Estado investe R$ 19,5 mil por aluno ao ano, segundo Movimento EducAçãoRio; especialistas apontam falhas de gestão e falta de prioridade política Na Escola Estadual Visconde de Cairu, no Méier, o índice de reprovação chegou a 40% entre estudantes do primeiro ano do Ensino Médio, em 2025 — Foto: Gabriel de Paiva RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 31/05/2026 - 23:54 Investimento alto, mas Rio de Janeiro é penúltimo no Ideb: gestão falha e corrupção são apontadas como causas principais Apesar do investimento anual de R$ 19,5 mil por aluno, o estado do Rio de Janeiro ocupa o penúltimo lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Especialistas apontam falhas na gestão e falta de prioridade política como causas principais. Apesar de recursos suficientes para reverter a situação, o estado enfrenta problemas de corrupção e má alocação de recursos, como mostram denúncias recentes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO As contas fluminenses para a educação estão no azul. A qualidade segue no vermelho. O estado lidera os gastos com ensino público no Brasil, mas é o penúltimo no indicador que mede a qualidade da aprendizagem no país, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Os números das movimentações financeiras vêm do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos na Educação (Siope) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), e a comparação é resultado de um levantamento do Movimento EducAçãoRio. Em território fluminense, gasta-se R$ 19.580 por aluno ao ano. O valor é 83% mais alto que o de Goiás, que ocupa o topo da tabela do Ideb com o melhor ensino e, segundo o que é declarado ao mesmo sistema, gasta R$ 10.704. — O estado tem um papel muito importante, tanto na entrega de educação pública quanto na indução, ou seja, na qualificação dos municípios para entregar qualidade. O Ideb é publicado a cada dois anos. Nosso último indicador mostra que o estado está em penúltimo lugar. Apesar de a gente ter o segundo maior PIB do Brasil, quando se fala de educação a relação se inverte — diz Carla Jucá, diretora-executiva do Movimento EducAçãoRio, que contou com a parceria da Falconi Consultoria no levantamento. Cada unidade federativa declara quanto destina para a pasta. O levantamento revela ainda que as despesas correntes, informadas pelo estado do Rio, avançaram em mais de 110% em cinco anos. — Esse investimento não chegou na valorização dos professores e nem na sala de aula — frisa a diretora. No mês passado, um diretor denunciou à Polícia Federal que o deputado estadual Thiago Rangel (que está preso) o pressionava para que R$ 200 mil fossem desviados de uma escola do Noroeste do Rio para financiar a campanha de sua filha em 2024. Outro escândalo foi a confirmação, pelo governador interino, Ricardo Couto, que funcionários fantasmas recebiam como servidores. Enquanto isso, professores do estado dizem amargar anos a fio sem aumento significativo no salário-base. — Nossos grandes desafios são tanto a luta por uma educação de qualidade quanto para a valorização dos profissionais da educação — afirma Pedro Mara, professor de Sociologia do Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, no Complexo do Alemão. Alunos do colégio citam outros problemas: segurança e estrutura. Dizem que a instituição tem equipamentos de tecnologia, mas a internet não funciona. Colégio Estadual Tim Lopes, vizinho do Complexo do Alemão — Foto: Fabiano Rocha Outros relatos vêm de escolas estaduais da Baixada e do Sul Fluminense. Professores relatam que receberam livros em grande volume, além da necessidade dos alunos. Equipamentos 3D e de realidade virtual também são subutilizados ou sequer têm uso. — Os livros ficavam no pátio, disponíveis para quem quisesse pegar — diz uma professora de Mesquita, que também notou um aumento expressivo de reformas nas unidades de ensino. A Secretaria estadual de Educação informou que a distribuição do material didático contempla, além do atendimento aos alunos matriculados, uma reserva técnica destinada a novas matrículas, transferências e reposições ao longo do ano letivo. Sobre gastos em excesso, foi iniciada uma auditoria administrativa “de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual”. O Executivo diz ainda que passa a adotar medidas como “a definição de um teto de R$ 130 mil, em conformidade com a Lei de Licitações 14.133, para intervenções classificadas como manutenção e pequenos reparos. Quaisquer obras que ultrapassem esse limite passarão a ser executadas pela Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ)”. Decisão política Olavo Nogueira Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação, diz que numa perspectiva esperançosa alguns pilares podem levantar o Rio na educação: — Primeiro, o Rio já dispõe de recursos suficientes para mudar essa realidade. Em segundo lugar, dá para aprender com vários estados brasileiros que avançaram nos últimos anos, encurtando o caminho e acelerando o passo. A questão-chave, no caso do estado, tem nome e sobrenome: decisão política — diz o especialista. Como noticiou o colunista Antônio Gois, do GLOBO, o Piauí foi o único estado a registrar melhorias consecutivas, tendo hoje o sexto maior indicador no ensino médio estadual. Enquanto o Rio, que chegou a ocupar a quarta colocação em 2013, despencou para penúltimo lugar nos resultados mais recentes. Carla Jucá concorda que exemplos de outros estados brasileiros, além dos primeiros no Ideb (Goiás e Paraná), podem inspirar a gestão fluminense. O Ceará desenvolveu políticas públicas nos últimos anos que dão bons resultados. A Lei do ICMS para o ensino foi inspirada no estado nordestino. Em 13 anos, foram rateados entre municípios mais de R$ 8,3 bilhões da cota do ICMS para saúde e educação. Entre as unidades da Federação, o estado do Rio foi o último a aderir, há 12 dias. Teca Pontual, diretora-executiva do Instituto João e Maria Backheuser e especialista em gestão educacional, frisa, no entanto, que não se pode aplicar um modelo padrão para todos os municípios fluminenses: — Municípios pequenos ou da Baixada têm desafios gigantescos. A defasagem (que começa na alfabetização) vai se acumulando nos anos finais. É preciso um trabalho sério com recomposição. Além disso, escândalos [de corrupção] dificultam muito a relação de confiança e legitimidade para que a política seja implementada — diz Teca.