O cenário foi-se adensando nas últimas semanas, tal como já tinha acontecido noutros momentos do longo reinado de Pep Guardiola no Manchester City, mas desta vez é a valer. O treinador catalão, um dos melhores da história do futebol, encerra no sábado (dia da última jornada da Premier League) um ciclo de dez anos com quase duas dezenas de troféus invejáveis. Pep não redimensionou apenas o clube, reescreveu parte do futebol inglês.
"What a time we have had together." ?? pic.twitter.com/WpkFecBYT4— Manchester City (@ManCity) May 22, 2026
Há um City antes e depois de Guardiola. Até à chegada do catalão, havia quatro campeonatos no palmarés do clube, agora há 10. Não havia nenhuma Liga dos Campeões. Agora há. Não havia nenhuma Supertaça Europeia. Agora há. Não havia nenhum Mundial de clubes. E, sim, agora há. E não havia uma equipa que tivesse sido tão dominadora no seu auge como a que Pep preparou na sua incubadora.A dimensão do legado do antigo médio é particularmente visível na época 2017-18. Nessa temporada, o City não se limitou a ganhar, fê-lo atropelando adversários e recordes. Atingiu a fasquia dos 100 pontos na Premier League, com um número absurdo de golos marcados (106), de vitórias (32) e uma diferença inaudita de 19 pontos em relação ao segundo classificado, o rival citadino.Apesar da sua saída do comando técnico, Guardiola não cortará laços com o City Football Group. O treinador assumirá um novo papel como Embaixador Global, onde prestará aconselhamento técnico aos vários clubes do grupo e participará em projetos e colaborações específicas.Numa emotiva despedida, Guardiola explicou que a sua decisão não tem uma razão específica, mas sim um sentimento interior de que o seu tempo chegou ao fim. «Não me perguntem as razões pelas quais vou sair. Não há nenhuma razão, mas, no fundo, sei que é a minha hora. Nada é eterno, se fosse, eu ficaria aqui», afirmou.O treinador catalão recordou a sua chegada e a profunda ligação que criou com a cidade e o clube. «Esta é uma cidade construída a partir do trabalho. Do esforço. Vê-se na cor dos tijolos», disse, acrescentando: «Trabalhámos. Sofremos. Lutámos. E fizemos as coisas à nossa maneira. A nossa maneira».Guardiola não esqueceu os momentos difíceis, como o ataque à Manchester Arena e a perda da sua mãe durante a pandemia de COVID-19, sublinhando o apoio incondicional que sentiu por parte dos adeptos, da equipa e de toda a cidade. «Lembram-se de perder a minha mãe durante a COVID e de sentir este clube a amparar-me? Os adeptos, o staff, as pessoas de Manchester, deram-me força quando mais precisei», confessou.O presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, elogiou a década de trabalho com Guardiola, destacando a honestidade e a confiança como pilares da relação. «Ao longo dos últimos dez anos, a honestidade e a confiança formaram a base sobre a qual navegámos juntos em todas as situações com o Pep», declarou. «A abordagem única que ele traz para o treino permitiu-lhe desafiar constantemente as verdades aceites do nosso desporto. É por isso que, nos últimos dez anos, ele não só tornou o Manchester City melhor, como também tornou o futebol melhor».Por sua vez, Ferran Soriano, CEO do clube, descreveu o legado de Guardiola como «extraordinário» e sublinhou a dificuldade de manter um ciclo vitorioso. «Se há algo mais difícil do que ganhar, é ganhar outra vez. Requer uma persistência, resiliência e humildade incríveis para recomeçar todos os anos, com a mesma energia, vezes sem conta. Foi isso que o Pep fez», afirmou Soriano, concluindo: «Ele é uma lenda do City... para sempre».Na sua mensagem de adeus, Guardiola deixou palavras de agradecimento e carinho: «Senhoras e senhores, obrigado por confiarem em mim. Obrigado por me puxarem. Obrigado por me amarem. [...] Amo-vos a todos».Pep Guardiola encerra a sua passagem pelo Manchester City como o treinador mais bem-sucedido da história do clube, deixando para trás um período recheado de conquistas e recordes que redefiniram o futebol inglês. No seu último ato, o técnico conquistou a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga, fechando com chave de ouro uma era de domínio.Considerado um ícone da Premier League e um dos melhores treinadores de sempre, Guardiola não só acumulou vitórias de forma consistente, como também estabeleceu marcos históricos notáveis. O seu palmarés no City inclui seis títulos da Premier League, uma Liga dos Campeões, três Taças de Inglaterra, cinco Taças da Liga, um Mundial de Clubes, uma Supertaça Europeia e três Supertaças de Inglaterra (Community Shields).Um dos pontos altos da sua carreira foi a época de 2017/18, na qual o City alcançou um recorde de 100 pontos na Premier League. Nessa mesma temporada, a equipa quebrou outras marcas, como o maior número de golos marcados (106), mais vitórias (32), mais pontos fora de casa (50), a maior diferença de golos (+79) e a maior margem de vitória na história da competição (19 pontos).Na campanha seguinte, Guardiola levou o clube a um feito inédito no futebol inglês, ao conquistar os quatro troféus domésticos numa única época: Premier League, Taça de Inglaterra, Taça da Liga e Community Shield.O auge chegou na temporada 2022/23, quando o Manchester City se tornou a segunda equipa inglesa a conquistar o «Treble» — Liga dos Campeões, Premier League e Taça de Inglaterra —, um feito considerado o maior na história de 132 anos do clube. A este sucesso seguiram-se a Supertaça Europeia, vencida em Atenas contra o Sevilla, e o Mundial de Clubes, conquistado em Jeddah com uma vitória por 4-0 sobre o Fluminense, tornando o City no primeiro clube inglês a vencer os cinco maiores troféus de clubes num só ano civil.Mais recentemente, na época 2023/24, Guardiola conduziu a equipa ao quarto título consecutivo da Premier League, um feito sem precedentes na história do futebol inglês.Para além dos troféus, o impacto de Guardiola no futebol inglês é visto como transformador. O seu estilo de jogo, caracterizado por uma finesse ofensiva, influenciou toda a pirâmide do futebol no país e será, para muitos, o seu maior legado. A sua excelência foi reconhecida com cinco prémios de Treinador do Ano da Premier League e três distinções da Associação de Treinadores da Liga.Guardiola despede-se também como o treinador com mais tempo de serviço no clube, superando Les McDowall ao comandar o seu 593.º e último jogo contra o Aston Villa. Ao longo dos seus dez anos, tornou-se uma figura adotada pela cidade, um vínculo solidificado em 2025, quando recebeu um doutoramento honorário da Universidade de Manchester pela sua contribuição extraordinária para a cidade.











