A SpaceX protocolou seu pedido de abertura de capital (IPO na sigla em inglês) na Nasdaq com um valor de mercado que pode chegar a US$ 1,75 trilhão, o maior da história para uma empresa estrear na bolsa. Mas a distância entre o preço pedido e o caixa gerado hoje é o principal ponto de tensão do que promete ser o IPO mais aguardado da década, de acordo com especialistas. No primeiro trimestre de 2026, a companhia de Elon Musk registrou prejuízo líquido de US$ 4,27 bilhões, com apenas um de seus três segmentos operando no azul. A empresa, fundada em 2002 por Musk com o objetivo de reduzir o custo do acesso ao espaço, alcançou grandes feitos em foguetes reutilizáveis e garantiu à SpaceX 80% do mercado global de lançamento de satélites. Mas é a Starlink, o braço de internet, que sustenta as contas hoje. Os dados do primeiro trimestre escancararam uma estrutura em que 70% da receita vêm da Starlink, e só ela gera resultado positivo. O segmento de lançamentos de foguetes, a atividade-símbolo da empresa, queima caixa. E o braço de inteligência artificial, que engloba o Grok e o X, concentrou quase US$ 7,7 bilhões em despesas de capital no trimestre - o maior gargalo da operação. A receita total foi de US$ 4,69 bilhões, o prejuízo líquido de US$ 4,27 bilhões e a despesa de caital total de US$ 10,1 bilhões no período. No acumulado de 2025, a empresa gerou cerca de US$ 8 bilhões em caixa. Um número expressivo em termos absolutos, mas que coloca o valor de mercado pedido em perspectiva brutal: para remunerar investidores e cobrir suas despesas ao preço solicitado, a SpaceX precisaria faturar no mínimo US$ 193 bilhões já, segundo cálculos do professor Aswath Damodaran, da NYU Stern School of Business. Se o equilíbrio vier só em cinco anos, essa cifra sobe para US$ 271 bilhões. A visão dos especialistas Os fundamentos do negócio são reais e defensáveis, mas o preço exige fé além dos números, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. "A questão de 'valuation' é sempre difícil de justificar. Como você explica US$ 8 bilhões de geração de caixa para um valuation de US$ 1 trilhão? Esse que é o ponto mais difícil", avalia. O estrategista destaca, porém, que a liderança tecnológica da empresa é incontestável: além do domínio nos lançamentos, a Starlink opera em locais onde nenhuma outra infraestrutura existe, uma vantagem competitiva que poucos conseguiriam replicar. "A Starlink tem uma vantagem muito grande. E o mercado endereçável, se tudo der certo, pode ser enorme. Esse otimismo é o que sustenta o valuation", diz Castro Alves. Já o professor Carlos Heitor Campani, da diretor acadêmico da iluminus – Academia de Finanças, pontua que o valor da companhia não é absurdo, mas é apenas extremamente dependente de variáveis que ainda não estão dadas. "A conta pode fechar matematicamente. Mas ela depende das premissas que você acredita e, principalmente, da taxa de desconto que você aplica. Quem acredita na colonização de Marte com uma taxa baixa chega ao trilhão. Quem não acredita, desconta tudo e o valor desmorona", explica. Campani classifica o IPO da SpaceX como o valor de maior incerteza que já analisou - não por incompetência de quem construiu o modelo, mas pela natureza do que está sendo precificado. "Certamente não é uma pessoa mal formada que fez essas contas. Ela tem um racional. Mas a dúvida sobre se as premissas serão atingidas é enorme", diz. "Algumas pessoas vão acreditar e vão comprar. Se esses 'alguns' serão suficientes para o IPO ser um sucesso, isso eu não sei", conclui o professor. No mercado brasileiro, a gestora Hurst Capital deu acesso a um grupo de investidores à SpaceX através de uma estrutura de participações, a um valor de mercado de US$ 1,5 trilhão. Com o IPO previsto para sair entre US$ 1,75 e US$ 2 trilhões, os investidores que entraram pelo veículo da gestora já acumulam entre 17% e 33% de valorização antes de a empresa sequer começar a negociar em bolsa, afirma Fábio Guerra, sócio da Hurst Capital. O que está em jogo O prospecto apresenta um mercado potencial de US$ 28,5 trilhões - comparável ao PIB projetado dos EUA para 2026 - e descreve planos que vão de data centers orbitais à instalação de 1 milhão de pessoas em Marte. A narrativa é ambiciosa por design: ela precisa ser, para justificar a captação de até US$ 75 bilhões vendendo apenas 5% da empresa. Elon Musk manterá controle majoritário de votos após a oferta, tornando a SpaceX uma companhia com controle acionário definido, pelos critérios da Nasdaq, o que a isenta de certos requisitos de governança corporativa. Se bem-sucedido, o IPO superaria o recorde da Saudi Aramco (US$ 29 bilhões em 2019) e pavimentaria o caminho para outras ofertas monumentais esperadas nos próximos meses, incluindo as da OpenAI e da Anthropic. E colocaria Musk na rota para se tornar o primeiro trilionário da história. O mercado terá sua resposta em breve. Preço por ação e número de ações ainda não foram definidos, mas a SpaceX também se prepara para lançar, ainda esta semana, um voo de teste da Starship, a nave que ancora todos os planos lunares e marcianos da empresa. O momento não parece acidental.