O salto nos preços de chips de memórias e o conflito no Irã devem derrubar as vendas de smartphones em 13,9% este ano, em relação a 2025, aponta a consultoria Counterpoint Research. O volume de 1,08 bilhão de unidades vendidas pelos fabricantes de celulares em 2026 será o menor desde 2013. A crise no fornecimento de chips de memória é o principal motivo da alta de custos dos celulares e da consequente queda nas vendas. A Counterpoint estima que os preços de memórias nos padrões DDR4 e DDR5 tripliquem neste segundo trimestre, em relação aos valores praticados no quarto trimestre de 2025. A pressão de custos é maior sobre celulares mais baratos, os modelos de entrada, e intermediários. “O segmento abaixo de US$ 150 (R$ 2.263,00) corre o risco de ser praticamente eliminado do mercado em alguns países”, projeta a consultoria. Paralelamente, o consumo de aparelhos mais avançados vem aumentando, o que eleva ainda mais a demanda por memórias e, consequentemente, os preços destes itens no mercado global, observa Gabriela Moraes, analista do Global Technology Fund, da gestora brasileira São Pedro Capital. “Observamos uma recuperação no mercado consumidor com vendas do iPhone, da Apple, com a demanda crescendo dois dígitos”, afirma Gabriela ao Valor. A receita com as vendas do iPhone somou US$ 56,5 bilhões no segundo trimestre fiscal de 2026, crescimento de 21,6% na comparação anual. Segundo a Counterpoint, “Apple e Samsung são as fabricantes de equipamentos mais protegidas, enquanto a Huawei é a única marca chinesa com previsão de crescimento nas remessas em 2026”. Este ano, a consultoria estima que a Apple encerre o ano com estabilidade de vendas ante 2025, e que a Samsung tenha uma queda de 4% em volume de vendas “devido à disponibilidade estável de dispositivos e especificações consistentes em todo o seu portfólio”. Para outras fabricantes chinesas além da Huawei, a consultoria prevê um cenário difícil, com queda de 28% nas vendas da Xiaomi e recuo de 32% nas vendas da Transsion, devido à exposição a celulares vendidos por menos de US$ 150 ao consumidor. O fechamento do Estreito de Ormuz e o conflito entre Estados Unidos e Irã “adicionam uma dimensão geopolítica à recessão, embora se espere que os ventos contrários macroeconômicos sejam materialmente menos severos do que o choque inflacionário pós-Ucrânia”, observa a Counterpoint. As vendas globais de smartphones no primeiro trimestre recuaram 3,1% em relação ao mesmo período de 2025, na primeira queda após nove trimestres consecutivos de crescimento em volume. O desempenho trimestral, no entanto, foi melhor do que o esperado pela consultoria, já que os fabricantes anteciparam os estoques de chips de memória para mitigar o avanço nos preços tanto de memórias de processamento como de armazenamento de dados. A escalada de preços de memórias foi provocada pela demanda de data centers de inteligência artificial, o que provocou uma supervalorização das ações de fabricantes globais como Micron Technology, SK Hynix e Samsung Electronics. Para Gabriela, da São Pedro Capital, não há expectativa do mercado por aumento de capacidade produtiva de memórias este ano e equilíbrio de preços, mas sim em 2027. O analista-chefe da Counterpoint Research, Yang Wang, disse, em comunicado, que está é a crise mais grave já enfrentada por fabricantes de smartphones. “Os fabricantes dos segmentos de entrada e intermediário estão presos entre aumentos de custos inabsorvíveis e consumidores com limites de poder aquisitivo rígidos”. “A narrativa em torno do mercado de smartphones não é mais como aumentar as remessas ou a participação de mercado, mas sim se vale a pena permanecer no mercado”, completou. O impacto dos custos de memórias sobre eletrônicos de consumo tem motivado revisões de estimativas de vendas globais por outras consultorias do setor. Em março, a IDC projetou queda de 12,9% nas vendas mundiais de celulares, com recuo de 11,5% no Brasil. Em computadores pessoais (PCs), a projeção é de queda de 11,7% nas vendas globais e de 6,7% no Brasil. O Gartner estima que as vendas mundiais de celulares caiam 8,4% este ano e prevê um recuo ainda maior, de 10,4%, para o mercado PCs, em relação a 2025. Na avaliação da consultoria, há um risco de desaparecimento de linhas de computadores mais baratos, os modelos de entrada, até 2028.