Cláudio Castro, governador do Rio, no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo Após as investigações do Banco Master e do Grupo Refit da Polícia Federal (PF) resultarem em duas operações contra o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) no intervalo de 11 dias e fulminarem sua pré-candidatura ao Senado Federal, a cúpula do seu partido no estado já está resignada sobre o endereço dos próximos alvos da corporação: a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Integrantes do PL ouvidos sob reserva pela equipe da coluna dão como certo que deputados estaduais suspeitos nos dois inquéritos e também nas apurações sobre a infiltração do crime organizado na máquina estadual receberão visitas da PF nas próximas semanas, o que tem deixado parlamentares bastante apreensivos. Isso porque não só Castro governou em uma espécie de simbiose com a Alerj, loteando cargos de todos os escalões, mas também tinha como braço-direitos em sua gestão duas peças-chaves da Assembleia. O primeiro é Rodrigo Bacellar (União Brasil), que presidiu a Casa até ser preso pela PF em dezembro suspeito de envolvimento com o Comando Vermelho e chegou a ser escolhido por Castro e o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, como o candidato governista nas eleições de 2026. Antes de ser alçado ao comando da Casa, ele foi seu secretário de Governo. O segundo aliado é o atual chefe do Legislativo fluminense, Douglas Ruas (PL), que foi um dos seus secretários mais poderosos à frente da pasta de Cidades e assumiu a candidatura de sucessão a Castro com a prisão de Bacellar. Só Cláudio Castro teve cinco celulares apreendidos pela Polícia Federal nas duas operações realizadas nos últimos dias 15. Como mostrou a newsletter Jogo Político do GLOBO na última sexta, um deles tinha 2 mil contatos salvos. O conteúdo dos aparelhos do ex-governador será destrinchado pelos investigadores que apuram as fraudes bilionárias da Refit e o esquema de propina que levou o Rioprevidência, fundo de pensão do estado, a investir quase R$ 3,7 bilhões no Banco Master. Até dentro do PL a avaliação é que os dois esquemas não poderiam ter se sustentado por tanto tempo sem o envolvimento de deputados. Em outubro de 2025, por exemplo, a Alerj aprovou um projeto de refinanciamento das dívidas do estado que foi desenhado sob medida para atender aos interesses da Refit, controlada pelo empresário Ricardo Magro, que mora nos Estados Unidos e é considerado foragido pela PF. A própria Polícia Federal apontou no relatório que embasou a primeira operação contra Castro que a Secretaria estadual de Fazenda funcionava como uma “extensão da estrutura empresarial do Grupo Refit”. No caso do Master, a Alerj, controlada pelo grupo político de Castro, tem trabalhado para enterrar uma CPI que investigaria os aportes do Rioprevidência no banco de Daniel Vorcaro. No passado, a Assembleia aprovou textos que facilitaram o plano de negócios do Credcesta, o programa de consignados da instituição que também é alvo de denúncias em outros estados. Mesmo antes da operação no âmbito da Refit, alas do PL do Rio já achavam muito difícil Cláudio Castro chegar em outubro de 2026 ileso e com condições políticas de disputar o Senado. Por essas e outras, o conteúdo dos celulares de Castro tem tirado o sono dos deputados estaduais. Operação Unha e Carne Mas o clima já não era de tranquilidade desde a prisão de Bacellar à época que ele presidia a Alerj, em dezembro, suspeito de vazar informações confidenciais de operações relacionadas ao CV. Mensagens obtidas pela PF no âmbito da Operação Unha e Carne apontaram que o dirigente da Assembleia informou o então deputado TH Joias (MDB), investigado por envolvimento com a facção, que ele seria alvo de uma operação no dia seguinte. A informação teria sido fornecida por um desembargador do do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário Júdice Neto. Os três foram indiciados pela PF em fevereiro. Pelo encadeamento dos fatos, a conclusão lógica do PL é que a Polícia Federal tem em mãos um material potencialmente explosivo para os deputados. Além disso, as apurações decorrentes da prisão de Rodrigo Bacellar já começaram a provocar reflexos na Alerj. No último dia 5, a Polícia Federal também prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) em um desdobramento da mesma investigação que abateu Bacellar no comando da Alerj. Rangel era suspeito de integrar um esquema de fraudes e superfaturamento de licitações na Secretaria de Educação. A PF encontrou no celular do parlamentar um vídeo com uma mala de R$ 500 mil que seria parte de um caixa 2 de Bacellar para o financiamento da campanha de aliados dele nas eleições municipais de 2024. Os investigadores descobriram que o acerto envolvia a distribuição de um total de R$ 2,9 milhões. Naquele ano, a filha de Rangel,Thamires, se elegeu vereadora de Campos dos Goytacazes aos 18 anos, a mais jovem do país na ocasião. Meses depois, foi nomeada por Cláudio Castro como subsecretária adjunta de Conscientização Ambiental na pasta de Ambiente e Sustentabilidade. Ela foi exonerada do cargo na véspera da prisão do pai pelo governo interino do desembargador Ricardo Couto. Áudios obtidos pela PF também mostram o deputado negociando cargos na pasta para familiares do traficante Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”. Pelo visto, sobram razões para a Assembleia se manter em estado de alerta.