No jantar da última segunda-feira de maio, o Quinta da Manoella Branco 2024 foi o primeiro vinho servido. Caso fosse provado às cegas, poderia confundir o degustador que talvez pensasse se ele não seria francês ou talvez até da Borgonha. Diante da observação, o enólogo Jorge Serôdio Borges sorriu com uma ponta de resignação e orgulho. “As pessoas ainda não acham que Portugal pode fazer esses vinhos.”

A frase sintetiza a revolução que redesenha o mapa vinícola português nesse século. Há trinta anos, vinho português era sinônimo de tintos e brancos rústicos. Se hoje o retrato mudou, deve-se a um movimento de vanguarda do qual Jorge e sua esposa, Sandra Tavares da Silva, são protagonistas.

A virada do milênio foi o estopim. Ambos integraram a gênese dos Douro Boys, grupo de enólogos que com técnicas modernas provou que o Douro era capaz de entregar vinhos de mesa de nível mundial e não apenas o icônico Vinho do Porto. Apesar do nome, havia mulheres no movimento, como Sandra e sua amiga Susana Esteban. A revolução tem outro detalhe histórico: o Marquês de Pombal instituiu o Douro como a primeira região vinícola demarcada e regulamentada do mundo, em 1756.

Chegar ao clube do bolinha não foi fácil para Sandra. Antes de se consolidar como uma das enólogas mais influentes de Portugal, dividiu-se entre o esporte de alto rendimento e a moda. Entre os 10 e os 17 anos, jogou na seleção portuguesa de vôlei. Mais tarde, trabalhou como modelo profissional pela agência Ford Models. A timidez da infância foi vencida sob as luzes das passarelas e a pressão dos ginásios, mas o amor pela terra falou mais alto.