Irã e Estados Unidos estão em discussões para estender o cessar-fogo entre os dois países e iniciar negociações sobre temas como o programa nuclear de Teerã, no qual Washington insiste que o Irã não pode ter capacidade de produzir uma arma nuclear. Embora grande parte da infraestrutura iraniana de enriquecimento de urânio tenha sido destruída ou severamente danificada durante os bombardeios realizados por Israel e pelos EUA em junho, acredita-se que uma parcela significativa do urânio altamente enriquecido acumulado pelo Irã tenha sobrevivido. Essa é atualmente a principal preocupação dos EUA antes das negociações nucleares. Nesta sexta-feira, Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que o Irã deve concordar que o urânio enriquecido enterrado no subsolo após ataques anteriores dos EUA seja “desenterrado” e destruído em coordenação com o Irã e com a agência nuclear da ONU. A seguir, pontos que ajudam a entender a importância desse material no cenário atual. O que é urânio altamente enriquecido? Trata-se de um dos dois materiais físseis — ao lado do plutônio — que podem ser usados na fabricação do núcleo de uma bomba nuclear. Enquanto o plutônio normalmente é extraído do combustível usado em reatores nucleares, o que exige infraestrutura ampla e altamente visível, o urânio pode ser enriquecido por meio de centrífugas que ocupam uma área muito menor. Dois dos três locais de enriquecimento iranianos conhecidos por estarem operando quando Israel e os EUA atacaram em junho ficavam em instalações subterrâneas. O terceiro, localizado na superfície, foi claramente destruído. Instalação iraniana de enriquecimento de urânio, destruída após ataque dos EUA e Israel — Foto: Maxar Technologies/AP O urânio é considerado altamente enriquecido quando atinge pureza de 20%, e é classificado como grau militar a partir de aproximadamente 90%. Reatores modernos geralmente utilizam combustível enriquecido em até 5%, embora alguns operem com níveis mais altos. Os reatores que alimentam submarinos nucleares dos EUA, por exemplo, utilizariam combustível enriquecido acima de 90%. Quanto o Irã possui? Desde os ataques de junho, o Irã não informou à agência nuclear da ONU o destino de seu estoque de urânio enriquecido nem permitiu o retorno de inspetores aos locais onde o material era armazenado. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estimava que o Irã possuía os seguintes estoques quando os primeiros bombardeios israelenses ocorreram em 13 de junho: 440,9 kg enriquecidos em até 60%184,1 kg enriquecidos em até 20%6.024,4 kg enriquecidos em até 5%2.391,1 kg enriquecidos em até 2% Segundo um parâmetro da AIEA, a quantidade enriquecida a 60% seria suficiente — caso passasse por enriquecimento adicional — para produzir 10 armas nucleares. O estoque de 20% bastaria para uma arma, e o material enriquecido a 5% poderia produzir 12. Ainda não está claro quanto desse material sobreviveu aos ataques. O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que a agência acredita que “um pouco mais de 200 kg” do estoque enriquecido a 60% esteja armazenado em um complexo de túneis em Isfahan, aparentemente pouco afetado pelos bombardeios de junho. Parte do material também estaria na instalação nuclear de Natanz, acrescentou. Por que tanta preocupação? A preocupação dos EUA concentra-se no material enriquecido a 60%, pois ele seria o mais fácil — e, portanto, o mais rápido — de ser transformado em uma bomba. Washington quer eliminar esse estoque. O Irã nega buscar armas nucleares. À medida que o nível de enriquecimento do urânio aumenta, torna-se exponencialmente mais fácil elevá-lo ainda mais. Passar de 60% para 90% é mais simples do que enriquecer urânio natural até 5%. O presidente Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear firmado entre o Irã e grandes potências, que mantinha Teerã muito mais distante da capacidade de produzir uma bomba atômica do que atualmente. A saída americana em 2018 levou ao colapso do acordo, e o Irã rapidamente expandiu seu programa nuclear. Pelos termos do acordo de 2015, o Irã não poderia enriquecer urânio acima de 3,67%. Mesmo com enriquecimento de 90%, no entanto, ainda são necessárias outras etapas para produzir o núcleo de uma bomba. Após o enriquecimento, o urânio permanece em forma gasosa e precisa ser transformado em metal para uso em uma arma nuclear. Urânio em pó conhecido como "yellowcake" — Foto: Maryam Sicard / Unsplash É possível transportar esse material? Sim. Antes dos ataques de junho, o Irã transferia material enriquecido entre instalações sob monitoramento da AIEA. No acordo de 2015 e em um entendimento preliminar anterior, os estoques iranianos de urânio enriquecido em até 20% foram diluídos ou convertidos em placas de combustível para reatores e enviados para fora do país. O transporte internacional de material nuclear, como urânio altamente enriquecido, é um procedimento delicado, mas relativamente rotineiro. “Exige alguns cuidados, mas pode ser transportado”, disse Grossi à PBS em março, ao ser questionado sobre o material enriquecido a 60%. O Irã abrirá mão do estoque? O líder supremo do Irã emitiu uma diretriz determinando que o material enriquecido a 60% não deve ser enviado para o exterior, disseram duas fontes iranianas de alto escalão na semana passada. Segundo fontes iranianas, Teerã poderia concordar em enviar metade do estoque para um terceiro país, recebendo em troca urânio enriquecido a 5%, e diluir a outra metade dentro do próprio Irã.