A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tirou quase um quinto à previsão de crescimento para Portugal para este ano e deixou o Governo isolado. A OCDE era a única instituição que ainda não tinha actualizado as previsões após o intensificar do conflito no Médio Oriente. O executivo de Luís Montenegro é a única entidade que acredita que o produto interno bruto (PIB) sobe este ano 2%. As restantes organizações antecipam valores inferiores.A organização com sede em Paris vê a economia portuguesa a crescer este ano 1,8%, quando em Dezembro do ano passado apontava para uma variação do PIB igual a 2,2%. Esta actualização das previsões tira 18% à projecção de evolução do PIB, ou seja, quase um quinto.Se a previsão da OCDE acertar no resultado final de desempenho económico, Portugal registará um abrandamento face ao ano anterior, quando o PIB aumentou 1,9% e voltará a registar uma desaceleração em 2027 quando a economia crescerá 1,7%.Com esta alteração, todas as instituições que acompanham Portugal apontam para um crescimento económico que não chega aos 2%. O Governo de Luís Montenegro acredita que a economia portuguesa cresce este ano 2%, o que representa uma aceleração face a 2025, embora de apenas uma décima. O Conselho das Finanças Públicas é a instituição mais pessimista ao apontar para um PIB a variar 1,6%.Para 2026, a Comissão Europeia antevê um crescimento do PIB de 1,7%, o Banco de Portugal aponta para 1,8% (igual à previsão da OCDE) e o Fundo Monetário antecipa um crescimento do PIB igual a 1,9%. Todas acreditam que a economia abranda entre 2025 e 2026.A desaceleração prevista para a economia portuguesa acontece num contexto de perda de velocidade a nível mais global. “A evolução do conflito no Médio Oriente converteu-se num factor determinante para as perspectivas económicas mundiais, provocando uma crise energética que está a intensificar as pressões inflacionistas e que, previsivelmente, terá efeitos negativos no crescimento."“A economia mundial iniciou 2026 com um dinamismo sólido, mas as perspectivas deterioraram-se com força desde o início do conflito no Médio Oriente, cujos efeitos previsivelmente sentem-se por algum tempo”, disse o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann.Este acontecimento levou a OCDE a estudar dois cenários para medir o impacto do conflito na economia. Num cenário de duração limitada no tempo, a economia mundial trava de 3,4% para 2,8%. E em 2027, o crescimento do PIB mundial recupera para 3,1%. No entanto, se o conflito se prolongar no tempo, o impacto é maior. No conjunto do mundo, a economia abranda dos 3,4% observados no ano passado para 2,1% este ano, prolongando para 2027 a tendência de desaceleração para 1,8%. A OCDE assumiu o cenário de um tempo de duração limitada do conflito.Apoios sim, mas focados e temporáriosPerante os dois cenários – ambos indicam desaceleração certa este ano, diferindo na sua magnitude e no prolongamento para 2027 –, a OCDE deixa uma espécie de orientação aos países sobre o que fazer para ajudar as populações, numa altura em que as previsões apontam para tensões inflacionistas.“Qualquer apoio orçamental que os países adoptem para responder ao choque deve ser dirigido aos mais necessitados e devem ser temporários, para evitar um aumento da dívida pública e preservar os incentivos para poupar energia”, afirmou o secretário-geral.Uma posição em linha com o que tem defendido a Comissão Europeia e o Governo português que no Parlamento tem enfrentado tentativas da oposição para aprovar medidas de alívio do IVA aplicado aos alimentos.Do ponto de vista das contas públicas, a OCDE antecipa que a política orçamental este ano vai ajudar a amortecer a desaceleração. Para 2026, a OCDE espera um saldo orçamental nulo, ao passo que para 2027 é esperado já um défice de 0,1%.A conter o abrandamento económico este ano estão as despesas no âmbito da execução do Plano de Recuperação e Resiliência, as medidas temporárias para responder ao aumento dos preços da energia, incluindo o alívio fiscal nos impostos sobre os combustíveis, assim como as medidas de apoio às populações atingidas pelas tempestades do início de 2026.