Em entrevista ao GLOBO, o cardiologista conta como foram os oito meses de campanha para entrar na prestigiosa instituição Roberto Kalil — Foto: Miguel Sá/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/05/2026 - 08:54 Cardiologista Roberto Kalil é Eleito para Academia de Medicina Em entrevista ao GLOBO, o cardiologista Roberto Kalil detalha sua campanha de oito meses para conquistar uma cadeira na Academia Nacional de Medicina. A posse, uma das mais lotadas da história da instituição, contou com a presença de figuras políticas e culturais. Kalil enfrentou desafios, como entrevistas com 88 acadêmicos, e emocionou-se ao ser eleito com 72 votos favoráveis. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na última sexta-feira, o cardiologista Roberto Kalil, presidente do Conselho Diretor do Instituto do Coração e diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, tomou posse da cadeira número 1 da Academia Nacional de Medicina, no Rio, em uma das cerimônias mais lotadas e ecléticas da história centenária da instituição. Na plateia dos médicos acadêmicos, estavam presentes políticos, empresários e artistas, como Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República; Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal; Ricardo Couto, governador em exercício do Rio; Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD; José Seripieri Filho, dono da Amil; Jorge Moll Filho, fundador da Rede D'Or, e o cantor Gilberto Gil. Em entrevista ao GLOBO, Kalil relata os detalhes da campanha à vaga, que durou oito meses. — Realizo um sonho, a Academia Nacional de Medicina é um raro espaço no qual ainda se pensa com profundidade e onde o conhecimento se amplia subordinado à ética, disse ele no dia da posse. Veja o relato a seguir. "Minha chance para tentar concorrer a uma vaga na Academia Nacional de Medicina chegou em agosto do ano passado. Sonhava com essa oportunidade há anos. Me enchi de coragem e fui para o Rio fazer a inscrição, sabendo que o caminho seria árduo. Horas antes de protocolar minha candidatura, marquei de ir à casa de um dos integrantes, uma grande referência na instituição, para me apresentar. Ele não me conhecia. Eu estava tenso. Foi então que apareceu uma cachorrinha na sala. Era a Belinha, ela tinha uma bola rosa na boca. Gosto muito de bichos e aquela cena me acalmou um pouco. Ao longo da conversa, o acadêmico elegantemente me ouviu, descreveu a academia, os rituais, os encontros, a história do lugar e concluiu dizendo: — Quando a Belinha gosta de alguém, solta a bola para brincar com essa pessoa. Ela não tinha soltado em nenhum instante. — Mais uma coisa: quando estiver em uma visita com um dos integrantes use terno e gravata. Eu não estava. Pensei: comecei mal. Fui para academia fazer a minha inscrição. Passei pelo hall de entrada repleto de bustos com figuras históricas, vi a cadeira de D. Pedro II intacta no Salão Nobre, entre tantas outras maravilhas. Foi mágico. Senti algo inexplicável. Conheço tantos lugares no mundo, mas nenhum como aquele me transmitiu tamanha cultura, sabedoria, respeito, sobriedade. Vi aquilo tudo como uma evolução, uma chance para mim, nessa altura da vida, de sair da minha bolha da medicina, ir além nos conhecimentos. Sei que tenho uma imagem complicada para alguns, de ser técnico. Pior: o médico de pessoas que estão na mídia, o médico do presidente da República. Para mim não tem essa. Trato todos os meus pacientes de uma forma absolutamente igual, quem me conhece sabe disso. Mas em função desse estereótipo, muitos dos acadêmicos poderiam pensar que eu não cumpriria o rito rigoroso da campanha, que desdenharia as formalidades e isso me preocupava bastante. Foram oito meses de campanha intensa. Levei dezenas de artigos científicos meus, tive entrevistas individuais com 88 dos então 102 acadêmicos, em vários estados, mas sobretudo no Rio, onde fica a maioria deles. Fui para lá ao menos uma vez por semana. Esses encontros eram realizados em hospitais, laboratórios, restaurantes, clubes, em casas. Eles decidiam a data e o local e eu ia. Testemunhei trabalhos e projetos incríveis, de altíssimo nível. Nesses oito meses vivi com um estresse permanente dentro de mim. Acho que o maior deles aconteceu uma semana antes do dia da eleição. Um dos médicos marcou um almoço com outros 21 acadêmicos em um clube. Eram, portanto, 21 votos em potencial. Marquei um voo cedo. Já no ônibus dentro do aeroporto, indo para o avião, recebi a notícia do apagão em Congonhas (em 9 de abril de 2026, uma pane elétrica no Centro de Controle do Espaço Aéreo afetou as operações em diversos aeroportos). Quase tive uma crise histérica. Pensei em ir de carro, mas não daria tempo. Só o que passava pela minha cabeça é que poderiam achar que eu estava fazendo pouco caso do almoço. Consegui chegar às 14 horas, 3 deles já tinham ido embora. Eu estava tão nervoso que sentei e chorei. Conheci pessoas brilhantes. Cirurgiões, oncologistas, imunologistas, pneumologistas, psiquiatras, sanitaristas, urologistas, fisiologistas, epidemiologistas, nenhum deles limitado apenas aos conhecimentos científicos e clínicos no dia a dia da profissão. Mas com um entendimento magistral sobre questões filosóficas e artísticas. Com todo o respeito à instituição, acho que pouca gente no Brasil conhece de fato a Academia Nacional de Medicina. Essa é a minha opinião. As pessoas acham chato. E isso é ruim. Não necessariamente para a instituição, mas para o país. A academia pode ser aproveitada em várias instâncias. Os integrantes são absolutamente preparados para dar opiniões em órgãos públicos e privados. Sou professor titular da USP, dirijo o Incor, dirijo a cardiologia do Hospital Sírio-Libanês e tenho meu consultório. Vivo 24 horas do meu dia nesse circuito, incluindo os fins de semana. Nessa campanha passei a conviver com um universo inédito, amplo. Em uma das entrevistas, um integrante me chamou para almoçar em um restaurante. Ele falou que eu comeria o melhor arroz de pato do Rio. Eu nunca tinha comido arroz de pato. Meu paladar é infantil, gosto só de bife, arroz, feijão, batata frita. Nos chás da tarde da academia, para você ter uma ideia, o que me salva é eles servirem cachorro-quente. São uma delícia, pequenininhos, com molho gostoso, devoro vários. O almoço do arroz de pato durou 2 horas e meia. Sentamos na varanda e em um dado momento uma gotinha do toldo começou a cair na minha cabeça intermitentemente. Não me mexi, não queria incomodar, interromper e muito menos trocar a mesa que o médico tinha escolhido especialmente para mim. Quando eu já estava no auge da campanha, o acadêmico que tinha me recebido no dia em que protocolei minha candidatura, me chamou para uma entrevista oficial. O encontro seria na casa dele mais uma vez. Vesti terno e gravata, eu estava impecável. E bolei um plano antes de ir. Liguei para o Silvano Raia (cirurgião de transplantes, membro da academia, falecido em 28 de abril). Expliquei que minha situação estava dramática, pedi para ele me ligar em mais ou menos uma hora, quando a entrevista já estaria bem engatilhada. Combinei que falaria para meu anfitrião que o Silvano queria falar com ele e eu passaria o celular. O Silvano topou. Cheguei e lá estava a Belinha, desta vez com uma bola azul na boca. No meio da conversa, o Silvano ligou, passei o meu celular para o dono da casa. Era a minha deixa. Mas não precisei inventar brincadeira alguma. Olhei para a Belinha, ela abriu a boca, mas a bola rolou rápido para baixo do piano. Me joguei no chão, engatinhei até conseguir pegar e mandar de volta o brinquedo para ela. Olhei para trás, me dirigi ao médico e falei: — Não sei se o senhor vai votar em mim, mas a Belinha vai. O gelo foi quebrado e rimos. No dia da eleição, o candidato não pode ficar na academia, mas tem que estar perto para ser chamado a qualquer momento. Fiquei dentro do carro, na rua em frente, com minha mulher, Claudia (endocrinologista Claudia Cozer), meu porto seguro, que foi uma guerreira, sempre ao meu lado aguentando meu nervosismo nesse tempo todo, minha amiga Bia (Bia Aydar, empresária) a Marcelle (Marcelle Faria, assessora pessoal). Me ligaram: 72 votos a favor, do total dos 98 votantes. Foi uma choradeira geral. Entramos, fomos recebidos pelo professor Nardi (Antonio Egidio Nardi, presidente da academia) e durante alguns bons instantes fiquei completamente fora do ar de com tamanha exaustão -- e sobretudo uma emoção imensa." * Em depoimento a Adriana Dias Lopes