O presidente Donald Trump ainda controla boa parte da base do Partido Republicano. Isso ficou claro nas recentes prévias partidárias, nas quais ele conseguiu afastar desafetos. Mas ele está enfrentando a maior revolta dos republicanos no Congresso dos EUA contra o seu governo. Muitos deles temem que políticas e atitudes de Trump alienem eleitores e custem caro ao partido nas eleições legislativas de novembro. Nos EUA, mesmo deputados e senadores no cargo precisam disputar prévias partidárias para concorrer à reeleição. Se perderem essas prévias, perdem a candidatura. Até agora, Trump conseguiu afastar dois deputados e um senador críticos a ele, apoiando adversários nas prévias. E pode desbancar outro senador. Além disso, vários congressistas desistiram de disputar a reeleição, pois teriam de enfrentar a oposição de Trump. Isso dá uma ideia do poder que o presidente tem sobre a base do partido (essas prévias são abertas aos eleitores) e da sua disposição de se vingar de congressistas que não lhe sejam fiéis. Trump dispõe ainda de muito dinheiro para financiar seus candidatos. No entanto, apesar dessas demonstrações de força política, ele vem enfrentando nas últimas semanas uma resistência inédita entre os republicanos no Congresso. O presidente vem tendo dificuldade para aprovar projetos de seu interesse e até perdeu uma votação importante. Congressistas republicanos têm externado com frequência cada vez maior críticas e temores em relação aos rumos do país. Em novembro, os EUA vão renovar toda a Câmara dos Deputados e 1/3 do Senado. Ou seja, a maioria dos congressistas terá de enfrentar o teste das urnas. E o humor dos eleitores americanos não anda favorável para o presidente e o Partido Republicano. Segundo a média das pesquisas do site RealClearPolling (RCP), os democratas lideram as intenções de voto para o Congresso por 48,6% a 41% (dado de ontem). Esse é o pior percentual dos republicanos desde que Trump assumiu seu segundo mandato, em janeiro de 2025. A aprovação do presidente, em 39,8%, também está no seu pior nível. Essas pesquisas apontam uma rejeição do eleitorado americano ao governo Trump e sugerem que há boas chances de os republicanos perderem a maioria no Congresso em novembro. Justamente por isso, alguns congressistas republicanos estão resistindo a apoiar propostas impopulares do governo. A votação de confirmação do novo presidente do Fed (o banco central americano), Kevin Warsh, ficou semanas empacada no Senado devido à oposição de um único senador republicano, Thom Tillis. Para votar a favor de Warsh no Comitê de Assuntos Bancários do Senado, Tillis exigiu que o Departamento de Justiça encerrasse a investigação contra Jerome Powell, à época o presidente do Fed, por considerá-la uma perseguição política. Trump acabou recuando, a investigação foi arquivada e Warsh, aprovado. Numa clara derrota da Casa Branca, o Senado aprovou neste mês, por 50 a 47, a limitação dos poderes de guerra de Trump no Irã. Para continuar com a guerra, o presidente precisaria de autorização do Congresso. Quatro senadores republicanos se aliaram à oposição democrata. A votação na Câmara deve ocorrer em meados de junho. Uma tentativa anterior de votar essa limitação fracassou por apenas um voto. Projeções agora indicam que vários deputados republicanos devem se juntar aos democratas pela aprovação. Isso seria uma derrota histórica para Trump. Assim, o presidente tem mais três semanas para fechar um acordo com o Irã, senão seu poder de atacar o país poderá ser podado pelo Congresso. Os iranianos sabem disso, o que os estimula a protelar as negociações. A própria guerra no Irã é muito impopular nos EUA. Ainda em maio, Trump sofreu outra derrota, relativa ao novo salão de festas que está sendo construído na Casa Branca. O presidente havia prometido que a obra seria toda financiada por doadores privados, ainda que num esquema pouco transparente. No entanto, congressistas republicanos tentaram embutir, num projeto de segurança interna dos EUA, um pedido de US$ 1 bilhão para a segurança do novo salão. Segundo pesquisa Ipsos, 56% dos americanos reprovam a obra, e apenas 28% aprovam. O salão é considerado um luxo desnecessário, num momento em que o pessimismo dos americanos com a economia bate recorde. Após ficar claro que a verba não seria aprovada, o pedido foi retirado. Não está claro como a obra será finalizada. Outro tema que está colocando a bancada republicana contra o presidente é o chamado Anti-Weaponization Fund, um programa criado pelo Departamento de Justiça dos EUA para oferecer reparação financeira e desculpas formais a cidadãos americanos que alegam ter sido vítimas de perseguição política, investigações ideológicas ou abusos judiciais por parte do governo federal. O fundo foi criado sem consulta ao Congresso, o que irritou parte da bancada republicana, segundo a mídia americana. A verba pública poderá ser usada para indenizar manifestantes condenados pela invasão do Congresso americano, em 2021, o que gerou oposição de organizações de policiais. Poderá beneficiar ainda amigos e aliados do presidente. A medida que criou o fundo encerrou também todas as investigações sobre irregularidades fiscais contra Trump e suas empresas. O anúncio do fundo gerou forte repercussão negativa nos EUA e causou um racha nos republicanos no Congresso, com acusações de que Trump está desconectado da realidade vivida pelos americanos. Deputados e senadores dos dois partidos apresentaram projetos de lei para tentar barrar o fundo. A rejeição foi tamanha que acabou travando a pauta de votações no Congresso. Outra medida recente que, segundo a mídia americana, desagradou republicanos moderados e doadores do partido foi a diretriz que obriga pessoas que estão nos EUA com vistos de turista, estudante ou trabalho a deixar o país caso queiram solicitar um “green card” (a permissão de residência). Hoje, esse ajuste do visto pode ser feito nos EUA. O Instituto Cato, um centro de estudos libertário, afirmou que a medida é “ilógica e vai prejudicar os americanos, seus funcionários, empregadores e familiares”. É possível que haja contestação no Congresso. Mesmo a campanha de Trump para inviabilizar a candidatura e se vingar de congressistas desafetos repercutiu mal no partido. Vários deles são políticos veteranos, com bom trânsito e relacionamento entre os republicanos, como o senador Bill Cassidy. O partido teme ainda que os indicados por Trump não sejam competitivos, o que dificultaria a missão de manter a maioria republicana no Congresso. É o caso do Texas, onde o presidente apoia um candidato suspeito de abusos e corrupção, mas que é favorito na prévia do partido contra o senador John Cornyn. E, ao romper com políticos ainda no cargo, Trump criou uma pequena bancada de congressistas dispostos, por sua vez, a se vingar do presidente. Pelo menos até o próximo Congresso assumir, em janeiro de 2027. Um editorial da semana passada do “The Wall Street Journal”, cuja opinião costuma ser favorável a Trump, afirmou que “as obsessões pessoais e a campanha de vingança estão prejudicando a sua Presidência e o seu partido”. Questionado recentemente se ainda controla a bancada republicana no Senado, Trump respondeu: “Não sei”.
Análise: Trump enfrenta uma revolta dos republicanos no Congresso
Presidente vem tendo dificuldade para aprovar projetos de seu interesse e até perdeu uma votação importante.















