A investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que propôs a imposição de tarifas de 25% sobre produtos do Brasil ficou praticamente parada por nove meses nos escaninhos do governo Donald Trump. A vagarosidade contrasta com outro processo aberto pela divisão em março passado que mira o país e outras 57 nações, e que apesar de ter uma amplitude consideravelmente maior, tramitou por apenas três meses e deve ser concluído nesta semana. O fato de o governo Trump anunciar conjuntamente o resultado de dois inquéritos com discrepância tão grande entre os prazos de investigação, além da publicação do presidente americano nas redes exaltando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) poucas horas após a ameaça do novo tarifaço se tornar pública, somada à indicação do deputado trumpista Daniel Perez para a Embaixada no Brasil, reforça a tese de que há um movimento coordenado da ala mais ideológica do governo americano, capitaneada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, para interferir no processo eleitoral brasileiro. Esse segundo inquérito, aberto em março passado pelo mesmo USTR, apura se 58 países, entre eles o Brasil, falharam em adotar políticas contra o trabalho forçado. Caso se conclua que sim, esses países podem ter alguns setores da economia taxados em mais 10%. Conforme publicou O GLOBO, integrantes do governo foram avisados de que a conclusão deve ser divulgada nesta quarta-feira. A informação foi confirmada pela equipe da coluna. Um desfecho 83 dias após o anúncio da medida ocorre a despeito do inquérito contemplar 58 países, a União Europeia e a cidade autônoma de Hong Kong, na China, incluindo aliados próximos de Washington como Argentina, Arábia Saudita, Chile, Israel e Reino Unido, e do rito de investigações comerciais sob a chamada seção 301 prever consultas junto aos governos e empresas das economias investigadas. O USTR recebeu 500 contribuições de representantes de Estado, entidades setoriais e multinacionais, inclusive do Brasil. Uma audiência com as partes interessadas ocorreu em 28 de abril. Já o processo que levou ao anúncio de tarifas de 25% sobre a economia brasileira, anunciado noite de segunda-feira (1) foi aberto em julho de 2025, no mesmo período em que Trump anunciou o primeiro tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros após o lobby de Eduardo Bolsonaro (PL) junto ao governo dos EUA. O Brasil apresentou seus argumentos sobre as supostas irregularidades apontadas por Washington entre os dias 17 daquele mês e 18 de agosto, de acordo com o site oficial do USTR. A audiência com as partes interessadas ocorreu em 3 de setembro de 2025, e documentos adicionais foram incluídos no processo até o dia 10 do mesmo mês. Desde então, ainda segundo o próprio site do USTR, nada de novo aconteceu, e integrantes do governo e do empresariado passaram a última terça-feira argumentando que as conclusões apontadas pela gestão Trump parecem um “copia e cola” do material que já estava pronto em julho. No fim de abril, um relatório amplo sobre todas as apurações dos EUA referentes aos países monitorados pelo USTR apontou avanços do Brasil em algumas áreas, mas alegou que problemas persistiam no combate à pirataria e outras áreas. Além de ser um aliado muito próximo de Trump e também da ala ideológica, ligada ao chamado movimento Maga (Make America Great Again), o chefe do USTR, Jamieson Greer, participou diretamente das negociações comerciais com Lula e auxiliares do brasileiro no mesmo nível hierárquico de Rubio e dos secretários do Tesouro, Scott Bessent, e do Comércio, Howard Lutnick, por exemplo. Entenda as duas investigações da Seção 301 O processo concluído no início desta semana foi conduzido no âmbito da Seção 301, uma previsão fixada pela Lei de Comércio de 1974 dos EUA que autoriza o governo americano a apurar eventuais práticas comerciais por outros países que prejudiquem sua economia e, caso isso fique demonstrado pelo USTR, estas nações estão sujeitas a sanções unilaterais de Washington. No relatório de conclusão aponta supostos atos, políticas e práticas "irrazoáveis" do Brasil, como a implementação do sistema Pix, o mercado de etanol brasileiro, a alegada insuficiência de políticas para coibir a pirataria e a corrupção, acordos comerciais fechados com a Índia e o México, a demora na análise de patentes estrangeiras e até os índices de desmatamento no Brasil, embora o país deva registrar uma queda histórica nos números da Amazônia neste ano segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em resposta, o governo Lula divulgou uma nota na qual classificou a proposta de novas tarifas como "injustificáveis" e falou em "sabotagem" por parte dos Bolsonaro. "É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares", afirma o comunicado. Já a investigação mais recente, de março passado, cita suspeitas de que o Brasil e diversos outros países, além da União Europeia, tenham se beneficiado com a exportação de itens produzidos através do trabalho forçado ou análogo à escravidão ao não adotar medidas eficazes contra o problema. A lista inclui nações de diferentes níveis de desenvolvimento social e econômico, inclusive o segundo maior IDH do mundo, a Noruega. “Por tempo demais, trabalhadores e empresas americanas têm sido forçadas a competir contra produtores estrangeiros que podem ter se beneficiado com vantagens artificiais nos custos [de produção] obtidas através do trabalho forçado”, afirmou Greer na data em que o processo foi instaurado. Pelas regras da Seção 301, as investigações podem durar até 12 meses com possibilidade de prorrogação. Ao que tudo indica, porém, a hipótese do trabalho forçado não terá ocupado nem um semestre do trabalho dos burocratas do governo. Em abril passado, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresentou ao USTR um documento de quase 30 páginas argumentando que o governo brasileiro adotou iniciativas legais, administrativas e políticas para coibir o problema, bem como a venda de produtos com esta origem, por meio de medidas constitucionais e infraconstitucionais que impõem riscos regulatórios às companhias que se sobrepõem a eventuais ganhos financeiros. O chanceler também apontou que o país integra uma série de tratados internacionais contra o trabalho forçado que, na prática, estendem os efeitos dos esforços do Brasil contra a prática para além das fronteiras nacionais. O tema também foi abordado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, que citou ainda a chamada “lista suja” do trabalho escravo mantida pelo Ministério do Trabalho e a criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, que resgata trabalhadores nestas criações, ainda nos anos 90.
Investigação que pode levar a novo tarifaço de Trump ficou parada por quase um ano
Outro processo que mira Brasil e outros 57 países avançou em menos de três meses; dados do governo americano reforçam tese de interferência eleitoral











