O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, repetiu ao menos 107 vezes nos últimos seis meses a falsa alegação de que a eleição de 2020 foi roubada dele. O tema tem sido mantido no centro do debate pelo republicano, mesmo diante de novos riscos políticos relacionados à guerra com o Irã e às eleições legislativas de meio de mandato que se aproximam. Trump dedica atenção quase diária ao tema, segundo análise da Reuters sobre seus eventos públicos, entrevistas e publicações online, e seus comentários frequentemente vêm em ondas. Em um sábado de abril, em meio a um frágil cessar-fogo com o Irã, Trump publicou sete vezes em sua rede Truth Social alegações sobre a eleição de 2020 — quando perdeu para seu antecessor Joe Biden. Ele retomou essas alegações em pelo menos seis encontros com líderes mundiais, em duas celebrações de equipes esportivas profissionais e durante eventos da Casa Branca para o Hanukkah e o Natal. Em comentários improvisados no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em janeiro, afirmou que “as pessoas logo serão processadas pelo que fizeram”. Trump voltou a afirmar que a eleição foi fraudada durante um piquenique da Casa Branca com parlamentares na semana passada e novamente ao falar com jornalistas antes de embarcar no Air Force One. “Se Jesus Cristo descesse e contasse os votos, eu teria vencido na Califórnia”, disse Trump sobre o Estado tradicionalmente democrata, onde perdeu por 29 pontos percentuais em 2020 e por mais de 20 pontos em 2024. “Mas foi uma votação fraudada”, argumenta sem apresentar provas. Assessores e entrevistadores frequentemente ignoram os comentários, enquanto críticos os tratam como desabafos de um mau perdedor. Mas o foco incessante de Trump em 2020 aponta para uma estratégia voltada ao futuro, destinada a justificar novas restrições ao voto, reforçar a lealdade partidária e mobilizar apoiadores antes das eleições de novembro que definirão o controle do Congresso, segundo dois funcionários da Casa Branca e duas pessoas familiarizadas com o tema ouvidas pela Reuters sob condição de anonimato. Ao retratar a eleição de 2020 como ilegítima, Trump também estaria preparando terreno para contestar eventuais derrotas republicanas e deslegitimar os democratas caso retomem o poder, afirmaram especialistas eleitorais. “Ele não está olhando para trás; isso é sobre as eleições legislativas”, disse Alexandra Chandler, especialista eleitoral da organização apartidária Protect Democracy. “Ele está tentando criar uma névoa de desinformação. Assim, se intensificar a interferência federal, o público não reagirá com surpresa”, acrescentou. Em abril, apesar de ter iniciado meses antes uma disputa nacional sobre redistritamento eleitoral, Trump classificou como “fraudulento” o resultado da eleição na Virgínia para redesenho dos distritos eleitorais do Congresso, sem apresentar provas. “O presidente Trump está comprometido em garantir que os americanos tenham plena confiança na administração das eleições, incluindo cadastros eleitorais totalmente precisos e atualizados, livres de erros e de eleitores não cidadãos registrados ilegalmente”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, em nota. O presidente Donald Trump discursa durante a 158ª cerimônia nacional em memória dos falecidos, coincidindo com o 250º aniversário do Dia da Memória, no Anfiteatro Memorial do Cemitério Nacional de Arlington, na segunda-feira, 25 de maio de 2026, em Arlington, Virgínia — Foto: AP/Alex Brandon Eleitores republicanos simpatizam com alegações falsas A retórica de Trump ganhou força entre eleitores republicanos. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada em abril mostrou que 63% dos republicanos acreditam na falsa alegação de Trump de que a eleição de 2020 foi roubada, percentual praticamente inalterado nos últimos anos. Uma parcela ainda maior dos republicanos, de 82%, afirmou acreditar que há grande número de votos fraudulentos emitidos por não cidadãos nas eleições americanas. Em comparação, apenas 9% dos democratas e 21% dos independentes disseram acreditar que Trump perdeu em 2020 devido a irregularidades. Entre democratas, 18% manifestaram preocupação com votos fraudulentos de não cidadãos, percentual que sobe para 38% entre independentes. Diversos tribunais, autoridades estaduais e revisões anteriores não encontraram evidências de fraude disseminada na eleição de 2020. Ainda assim, Trump nomeou no ano passado um responsável pela segurança eleitoral para reinvestigar sua derrota em 2020. Essas novas apurações não encontraram novas evidências, informou a Reuters em abril. Autoridades do governo também discutiram no ano passado proibir urnas eletrônicas utilizadas em mais da metade dos Estados americanos enquanto avaliavam formas de o governo federal assumir controle sobre eleições administradas pelos Estados, segundo reportagem da Reuters publicada na semana passada. A retórica de Trump sobre 2020 se intensificou em dezembro, após ele buscar perdão para Tina Peters, escrivã eleitoral do Colorado condenada por adulterar máquinas de votação após aquela eleição. Trump voltou às alegações ao pressionar republicanos no Congresso a aprovarem o Save America Act, que exigiria prova de cidadania para votar, e também ao intensificar ataques ao voto pelo correio. Embora o Senado americano não tenha avançado com as mudanças eleitorais nacionais defendidas por Trump, vários Estados adotaram requisitos semelhantes de comprovação de cidadania e regras mais rígidas de identificação. Trump também assinou decretos tentando limitar o voto pelo correio, medidas atualmente contestadas na Justiça pelos democratas. Eleitores votam durante as eleições primárias da Pensilvânia na Filadélfia , Pensilvânia , EUA , em 19 de maio de 2026. — Foto: REUTERS / Hannah Beier Alguns republicanos reagem Enquanto isso, Trump tem usado suas alegações sobre 2020 para desviar críticas relacionadas a conflitos internacionais e disputas de política doméstica. Em dezembro, enquanto a guerra na Ucrânia continuava apesar da promessa de campanha de Trump de resolvê-la em um dia, o presidente americano disse ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que a eleição “fraudada” dos EUA permitiu a invasão russa de 2022. Em fevereiro, afirmou a famílias que perderam parentes em crimes ligados à imigração que seus filhos “estariam em casa” se a eleição não tivesse sido “fraudada”. A eleição de 2020 também se tornou um teste de lealdade para muitos indicados de Trump a cargos federais importantes, incluindo candidatos ao Judiciário, que se recusaram sob juramento a dizer aos senadores democratas que Biden venceu a eleição. Em vez disso, afirmam apenas que o Congresso certificou o resultado em favor dele. Mesmo assim, alguns republicanos têm reagido. O grupo RightCount, formado por republicanos em Estados decisivos, relançou recentemente uma campanha para defender a integridade das eleições administradas pelos Estados e combater os esforços de Trump para nacionalizá-las. “Todas as acusações feitas já foram refutadas, mas ele não quer ouvir”, afirmou a ex-governadora do Arizona, Jan Brewer, apoiadora de Trump e integrante do grupo. Após perder a prévia republicana na Louisiana na semana passada, depois de Trump se recusar a apoiá-lo, o senador Bill Cassidy criticou as alegações de fraude eleitoral feitas pelo presidente em seu discurso de derrota. Cassidy provocou a ira de Trump ao apoiar seu impeachment após o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio por apoiadores do republicano que tentavam impedir a certificação da eleição de 2020. “Quando você participa da democracia, às vezes o resultado não é o que deseja”, disse Cassidy. “Mas você não faz birra. Não reclama. Não afirma que a eleição foi roubada”. Eleição EUA — Foto: Eric Gay/AP