Deixar a segurança de um emprego promissor aos 23 anos e partilhar um apartamento para lançar um negócio no vazio tem tudo para parecer a receita perfeita de um falhanço. Mas, para Rodrigo Fernandes e João Cerejeira, o risco acabou por revelar-se a jogada certa. Em Janeiro de 2024, os dois amigos do Porto, ambos com percursos académicos exemplares, instalaram-se na lisboeta Rua Augusta à procura de inspiração. Rodrigo trabalhava directamente com Virgílio Bento, o fundador da Sword Health, enquanto João estava no início de uma carreira cobiçada na consultora McKinsey & Company. A vontade de construírem algo em nome próprio foi mais forte.“Decidimos ir morar juntos quase como forma de nos empurrarmos um ao outro, cada vez mais longe — e fomos agressivos: demitimo-nos de propósito, sem rede, para nos obrigarmos mesmo a avançar”, recorda João Cerejeira, na entrevista ao PÚBLICO. Sem o conforto de um salário garantido, o receio do fracasso serviu de combustível. “Ver a conta bancária a decrescer mês após mês foi a melhor forma de garantir que não havia caminho de volta”, confessa.A aposta transformou-se na Augusta Labs — é fácil perceber a origem do nome — e os primeiros resultados validam o arrojo. De acordo com a informação divulgada pela empresa, a tecnológica sediada em Lisboa regista um crescimento anual que supera as seis vezes, ultrapassou os 40 colaboradores e, mais relevante, fechou a sua primeira ronda de investimento. A operação avalia a startup, que nasceu há dois anos, em 50 milhões de euros.O financiamento é liderado por conceituados fundos internacionais de capital de risco e destaca-se pela presença de investidores particulares de relevo. Na lista de quem aplicou o seu dinheiro neste projecto constam executivos de multinacionais e os fundadores dos maiores unicórnios com ADN português: Virgílio Bento (Sword Health), Diogo Mónica (Anchorage), Paulo Rosado (OutSystems) e Nuno Sebastião (Feedzai). Para Rodrigo, ter o antigo patrão agora como investidor tem um peso especial. “Aprender directamente com o Virgílio foi excelente, sobretudo para perceber uma coisa: como se consegue crescer extremamente depressa sem perder a velocidade de startup”, assinala.O que faz um laboratório de IA aplicada?Afinal, o que vende a Augusta Labs? A empresa intitula-se um laboratório de inteligência artificial aplicada. Como os próprios desmistificam, com naturalidade: “Applied AI lab é até um termo cunhado por nós, mas na prática o que fazemos é pegar em toda esta tecnologia extraordinária, nos modelos de AI, e transformá-la em soluções concretas e profundas que funcionam dentro das empresas”.Isto significa que os jovens engenheiros não vendem software para gerir emails mais depressa ou simples caixas de diálogo para atendimento ao público. A intervenção faz-se nas próprias fundações das organizações que os contratam, sejam elas gigantes da Fortune 500, agências governamentais ou firmas de private equity (fundos de investimento).“O que fazemos não é optimizar uma coisa ou outra — é uma transformação end-to-end [de ponta a ponta]”, clarificam os fundadores. O processo obriga a startup a debater as operações com as administrações antes de escrever uma única linha de código. “Trabalhamos lado a lado com a c-suite [direcção executiva] para responder a uma pergunta: ‘se esta empresa fosse criada hoje, com toda a tecnologia disponível, como seria?’”Este tipo de restruturação corporativa pode soar frio e distante para a maioria das pessoas. Porém, a tecnologia implementada acaba sempre por afectar boa parte dos cidadãos. Quando um banco, um fundo ou o Estado automatizam as suas burocracias e colocam algoritmos a validar dados estruturais, as decisões deixam de demorar semanas e passam a demorar minutos. No fundo, a tecnologia liberta as organizações do “trabalho de empurrar papel”, o que se traduz em serviços mais rápidos e em profissionais com tempo para se focarem no essencial: o pensamento crítico e a empatia na resposta ao consumidor.Cicatrizes em vez de currículos perfeitosGerir uma estrutura capaz de redesenhar grandes empresas sem quebrar o bom ambiente é o grande desafio de quem recruta muito em pouco tempo. A dupla desdramatiza essa gestão: “Não vemos a ‘cultura’ como uma coisa que se mantém apesar do crescimento; vemo-lo sim como o que torna possível um crescimento tão rápido sem quebrar.”O empenho diário está em encontrar os perfis certos, travando a tradicional fuga de cérebros. “Convencer alguém a ficar em Portugal não é difícil — toda a gente adora Portugal”, notam os empresários. “O verdadeiro desafio nunca foi o país, foi criar a oportunidade profissional: a compensação certa e, sobretudo, trabalho com significado, ambicioso e diferente, e que torne ficar uma decisão óbvia.”Com esta visão, os diplomas universitários imaculados não ditam as regras na hora de assinar contrato. A prioridade na contratação assenta na vocação prática. “Temos um viés fortíssimo para testar as pessoas no terreno, com problemas reais, para perceber se sabem mesmo fazer”, apontam. Esta filosofia permite ir buscar talento onde os recursos humanos tradicionais não procuram. “Algumas das melhores pessoas que chegam à Augusta são ex-fundadores, muitos deles fundadores que falharam. Não têm o perfil ortodoxo, muitas vezes nem certificações — mas estiveram no terreno, a perceber e a construir. É isso que conta.”Graças ao financiamento de 50 milhões de euros, a empresa vai agora centrar-se na expansão internacional, apontando a bússola comercial aos competitivos mercados dos Estados Unidos e de Londres. O objectivo primário será o sector de private equity, onde o modelo tecnológico já provou grande eficácia. O resto do caminho far-se-á a partir da capital portuguesa, mantendo a ambição de demonstrar que as ferramentas capazes de alterar a economia global também se escrevem por cá.
Augusta Labs, a startup portuguesa que quer melhorar as grandes empresas com IA
Criada por dois jovens portugueses, a tecnológica fechou a primeira ronda de investimento. A missão é travar a fuga de talentos e transformar a fundo o mundo corporativo a partir de Portugal.












