Impulsionados pela ansiedade econômica, os jovens da Geração Z inclinaram-se para a direita nas eleições de 2024 nos Estados Unidos — uma oscilação de 15% em relação a 2020 — e ajudaram Donald Trump a vencer e retornar ao comando da Casa Branca, desencadeando uma onda de reflexão entre políticos e estrategistas democratas, consternados com o afastamento desse grupo demográfico antes tão confiável. Um ano e meio depois, alguns homens da Geração Z dizem estar desiludidos com o segundo mandato de Trump. Diversas pesquisas mostraram que os jovens eleitores estão se afastando drasticamente do republicano desde a última eleição presidencial, e pesquisas recentes do New York Times/Siena College constataram que a taxa de aprovação de Trump entre os jovens caiu cerca de 10 pontos percentuais nos últimos meses. Frustrado com o custo dos itens essenciais do dia a dia, Carter Tice, um jardineiro de 20 anos de Milwaukee, votou em Donald Trump nas eleições de 2024 porque o republicano prometeu alívio econômico — mas Tice ainda não viu nenhuma melhora. Em Phoenix, Jared Cassell, um garçom e gerente de restaurante de 25 anos, votou em Trump por causa de sua oposição ao aborto, mas ficou horrorizado com as batidas policiais contra imigrantes e se arrepende de sua decisão. E Owen Cheyne, de 21 anos, da zona rural de Klamath Falls, Oregon, que ouve podcasts de influenciadores que apoiaram Trump em 2024 — como Joe Rogan e Theo Von — ficou decepcionado com a tão alardeada política tarifária do presidente. — Ele disse que as coisas iam piorar por causa das tarifas, e disse que iam melhorar — disse Cheyne. — Ainda estamos esperando. Ao mesmo tempo, apesar dos esforços dos políticos democratas para alcançar os jovens explorando a "cultura machista" após as eleições de 2024, muitos jovens afirmaram que os democratas ainda não haviam encontrado uma mensagem convincente que os cativasse. Em entrevistas com duas dezenas de jovens em Wisconsin, Maine, Oregon, Arizona, Texas, Illinois e Washington, D.C., muitos disseram que sua insatisfação ia muito além da política. Eles relataram se sentirem intimidados por um mercado de trabalho implacável, pessimistas em relação a assuntos tão pessoais quanto suas perspectivas românticas e, de modo geral, inseguros sobre seu lugar na sociedade. Segundo eles, nenhum dos partidos estava abordando suas preocupações. Desde a vitória de Trump, os democratas começaram a se concentrar seriamente em trazer os jovens de volta ao partido, alertando para vários indicadores de que eles estão em declínio: o número de homens que se formam na faculdade está diminuindo e eles têm 10 pontos percentuais a menos de probabilidade de possuir um diploma de bacharel do que as mulheres; o salário médio por hora, ajustado pela inflação, é menor hoje entre a classe trabalhadora do que era há 50 anos; e eles representam cerca de 70% do que se chama de “mortes por desespero” — mortes por suicídio ou overdose. Ainda assim, com as eleições de meio de mandato em novembro e outra eleição presidencial se aproximando, muitos jovens disseram que sua lealdade política permanecia totalmente indefinida. Vincent McKibben, de 25 anos, engenheiro de hardware de computadores em Austin, Texas, cresceu em uma família progressista, mas aprecia o humor irreverente oferecido por vozes de direita como a de Joe Rogan, comediante americano. Recentemente, no entanto, ele começou a se preocupar com o fato de a heterodoxa "machosfera" se aproveitar de temas polêmicos da guerra cultural para atrair atenção, em vez de oferecer soluções substanciais. Mas isso não o deixou totalmente entusiasmado com os democratas. Ele disse que as vozes clínicas e focadas em políticas da esquerda pareciam "muito acadêmicas" e careciam de um carisma masculino com o qual as pessoas pudessem se identificar. Para ele, "ambos os partidos estão meio que errando”. Cassell, de Phoenix, ex-republicano e agora apartidário, afirmou que se sente “completamente perdido politicamente”: — Se você me perguntasse: "Qual é a figura política de quem você gosta?", eu não sei se consigo pensar em alguém. Parece que ninguém realmente se importa comigo. Mergulhando nas Guerras Culturais Os democratas percebem que precisam enfrentar os desafios que os jovens estão enfrentando. Vozes proeminentes da direita, como Tucker Carlson e o vice-presidente americano, JD Vance, têm se saído melhor ao abordar essas questões, reconhecem alguns democratas. Eles convenceram os homens da Geração Z de que são bem-vindos entre os conservadores, em parte oferecendo um modelo masculino de como eles deveriam viver, que inclui visões nostálgicas e tradicionais de família e casamento. Shauna Daly, diretora-geral do projeto Speaking with American Men, uma das muitas iniciativas de esquerda para compreender esse grupo de jovens, afirmou que os republicanos entrelaçaram as ansiedades sobre emprego, compra de imóveis e casamento em uma única “versão idealizada do futuro”. — A conexão entre esses elementos reside na percepção de que o mundo que era acessível às gerações mais velhas, particularmente aos seus avôs e pais, não é acessível a esses jovens — esclareceu Daly. Para ela, os democratas precisavam contestar o apelo de "retroceder no tempo", ao mesmo tempo que apresentavam uma visão alternativa. Em entrevistas, jovens demonstraram o quão complexo isso poderia ser. Muitos se mostraram profundamente céticos em relação à imagem do Partido Democrata e viam a esquerda como hostil. Alguns, por exemplo, disseram que uma dinâmica familiar tradicional, com o homem como provedor para a esposa e os filhos, lhes daria um propósito — uma aspiração de masculinidade que, segundo eles, a esquerda desencoraja. Dylan Pfaffenbach, de 21 anos, líder estudantil republicano na Universidade Carroll em Waukesha, Wisconsin, mencionou uma pesquisa da NBC que leu no ano passado, a qual constatou que "ter filhos" e "ser casado" estavam entre as definições de sucesso mais importantes para os jovens que votaram em Trump em 2024. Na mesma pesquisa, ambos os resultados ficaram perto do fim da lista de prioridades entre os jovens, especialmente as mulheres jovens, que votaram na ex-vice-presidente Kamala Harris. — Não vejo muita positividade em relação ao casamento entre os jovens de esquerda — destacou Pfaffenbach. Erin Esser, de 21 anos, amiga de Pfaffenbach e líder de um grupo progressista em Carroll antes de se formar este mês, disse estar preocupada com o fato de influenciadores da extrema direita, como Andrew Tate e Nick Fuentes, terem levado alguns jovens a "encontrar um bode expiatório" para seus problemas em encontrar emprego, comprar uma casa e formar uma família — culpando mulheres, minorias ou imigrantes. Grupo 'realmente instável' Alguns democratas reconhecem que não têm soluções fáceis para os dilemas culturais que atraíram jovens para a direita. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, sugeriu que os democratas têm sido “tímidos” em relação a questões masculinas. O partido, disse ele em entrevista, precisava pregar uma visão afirmativa de masculinidade que valorizasse o desejo de cuidar ou proteger a família. — Essas não são coisas das quais os homens devam se envergonhar — disse Newsom. Ainda assim, muitos democratas disseram estar confiantes de que a maioria dos jovens estava mais aberta a ideias progressistas do que a opinião convencional mais recente sugeria. Arianna Jones, diretora executiva da NextGen America, um grupo progressista, disse que sua organização realizou conversas informais por mensagem de texto, chamadas de Pulse Check, com 35 mil eleitores em campi universitários nas últimas semanas, perguntando sobre os assuntos mais importantes para os jovens. Questões culturais ou de gênero não foram mencionadas. Em vez disso, descobriram que os eleitores da Geração Z entrevistados se preocupavam mais com a corrupção e o autoritarismo percebido por Trump, bem como com a economia. Além disso, a guerra com o Irã era uma grande preocupação, segundo ela — os entrevistados estavam preocupados com os preços da gasolina e sentiam que Trump havia abandonado sua promessa de evitar envolvimentos estrangeiros. Muitas pesquisas também sugerem que os homens da Geração Z têm visões progressistas sobre questões como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Richard Reeves, presidente do American Institute for Boys and Men, um instituto de pesquisa de esquerda, disse estar exasperado com as pessoas que presumem que todos os jovens se tornaram repentinamente fervorosos apoiadores de Trump ou misóginos no estilo de Andrew Tate. — Talvez eles sejam, na verdade, bastante voláteis e indecisos — pontuou Reeves. 'Sensação de desesperança' Em sua busca para reconquistar os jovens, os democratas realizaram sessões de escuta, pesquisas com grupos focais e até veicularam anúncios provocativos anti-republicanos que se apropriam das táticas de choque dos influenciadores da “machosfera”. De forma mais tangível, eles lançaram uma série de candidatos ao Congresso com credenciais da classe trabalhadora — incluindo um bombeiro paraquedista em Montana, um operário metalúrgico em Ohio e um agricultor na Carolina do Norte — que combinam discursos progressistas sobre acessibilidade com uma atitude de autossuficiência que os jovens consideram atraente. Entre esse grupo, destaca-se Graham Platner, candidato democrata ao Senado pelo Maine. No final do ano passado, em um evento público em Biddeford, vários jovens disseram que Platner, um veterano da Marinha e proprietário de uma fazenda de ostras, oferecia um modelo de masculinidade raro na esquerda. — Ele é um cara rústico, um cara do interior, criador de ostras, que ainda tem decência — disse CJ McDonald, de 20 anos, que usa os pronomes neutros “they/them” (em inglês). Acima de tudo, os democratas disseram que precisavam se concentrar na raiz das ansiedades dos homens da Geração Z: a insegurança econômica. Empregos tradicionalmente ocupados por homens, como na indústria, estão em declínio, enquanto funções na "economia do cuidado", historicamente dominadas por mulheres, como enfermagem e magistério, devem crescer em 1,6 milhão até 2033. Um grupo de políticos proeminentes — alguns considerados possíveis candidatos à presidência em 2028 — concentrou-se em soluções potenciais, incluindo a governadora Gretchen Whitmer, do Michigan, democrata, e o governador Spencer Cox, de Utah, republicano. Entre eles, destacam-se dois governadores democratas, Newsom e Wes Moore, de Maryland, que lançaram iniciativas em seus estados com o objetivo de incentivar mais homens a se tornarem professores, além de abordar problemas de saúde mental e aumentar as oportunidades de emprego que não exigem diploma universitário. — Estamos olhando para muitos de nossos jovens e meninos não como um problema a ser resolvido, mas como um recurso a ser descoberto — declarou Moore em entrevista, Newsom refletiu publicamente sobre as dificuldades de namoro dos jovens e jogou Fortnite com um streamer da Twitch no ano passado, numa tentativa de entender esse grupo demográfico. Em um simpósio em Sacramento, em março, ele disse que começou a acompanhar essas questões depois de descobrir que seu filho pequeno estava seguindo influenciadores de direita online. Ele disse que continuou a ouvir jovens que expressavam “essa sensação de desesperança, de que ambos os partidos os haviam abandonado”. Eles sentiam que Trump não havia “cumprido a promessa de forma significativa e substancial”, pontuou Newsom. Mas, ao mesmo tempo, "não sentiam que nosso partido estivesse oferecendo uma alternativa", destacou.
Quem são os homens da geração Z que podem decidir as eleições legislativas dos EUA
Muitos homens da Geração Z que votaram em Trump estão desiludidos com seu mandato, mas dizem que também não ouvem propostas atraentes dos democratas














