Forças americanas destacadas para zonas de guerra foram alvo de ações baseadas em dados de localização disponíveis comercialmente, segundo relatos recebidos por autoridades militares. O episódio é mais uma demonstração de como a economia global de vigilância está influenciando o campo de batalha. Em carta compartilhada com a Reuters pelo senador Ron Wyden, democrata do Oregon, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou ter “recebido múltiplos relatórios de ameaça sobre a exploração, por adversários, de dados comerciais de localização para alvejar ou monitorar militares americanos em áreas de operação”. A mensagem, enviada em 14 de abril, não traz detalhes adicionais, mas a área de responsabilidade do Centcom inclui o Golfo, onde forças americanas enfrentam atualmente militares iranianos em torno do Estreito de Ormuz. A revelação representa a primeira confirmação oficial de que forças dos EUA foram alvo em uma zona de guerra ativa, afirmaram Wyden e um grupo bipartidário de parlamentares em carta enviada nesta quinta-feira ao Pentágono. “Dados comerciais de localização podem ser usados para identificar onde tropas americanas se concentram e seus padrões de deslocamento e comportamento, informações que podem ser exploradas por adversários para orientar ataques com mísseis, drones e bombas à beira de estradas, além de atividades de contrainteligência”, alerta a carta. Em nota, Wyden afirmou que chegou o momento de “tratar a indústria de tecnologia publicitária como uma ameaça à segurança nacional”. O Pentágono não respondeu aos pedidos de comentário. Os parlamentares afirmaram na carta que tentativas de obter mais informações junto aos militares sobre os relatos de monitoramento não tiveram sucesso. O Capitólio dos EUA atrás do Pentágono em Arlington, Virgínia, EUA, na quarta-feira, 15 de outubro de 2025. Veículos de imprensa nacionais, incluindo a Bloomberg News, cinco grandes redes de televisão e o New York Times, afirmaram que se recusariam a assinar as novas restrições de divulgação estabelecidas pelo Pentágono, sob o comando do Secretário de Defesa Pete Hegseth. — Foto: Al Drago/Bloomberg Comércio de dados de localização alimenta preocupações com privacidade Dados de localização são amplamente utilizados na publicidade digital, uma importante fonte de receita para empresas de tecnologia. Essas informações normalmente são coletadas por aplicativos e prestadores de serviços em smartphones e outros dispositivos, antes de serem vendidas a corretoras de dados, que as consolidam e revendem, muitas vezes por meio de redes complexas de intermediários. Embora os riscos à privacidade decorrentes da venda de informações sobre os deslocamentos cotidianos das pessoas sejam debatidos há anos, o potencial desses dados como ameaça à segurança nacional passou a receber atenção crescente. Já em 2016, uma empresa contratada pelo Departamento de Defesa dos EUA conseguiu usar dados comerciais de localização para rastrear integrantes das forças especiais americanas desde bases nos Estados Unidos até uma instalação sensível na Síria, segundo relato divulgado inicialmente pelo Wall Street Journal. Mais recentemente, jornalistas da Wired e de dois veículos alemães utilizaram bilhões de coordenadas obtidas de uma corretora de dados para revelar, em detalhes, a movimentação de pessoas em 11 instalações militares e de inteligência dos EUA na Alemanha. Duas entidades representativas do setor de publicidade digital, o Interactive Advertising Bureau e a Association of National Advertisers, não responderam aos pedidos de comentário. Na carta ao Pentágono, os parlamentares afirmam que, diante do conhecimento que os militares já possuem sobre o comércio de dados de localização, medidas de proteção deveriam ter sido adotadas mais rapidamente, como desativar os identificadores publicitários únicos de dispositivos emitidos às tropas, desligar automaticamente o compartilhamento de localização em smartphones utilizados em campo e incentivar o uso de navegadores mais focados em privacidade em vez do Chrome, do Google. Um dos signatários da carta foi o deputado republicano Pat Harrigan, da Carolina do Norte, ex-integrante das forças especiais do Exército americano. Segundo Harrigan, navegadores como o Chrome “foram concebidos desde o início para coletar e compartilhar dados dos usuários” e cada dia em que permanecem instalados em dispositivos do governo “é mais um dia em que entregamos aos nossos adversários uma arma contra nossas próprias tropas”. Em nota, o Google, controlado pela Alphabet, afirmou que o Chrome possui “segurança líder do setor”. A empresa acrescentou que há muito tempo defende “regras mais rígidas e salvaguardas contra corretoras de dados”.
Pentágono diz que militares dos EUA estariam sendo alvos com uso de dados de localização
Episódio é mais uma demonstração de como a economia global de vigilância está influenciando o campo de batalha










