Representantes da indústria da cultura defenderam nesta quinta-feira (28) a criação de mecanismos permanentes de financiamento, integração com o turismo e maior participação do empresariado no apoio ao setor, em meio ao crescimento dos grandes eventos e da circulação cultural no Rio. O debate se deu no evento "Caminhos do Rio - a potência criativa do Rio", projeto dos jornais O Globo e Extra, na sede da Editora Globo, no Rio, que reuniu produtores, gestores públicos e representantes de instituições culturais para discutir financiamento do setor e o impacto econômico da indústria criativa. Na mesa "Financiamento e sustentabilidade de projetos culturais", o secretário municipal de Cultura do Rio, Lucas Padilha, afirmou que a prefeitura está estruturando uma política de longo prazo para o setor, baseada em financiamento contínuo e descentralização de recursos. Segundo ele, o município prevê R$ 569 milhões no orçamento da cultura para 2026, incluindo investimentos em audiovisual, festivais, memória, residências artísticas e apoio a instituições culturais. "O edital não pode ser o fim da política cultural. Ele é apenas um instrumento", afirmou. "A gente precisa financiar instituições, trajetórias e atividades continuadas." Padilha também afirmou que a prefeitura busca ampliar o apoio a organizações de bairros periféricos e equipamentos culturais fora do eixo tradicional da cidade. Andrea Alves, CEO da Sarau Cultura Brasileira, afirmou que o setor ainda opera sob instabilidade financeira e criticou a dependência excessiva das leis de incentivo. Alves citou a aprovação, no Senado, do Projeto de Lei Complementar (PLP) 11, que corrige mudanças aprovadas em 2025 e restabelece a possibilidade de abatimento integral do Imposto de Renda para empresas patrocinadoras de projetos culturais via Lei Rouanet. A alteração anterior havia reduzido o incentivo fiscal de 100% para 90%, o que, segundo produtores culturais, provocou retração imediata na captação de recursos. “Desde janeiro, muitos patrocinadores reduziram ou suspenderam aportes porque não havia clareza sobre as regras. Isso afetou diretamente a viabilidade dos projetos”, afirmou. Alves também defendeu a criação de novos instrumentos de financiamento, como crédito subsidiado e regulamentação do Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart), mecanismo previsto na Lei Rouanet para financiar projetos com potencial de retorno financeiro, mas que, segundo ela, nunca foi efetivamente implementado. Ricardo Piquet, diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), responsável pela gestão do Museu do Amanhã, no Rio, afirmou que o setor cultural brasileiro ainda enfrenta resistência do mercado privado. Segundo ele, empresas brasileiras se acostumaram a investir apenas quando há abatimento integral de impostos por meio das leis de incentivo. Na mesa 'Impacto da indústria cultural e econômica', o subsecretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação do Rio, Marcel Balassiano, defendeu a cultura como vetor de desenvolvimento urbano e fortalecimento do turismo. O escritor Júlio Ludemir, criador da Festa Literária das Periferias (Flup), afirmou que movimentos culturais foram decisivos para transformar regiões da cidade como Lapa, Pedra do Sal e Glória. "A cultura reinventou o centro do Rio. Quando você ocupa a cidade com gente, você transforma também a relação das pessoas com o território", disse. Já Aniela Jordan, sócia e diretora artística e de produção geral da Aventura, afirmou que o Rio precisa fortalecer a integração entre cultura e turismo para ampliar a circulação de público e consolidar sua posição como referência cultural no país. “O Rio continua sendo uma potência criativa. O desafio é transformar essa potência em permanência, circulação e sustentabilidade para os projetos culturais." Caminhos do Brasil — Foto: Reprodução/YouTube/Jornal O Globo