O mais racional seria ficar com um pé atrás, não embarcar na onda, ver os jogos com objetividade e frieza Neymar Júnior, Vinícius Junior e Lucas Paquetá em jogo da seleção brasileira — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/06/2026 - 20:01 Paixão à Prova: Brasileiros e o Amor Inabalável pelo Futebol O texto discute a relação contraditória e emocional dos brasileiros com o futebol e, especialmente, com Neymar. Apesar das críticas ao jogador e à seleção, o amor pela Copa do Mundo prevalece, levando muitos a esquecerem promessas de distanciamento e a se envolverem novamente com paixão. A crônica reflete como essa mesma emoção se aplica a outras áreas da vida, ressaltando que é difícil resistir a uma paixão, seja ela por futebol ou por algo mais pessoal. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO - Menino Ney é o escambau! Já é adulto há tempos e continuam tratando como se fosse garoto! E ele acredita nisso! Ela fala mal do Neymar por horas: que é um desastre, que é marqueteiro, machista, que não joga mais nada. Faz um longo parecer sobre sua movimentada vida afetiva e suas declarações pra lá de polêmicas. No fim, decreta: — Um absurdo levarem um jogador fora de forma para a Copa. Tanto craque merecendo a vaga! O tal de Ancelotti errou feio. Menor chance do Brasil ganhar com esse peso morto no elenco. Em duas semanas ela estará em frente à televisão, se esgoelando pela seleção. Vamoooo! Se a situação apertar, se o Brasil ficar nas cordas, sou capaz de apostar o que ela vai dizer: — Deixa de ser burro, Carletto! Põe logo o Neymar! Deixa que ele resolve! Contraditório? Nem um pouco. Ele carrega uma mágoa de vinte e quatro anos. Em 2006 não acreditou no que aconteceu; em 2010, acreditou, mas quebrou a cara. Quatro anos depois a humilhação o fez dar um basta, subir numa banqueta e emitir uma declaração em frente à família e aos amigos, dez minutos depois da tragédia do Mineirão: — Quero comunicar a vocês que estou fora dessa palhaçada. Desisto. Esses caras não merecem a nossa torcida. Bando de mercenários inúteis! Como me fazem passar uma vergonha dessas! Chega de seleção! Nas Copas seguintes repetiu o roteiro. Na última, quando, no jogo contra a Croácia, ele viu o Neymar perguntando ao Fred o que estava fazendo no ataque, já colocou a banqueta perto da TV e preparou o discurso. O último pênalti nem tinha sido batido e ela já anunciava mais um rompimento. Em duas semanas estará de novo com a bandeira amarrada no pescoço, um chapelão verde-amarelo na cabeça e a vuvuzela na mão, pronto para a algazarra. Incoerente? Jamais. Em alguns dias serão esquecidos o pessimismo, a indiferença e as decisões racionais e ponderadas. Mesmo aqueles que juraram nunca mais embarcar na incerteza dos resultados vão esquecer o que disseram. Vão deixar pra lá as posições políticas, as propagandas de bet fora de hora, as escolhas duvidosas. Em poucos dias, estarão todos, mais uma vez, fazendo o que o coração manda. Peraí, perguntará o leitor mais atento às entrelinhas: o cronista está falando de futebol ou de outra coisa? Agora não sei mais. É outono, tem feito dias lindos e este azul que só existe agora faz a gente acreditar que vai dar tudo certo. Até o amor. Temos chances? Pelo que repetem os especialistas nas redes, não muitas. Como saber? O mais racional seria ficar com um pé atrás, não embarcar na onda, ver os jogos com objetividade e frieza. Sensato mesmo seria vibrar só quando a taça estivesse outra vez na mão do Brasil. Mas aí você lembra do avô que já se foi falando com lágrimas nos olhos sobre a seleção de 70 no almoço de domingo. Lembra do Galvão Bueno repetindo “É tetra!” enquanto todos se abraçavam na sala de casa. Lembra também da comemoração de 2002 e cantarola, saudoso e feliz, o “Deixa a vida me levar”. Foi lindo. Memórias que não se esquecem. Como não acreditar que vai dar certo outra vez? Respondendo ao leitor das entrelinhas: não, não falo só de futebol. A coisa mais inútil que se pode fazer na vida é resistir a uma paixão.