Artista celebra sucesso de crítica e público do álbum com releituras contemporâneas do repertório do avô Dorival e fala sobre o ‘capitalismo de algoritmo’: ‘As pessoas não têm consciência de classe e nem da doença que isso é’ Alice Caymmi — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 17:34 Alice Caymmi celebra legado de Dorival e critica "capitalismo de algoritmo" em novo álbum "CAYMMI" Alice Caymmi comemora o sucesso do álbum "CAYMMI", que celebra o legado do avô Dorival com releituras modernas. Em entrevista, ela aborda a atemporalidade das obras de Dorival e critica o "capitalismo de algoritmo" que afeta a criação artística. Alice destaca a importância de sentir prazer no trabalho para navegar as pressões atuais e celebra a recepção do público e da crítica ao seu projeto. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Alice Caymmi está radiante. Carioca de raízes baianas, a artista, aos 36, demorou alguns bons anos até mergulhar de cabeça, corpo e alma na obra basilar do avô, Dorival (1914—2008). No final de abril, lançou um álbum que leva no título o sobrenome do patriarca. Com versões cheias de ritmos latinos e pegada eletrônica para clássicos como “Maracangalha” e “Canção da partida”, ela conquistou crítica e público. Em entrevista ao GLOBO no pátio interno do Paço Imperial, no Centro do Rio, na manhã da última terça-feira — na frente do jardim de Burle Marx e com direito à visita de uma abelha (“É Oxum!”, ela avisou ao repórter) —, Alice celebrou essa recepção positiva e falou sobre o fator atemporal da obra do avô, além de destacar as mazelas do “capitalismo de algoritmo” ao qual estamos submetidos — na música e também fora dela. — Esse álbum (“CAYMMI”) representa um lugar de maturidade e de completude como artista e como pessoa ao qual eu nunca tinha chegado. Tem uma coisa psicanalítica de retorno às raízes, mas por me sentir parte daquilo, e não por obrigação, sabe? — destaca. — Essa consciência me ajudou a criar um dos trabalhos mais importantes da minha vida, que é esse. Apesar de nunca ter tido um trabalho que “não deu certo”, porque, nas suas próprias palavras, “um projeto realizado é um projeto realizado”, “CAYMMI” marca realmente um ponto de virada para Alice. Alice Caymmi — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo — A recepção do público está sendo inesperadamente boa, em termos de números, que é uma coisa que eu nunca tive. Numericamente, eu estourei uma bolha que estava há um tempo sem conseguir estourar. E a crítica também acolheu, então parece que cheguei nesse lugar que eu vinha buscando há muitos anos, o do popular e da crítica. Estou até me beliscando, todos os dias, porque acho que consegui chegar “lá” — diz, entusiasmada. Perguntada sobre o fator atemporal presente nas músicas de Dorival (algumas lançadas originalmente há quase 90 anos), Alice diz que “essa é uma das perguntas mais difíceis de responder”. Mas tenta, ao dizer que “alguma coisa nele captava a alma humana de uma maneira sintética”. E aprofunda: — Ele fazia uma síntese da alma humana quando se tratava de amor, do trabalhador, do pescador... ele tinha uma capacidade de reduzir, reduzir, reduzir e reduzir aquilo até chegar numa essência tão grande que isso se tornou eterno e diz respeito à alma humana até os dias de hoje. Acho que esse é o grande talento de Dorival e que eterniza a música dele. ‘Capitalismo de algoritmo’ À síntese de Dorival e à voz de Alice, somam-se também algumas pitadas dos ônus das novas formas de se produzir e consumir música dentro desse “capitalismo de algoritmo”. — A minha qualidade de vida caiu muito por conta do sistema em que toda a classe trabalhadora cai do capitalismo de algoritmo que realmente tira da gente o direito do repouso, da criatividade e da contemplação — enfatiza. — Consigo sair das redes por cinco minutos para criar o meu trabalho, mas logo volto porque preciso divulgar o que foi feito, e aí tudo se perde novamente, (inclusive) o entendimento da vida como uma coisa que não depende desse aparelho e desse trabalho constante e forçado para empresas privadas que não nos pertencem. As pessoas não têm consciência de classe e não têm consciência da doença que isso é. Também é muito difícil legislar sobre isso, porque é uma coisa muito recente na história da humanidade. Alice Caymmi — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo E como navegar positivamente — na medida do possível — por essa lógica de trabalho? — Eu tento ser o mais artística possível na minha aproximação dentro desse formato. Tento trazer imagens que eu acho bonitas, trabalhar só com pessoas que eu gosto e que admiro. Já que estamos trabalhando com a minha imagem, deixa eu fazer isso de um jeito legal, que não seja só a beleza do corpo feminino, da face feminina, da juventude... que a gente consiga fazer uma coisa artística mais interessante. Eu preciso muito sentir algum prazer com isso também, senão fico muito angustiada ali dentro — responde. Depois de estrear o show de “CAYMMI” em São Paulo, Alice chega ao Rio para uma apresentação gratuita na primeira edição do festival “Remexe Rio” — que começa nesta sexta (22). Domingo (24), às 19h, em um palco montado na Praça XV, ela vai celebrar a poesia viva e eterna de Dorival Caymmi. — Caymmi é um poeta. Um letrista é um poeta — diz, se referindo ao avô no presente. — E o fazer poético dele é a construção de uma utopia de um lugar: a utopia da Bahia. A Bahia lírica, a Bahia poética, a Bahia imaginária e a Bahia utópica, que é também o Brasil utópico.