmiller. Warsh afirmou em um documento de ética que venderia sua participação nesse fundo antes de assumir o cargo no banco central. O Fed não quis comentar além do conteúdo do documento. Em outras áreas do governo Trump, autoridades também declararam participações menores em empresas de Musk. Loeffler, ex-senadora e atual administradora da Small Business Administration, informou um investimento na xAI avaliado entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões. Registrado como ativo do escritório familiar que administra os investimentos dela e de seu marido, Jeffrey Sprecher, fundador da Intercontinental Exchange Inc., o investimento estava em uma conta do UBS Group AG por meio de um fundo da Valor Equity Partners cujo único ativo era a xAI, segundo o documento. A Valor foi fundada por Antonio Gracias, associado de longa data de Musk, e é uma das maiores detentoras de participações na SpaceX depois do próprio empresário. A SBA não respondeu a pedido de comentário. Michael Lynch, ex-funcionário da SpaceX e atual vice-administrador da General Services Administration — órgão responsável pela gestão de contratos e propriedades do governo federal — possuía entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão em participações na empresa, mostram os documentos. “Todas as políticas e procedimentos éticos apropriados foram seguidos nesse caso”, afirmou um porta-voz da GSA em comunicado enviado por e-mail. “O vice-administrador Lynch está utilizando sua experiência de liderança no setor para ajudar órgãos federais a adquirir e usar soluções tecnológicas inteligentes com a melhor relação custo-benefício para os contribuintes americanos.” Stacey Feinberg, embaixadora em Luxemburgo, declarou interesse financeiro na xAI por meio de um fundo administrado pela 1789 Capital, da qual Donald Trump Jr. é sócio. Sua participação no fundo valia entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão. Assim como McInerny, ela recebeu autorização para manter o investimento, após o governo concluir que a possibilidade de sobreposição entre suas funções e os interesses da empresa era “remota”. Os embaixadores dos EUA na Irlanda, na República Tcheca e em Portugal também declararam participações na SpaceX e na xAI. Um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que todas as autoridades do governo, incluindo embaixadores, devem cumprir os requisitos de divulgação ética e as obrigações legais. Reilly Steel, professor associado de direito da Universidade Columbia, disse não conhecer “outro IPO nos últimos anos em que tantas autoridades graduadas do governo tenham interesse financeiro”. Autoridades responsáveis por questões de ética precisam avaliar cuidadosamente os interesses financeiros de nomeados para cargos públicos quando esses investimentos envolvem empresas que fazem negócios com o governo. “Há obrigações de impedimento que podem ser aplicadas para lidar com qualquer percepção de conflito de interesses”, disse Burns, da Wiley Rein. “Mas não é uma avaliação simples.” McInerny, que recebeu entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões com a venda de parte de suas ações da SpaceX em 2024 e 2025, trabalhou na área de software da empresa dando suporte às primeiras missões Dragon e Falcon 9, segundo o site do Departamento do Interior. Hoje, ele supervisiona todos os dados e tecnologias do departamento, responsável pela administração de centenas de milhões de acres de terras federais, licenciamento ambiental e outras atribuições. A SpaceX mantém diversas interações com o Departamento do Interior, inclusive como contratada de menor porte. O Serviço Nacional de Parques utiliza satélites Starlink da empresa. A SpaceX também busca aprovações regulatórias para projetos. No Texas, por exemplo, solicitou ao Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, órgão vinculado ao Departamento do Interior, autorização para instalar linhas de serviços públicos e uma estrada próxima a um refúgio de vida selvagem. McInerny ressaltou aos responsáveis pela área de ética que vender suas ações da SpaceX seria um processo complexo. Enquanto permanecer uma empresa privada, a SpaceX controla quando os acionistas podem vender e quanto de suas participações podem alienar, segundo sua dispensa ética. O governo autorizou McInerny a participar de decisões sobre questões de “aplicação geral” que possam afetar potencialmente seus próprios interesses financeiros na SpaceX, para que ele pudesse continuar exercendo suas funções, mostram os documentos. Segundo Scott Amey, diretor jurídico do Project on Government Oversight, o arranjo merece atenção rigorosa. “Pode ser legal, mas não é a melhor prática”, afirmou. “Isso exige supervisão diária. A melhor prática seria se desfazer da participação para eliminar até mesmo a aparência de um conflito de interesses.”
IPO da SpaceX pode enriquecer integrantes do governo Trump
Ao todo, os servidores federais detinham ações da SpaceX ou da xAI avaliadas entre US$ 9,9 milhões e US$ 43,8 milhões













