O Terceiro Comando Puro (TCP) é a segunda maior facção criminosa do Rio. Apesar de ter surgido em territórios fluminenses, o grupo vem seguindo os passos do Comando Vermelho e ampliando sua atuação para outros estados do país. Diferentemente do CV, porém, o TCP ainda não conta com uma cúpula consolidada que centralize as decisões da facção, o que torna a atuação dos traficantes mais pulverizada, com cada comunidade funcionando de maneira própria. Nesse cenário, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, é o nome mais visível do grupo — e um dos únicos integrantes da facção no estado incluídos na lista de procurados do Ministério da Justiça. Peixão é apontado como chefe do Complexo de Israel, conjunto de cinco favelas na Zona Norte do Rio. A área, dominada por um verdadeiro exército armado com fuzis e drones, tornou-se a principal fortaleza do traficante, conhecido pelo perfil violento e por práticas de intolerância religiosa. Impiedoso, costuma desaparecer com os corpos de moradores que não aceitam suas regras, jogando-os aos jacarés de um mangue atrás da favela de Parada de Lucas, uma das áreas sob seu domínio, segundo relatos de quem vive no lugar. Não foram poucos os relatos feitos à polícia sobre destruição de terreiros e proibição do uso de roupas brancas nas comunidades controladas pelo traficante, que se declara evangélico. Durante anos, a facção exibiu uma estrela de Davi no alto de uma caixa-d'água que podia ser vista à distância por quem transitava pela Avenida Brasil. O símbolo foi retirado em uma operação policial no ano passado. O nome de Peixão passou a ser citado no debate sobre classificar organizações criminosas como terroristas. Isso porque autoridades de segurança do Rio afirmaram que ele poderia ser o primeiro traficante investigado por terrorismo, após ser apontado como mandante de um ataque a tiros que deixou três mortos na Avenida Brasil, principal via expressa da cidade. A tragédia ocorreu em outubro de 2024, durante um confronto entre criminosos e policiais que interrompeu a circulação na região. As imagens, que registraram momentos de pânico de motoristas e passageiros, repercutiram internacionalmente. Desde então, foram realizadas inúmeras operações para tentar prender o traficante. Em algumas incursões, a polícia encontrou estruturas luxuosas usadas para o lazer do criminoso — uma delas ficou conhecida como "resort do Peixão" e contava com lago artificial com carpas, areia de praia e minicampo de futebol. Os donos do crime: Peixão comanda o Complexo de Israel com perfil violento Investigação da Polícia Federal realizada no ano passado apontou que Peixão mantinha um esquema de importação de armas e tecnologia para uso contra rivais e policiais. Em mensagens trocadas com Everson Vieira Francesquet, acusado de atuar como armeiro da facção, o traficante fala sobre explodir rivais e adquirir equipamentos de ponta para monitorar a favela. Em uma das conversas, afirma precisar, com "urgência", de um drone capaz de lançar bombas. Em outro trecho, diz enxergar o Complexo de Israel como um país que "tem que ter tudo". Nas informações extraídas do celular de Francesquet, a PF identificou ainda extensa rede de negociações que, segundo o MPF, revelaria sua função dentro do TCP: comprar equipamentos bélicos, táticos e tecnológicos no exterior para abastecer a facção do chefe do Complexo de Israel. Em diálogos atribuídos a Peixão, o chefe pedia drones com capacidade de lançar bombas, localizadores de drones, fuzis, pistolas, rádios de longa distância e chips estrangeiros — paraguaios ou americanos — para dificultar a interceptação das comunicações. Em uma das conversas, Peixão escreve: "Vamo comprar o Drone e o localizador de Drone, e a tua bazuca (Fuzil AntiDrone) quando chegar também" (SIC). Em outra, comemora ter acertado duas pessoas com bombas lançadas por drones. As mensagens também revelam o planejamento de uma estrutura de fachada no Paraguai — onde a comercialização de bloqueadores é permitida — para enviar os equipamentos por via terrestre, contornando a fiscalização aduaneira brasileira. Embora a 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro — em decisão no último dia 6 — tenha condenado Francesquet a seis anos e cinco meses e absolvido Peixão por falta de provas, o chefe do Complexo de Israel ainda tem dez mandados de prisão em aberto. Ele tem 79 anotações criminais. Em 8 de dezembro do ano passado, a família do traficante foi detida pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pela Polícia Federal na BR-262, em Campo Grande (MS). Há informação de que Peixão estava em outro carro e conseguiu fugir do cerco. Ele segue foragido — em quase duas décadas de atuação no tráfico, nunca foi preso.
Nunca preso: Peixão, um dos mais procurados, acumula dez mandados de prisão e é absolvido em ação sobre drones
O chefe do Complexo de Israel impõe suas regras a ferro e fogo; quem não as segue é jogado num mangue com jacarés atrás da favela de Parada de Lucas, segundo contam moradores da região











