A maioria dos resíduos plásticos da Califórnia está prestes a perder o símbolo de reciclagem. O símbolo das “setas em círculo”, criado em 1970 por um estudante universitário inspirado pelo florescente movimento ambientalista, tem sido, durante décadas, colocado indiscriminadamente em garrafas de plástico, embalagens de refeições para levar, sacos de batatas fritas e muito mais. Contudo, a grande maioria dos artigos com esta marca tem sido praticamente impossível de reciclar para a maior parte das pessoas.Os legisladores do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, afirmam querer pôr fim a esta farsa. Ao abrigo da chamada Lei da Verdade na Reciclagem, os plásticos não podem utilizar o símbolo se não forem recolhidos por programas de recolha domiciliária que abranjam 60% dos californianos e triados por instalações que sirvam 60% dos programas de reciclagem do estado (com alguns requisitos adicionais).Se a lei entrar em vigor a 4 de Outubro, como previsto, mais de metade dos tipos de embalagens e produtos de plástico vendidos no estado norte-americano deixará de poder utilizar o logótipo das setas em círculo. Tal afectará películas plásticas, espumas, PVC e plásticos mistos.A reescrita da legislaçãoA Califórnia é um de muitos estados que estão a reescrever as regras da reciclagem para transferir o ónus para os fabricantes, em vez dos consumidores. É um bom momento para repensar a forma como se reciclam os resíduos plásticos em casa e na comunidade — e para pressionar as práticas no sentido do que realmente importa.Grupos do sector alimentar e de embalagens processaram judicialmente o estado da Califórnia, classificando a lei como uma forma de censura cujas restrições vagas violam a Primeira Emenda e os direitos ao devido processo legal.“A lei já está a restringir a liberdade de expressão e a aumentar os custos, à medida que as empresas alteram ou retiram os rótulos de reciclagem para evitar responsabilidades”, argumentou uma coligação de fabricantes de embalagens, empresários do sector da restauração e produtores de lacticínios numa declaração divulgada em Março.Os defensores da lei contrapõem que as empresas induziram deliberadamente o público em erro ao transformar o símbolo de reciclagem num instrumento de marketing que oculta o facto de, na prática, apenas uma pequena fracção das embalagens de plástico ser efectivamente reciclada.“Não significa nada”“Não significa nada”, afirmou Saabira Chaudhuri, ex-jornalista do Wall Street Journal e autora do livro Consumed: How Big Brands Got Us Hooked on Plastic.“Se recuarmos à origem [do símbolo], nunca foi concebido para os consumidores. Alegadamente, nunca teve a intenção de nos dizer que algo era reciclável. Destinava-se a ajudar os recicladores a separar os plásticos, incluindo os não recicláveis.”Esta disputa em torno das setas em círculo não se prende apenas com a verdade na publicidade. A nova lei da Califórnia é a mais recente frente da batalha nos Estados Unidos para responder à pergunta: o plástico tem de ser reciclado — ou basta ser reciclável em teoria?Se as embalagens de plástico forem para reciclar, serão necessárias infra-estruturas maciças e alterações nas nossas cadeias de abastecimento. Se for maioritariamente lixo — menos de 10% de todos os resíduos plásticos foram reciclados até agora —, então o tsunami de plástico que invade a sociedade não tem para onde ir senão para os nossos corpos, para a biosfera e para os aterros ou incineradores.Eis o que o caso da Califórnia significa para o futuro do plástico e o que deverá deitar no seu caixote de reciclagem entretanto.
Porque proibir o símbolo de reciclagem é um avanço na luta contra o lixo plástico
Nova lei californiana limitará uso do símbolo das setas em círculo a plásticos que, de facto, sejam recicláveis para a maioria dos cidadãos.










