A direção está clara; o que falta agora é entrega. Foi com essa síntese que Mette Tangen, cônsul-geral da Noruega no Rio de Janeiro e moderadora do painel de encerramento do evento sobre corredores marítimos verdes realizado nesta segunda-feira (25) na Embaixada da Noruega em Brasília, resumiu o estado da cooperação trilateral entre Brasil, Noruega e Países Baixos. Ao longo de um dia inteiro de apresentações, os painelistas – representantes de embaixadas, do setor público, do setor privado e especialistas na área – chegaram a um consenso de que a tecnologia existe, as opções de combustíveis menos poluentes estão disponíveis em escala crescente, e os portos e armadores já mostram iniciativas concretas. O que ainda falta é fazer todas as peças funcionarem juntas. Do lado brasileiro, Rafaela Gomes, diretora de Sustentabilidade do Ministério dos Portos e Aeroportos, apresentou dois instrumentos que considera divisores de água. O primeiro é o Plano Climático do Brasil, publicado recentemente, que inclui um caderno de mitigação com diretrizes específicas para redução de emissões no setor portuário e de transportes. O segundo é a Taxonomia Sustentável Brasileira, publicada em outubro de 2025, que abre acesso a linhas de crédito especiais e financiamento verde para atividades consideradas sustentáveis, incluindo a compra de biocombustíveis e melhorias em infraestrutura portuária. "Já temos um caminho e uma direção; agora é preciso implementar, transformar em ação", disse Rafaela, citando o Memorando de Entendimento entre Noruega, Brasil e Países Baixos como um importante indutor de transformação. Alessandro Barros Bearzi, líder de Sustentabilidade e Meio Ambiente da ANTAQ, trouxe o olhar do regulador. Um estudo publicado pela agência em 2024 sobre descarbonização no setor portuário brasileiro identificou dois obstáculos recorrentes nos 21 portos avaliados: falta de segurança regulatória e ausência de incentivos econômicos claros para investir em infraestrutura de descarbonização. Em resposta, a ANTAQ publicou em 2025 uma resolução que flexibiliza as condições para projetos-piloto de novas tecnologias e combustíveis em instalações portuárias, sem exigir adaptação prévia do marco regulatório completo. "Sabemos que se a regulação chega cedo demais, pode limitar a criação de soluções entre o setor privado. Se chega tarde demais, pode gerar desalinhamento com as políticas", disse Bearzi. A agência também trabalha na uniformização dos inventários de emissões dos portos brasileiros, dentro dos escopos 1, 2 e 3, com previsão de concluir a prática recomendada em um ano. Bearzi destacou ainda que a agência espera ter avanços concretos no projeto de indicadores para corredores verdes em até oito meses e que as cláusulas de sustentabilidade e resiliência climática nos contratos de concessão portuária já estão sendo inseridas e, espera-se, que 100% dos contratos estejam em compliance até 2028. Sveinung Oftedal, negociador-chefe de Navegação Verde do Ministério do Meio Ambiente da Noruega e atual presidente do grupo de trabalho de emissões de GHG da IMO (Organização Marítima Internacional), destacou que os dilemas são compartilhados por diversos países. Para ele, a pergunta "é tecnicamente possível descarbonizar o transporte marítimo de longo curso?" já tem resposta. "Antes, a visão era que navegação era um setor de difícil descarbonização, quase impossível, pois não tínhamos as soluções. Agora, vemos as soluções na água, nos navios em operação, nos pedidos de construção", disse. O papel de iniciativas como o corredor Brasil-Noruega-Holanda é, segundo ele, ser prova disso. "Nossa contribuição é demonstrar que isso é possível. Que não há argumento válido para dizer que a navegação de longo curso não pode ser descarbonizada." Jörgen Leuwenstein, oficial econômico sênior da Embaixada dos Países Baixos no Brasil, admitiu que, ainda que o país tenha entrado só mais tarde no acordo de cooperação trilateral, o país está engajado. Leuwenstein citou a experiência holandesa com o corredor de hidrogênio entre os portos de Rotterdam e Duisburg como modelo de como governos, agências de desenvolvimento e empresas precisam trabalhar em conjunto. Seu recado para os próximos meses foi objetivo: "Precisamos fazer muito barulho. Os presidentes, os ministros precisam saber que estamos trabalhando em algo muito importante." Contudo, ele propôs pragmatismo para avançar. “Comece com projetos-piloto. Não pense no grande projeto. Mostre o que é possível e o resto vem junto." Mette Tangen encerrou o painel com uma provocação direta: “qual é o marco concreto que essa parceria precisa alcançar nos próximos 12 meses para demonstrar progresso real?” E destacou que não falta ambição e que o setor já tem as parcerias necessárias. A próxima fase, então, sugere, é trabalhar para “reduzir riscos, escalar investimentos e criar marcos críveis que permitam que a indústria avance ainda mais rápido." E acrescentou que essa discussão já não é só sobre descarbonização, mas também sobre segurança energética e resiliência comercial num mundo mais instável. “O corredor verde transatlântico, se vier, será as duas coisas ao mesmo tempo.”