No último sábado, 23 de Maio, no Super Bock Arena, no Porto, o evento Thunder, promovido pela Duel, juntou caras conhecidas da manosfera portuguesa e figuras de reality shows altamente polarizadoras numa fórmula que não é nova: o influencer boxing. O formato popularizado lá fora por figuras como Jake e Logan Paul ou Andrew Tate usa um argumento desportivo para aquilo que é, na verdade, um exercício de masculinidade performativa.É precisamente com esta última ideia que começa a análise da psicóloga e investigadora Maria João Faustino. “Isto, na minha perspectiva, é inquestionavelmente muito menos sobre o desporto e muito mais sobre a masculinidade, mas é também sobre a cultura do espectáculo”, explica.Para a investigadora, o boxe é aqui instrumentalizado como “a epítome da masculinidade” e o combate é uma forma hiper-mediatizada de exibição de força entre homens, algo que não é novo. Já os gladiadores romanos enchiam arenas com milhares de pessoas. A civilização evoluiu e a par diminuiu-se a frequência da exibição da força física para conquistar estatuto — pelo menos fora da manosfera, que dá sinais contrários com a ascensão do influencer boxing.Alguns meios de comunicação, como o New York Times, colam a origem do fenómeno ao combate, em 2017, entre Floyd Mayweather Jr. e Conor McGregor. Aí, não se tratava de influencer boxing, mas sim de crossover boxing. Isto é, opor dois universos diferentes (um pugilista tradicional e alguém vindo do MMA) num mesmo ringue e perceber quem era superior. Este combate, que gerou um interesse astronómico — a ESPN estima que apenas nos EUA foi visto por 50 milhões de pessoas —, relembrou que egos gigantescos e conferências de imprensa caóticas geram pessoas emocionalmente investidas no clímax: a violência física.Não demorou a ser replicado por pessoas que não vinham dos desportos de combate, e daí nasce o influencer wrestling. Os irmãos Jake e Logan Paul, criadores de conteúdo no YouTube, monetizaram essa ideia e, até hoje, continuam a lucrar com ela. Influencers vão-se provocando em podcasts, vídeos, publicações ao longo de algumas semanas, o algoritmo das redes sociais ajuda, e resolve-se tudo no ringue.João Barbosa, mais conhecido como Numeiro, está a replicá-lo em Portugal, e já é o quarto evento. “A manosfera portuguesa é uma mimetização absoluta”, afirma Maria João Faustino, explicando que muitos destes criadores reproduzem modelos importados dos Estados Unidos e de figuras internacionais como Andrew Tate.O que o evento deste sábado, com bilhetes entre os 20 e os 120 euros, numa arena com capacidade para 8500 pessoas, mostra é que estes fenómenos já não estão apenas nos nichos obscuros da Internet. “A manosfera não está no submundo. A manosfera vive agora no mainstream”, explica a investigadora. “Articula-se com muitas esferas da cultura popular e este Thunder era um cocktail de sucesso comercial particularmente eficaz”, já que juntou figuras de reality shows envolvidas em polémicas públicas que têm tido lugar nos meios de comunicação tradicionais. Aliás, Numeiro não esconde esse objectivo. Num dos vídeos de promoção do evento, ao justificar a escolha do seu oponente, explica que queria obrigar as televisões, “que o evitam”, a falar sobre ele. “As pessoas vão ver mesmo que não gostem, ou precisamente porque não gostam”, resume.A investigadora considera que a polémica é parte central da construção destas personagens digitais. “Quanto mais polémico, mais polarizador for, mais atenção ganha”, explica sobre alguns destes criadores de conteúdos. A lógica das redes sociais recompensa precisamente aquilo que gera reacção emocional, mesmo que isso seja a indignação ou o ódio. Aliás, no cartaz do mesmo evento estavam outros influencers como Tiago Grila, conhecido por ter confessado um atropelamento num podcast e condenado outras cinco vezes por crimes de condução.Mas o aspecto mais importante, para Maria João Faustino, é perceber que esta masculinidade promovida pela manosfera é profundamente encenada. “É uma masculinidade cartoonizada, muito estereotipada e artificializada no ambiente digital. Na verdade, ela vive de ser vista e comercializada, se lhe tirarmos o palco, resta muito pouco”, explica a investigadora. “Esta masculinidade é muito frágil e precisa constantemente de ser exibida, vive do exercício e exibição da sua força”, afirma Maria João Faustino, E isso ajuda a explicar porque é que tantos criadores ligados a este universo recorrem sistematicamente ao uso da violência, aos carros de luxo, à ostentação de riqueza e discursos sobre domínio masculino, como é o caso de Numeiro, seguindo ipsis verbis o manual de Andrew Tate.Ao mesmo tempo, estas figuras vivem cheias de contradições. Vendem autocontrolo masculino e superioridade racional, mas alimentam-se permanentemente do conflito. “Na manosfera há contradições insanáveis”, diz Maria João Faustino. A própria investigadora destaca o paradoxo de muitos destes criadores defenderem a moral sexual conservadora, enquanto monetizam a hipersexualização, como é o caso de Gonçalo Maia, influencer que foi alvo de investigação do PÚBLICO e também era um dos lutadores da noite.“Ele percebeu muito bem como captar atenção, cavalgar de polémica em polémica, atrair novos públicos e gerar receita”, resume Maria João Faustino sobre uma das principais figuras do evento. O problema, explica, é que tudo isto acaba normalizado. “A sociedade do espectáculo tem um efeito produtor de normalidade brutal”, alerta. Quando estas figuras circulam em podcasts, na televisão, meios de comunicação tradicionais e, agora, em eventos ao vivo, deixam de parecer marginais e passam a integrar o quotidiano cultural. Algo que se torna particularmente relevante (e preocupante) junto de públicos jovens. “Não é expectável que pessoas muito jovens tenham competência para desconstruir estas ratoeiras e estas falácias”, diz a investigadora, defendendo mais investimento em literacia digital, educação para a sexualidade e educação para a cidadania.