Sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem comercializados, os sachês de nicotina seguem sendo vendidos livremente na internet no Brasil. Em uma semana de monitoramento, entre 18 e 21 de maio, o Valor encontrou produtos de marcas como Velo, Zyn e Slapple disponíveis para compra com entrega em São Paulo. Diferente do "Snus" tradicional, um produto de tabaco úmido em pó originário da Suécia, a maioria dos modernos "pouches" de nicotina não contém tabaco em folha. Eles possuem nicotina extraída do tabaco (ou sintética), combinada com materiais de preenchimento, como celulose, aromatizantes e estabilizantes. No Brasil, os “snus” e “pouches” são proibidos, mas mesmo assim são encontrados em sites de revenda. Em quatro dias de monitoramento, o Valor identificou ao menos cinco plataformas de revenda ativas, com produtos de diversas marcas como a Velo, Zyn e Slapple, comercializados e distribuídos nos comércios online. — Foto: Reprodução O Valor entrou em contato pelo WhatsApp com atendentes desses comércios, que disseram aceitar pedidos e distribuir para a cidade de São Paulo, com o pagamento sendo feito diretamente pelo site. — Foto: Reprodução Um dos atendentes dessas plataformas, inclusive, enviou à reportagem um vídeo com as embalagens dos produtos comercializados. Vídeo de visualização única no WhatsApp capturado por celular O atendimento dessas plataformas eletrônicas, com as quais a reportagem entrou em contato, ignorou as mensagens do Valor questionando a legalidade das operações. Procuradas, a British American Tobacco (BAT), dona da Velo, e a Philip Morris Brasil, responsável pela Zyn, afirmaram não comercializar, distribuir ou fornecer os sachês de nicotina no país, nem possuir qualquer relação com operadores ilegais. O Valor entrou em contato com a Slapple, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), que fez uma operação no ano passado para remover duas lojas que vendiam ilegalmente os sachês de nicotina, afirmou que vem trabalhando no aprimoramento de diretrizes para coibir a venda de produtos ilegais em marketplaces. A Anvisa, que incluiu a regulamentação das bolsas de nicotina em sua agenda regulatória para 2026-2027, não respondeu aos questionamentos do Valor. Atualmente, esses produtos não têm autorização para registro, e sua comercialização é considerada ilícita pela agência. Em um relatório publicado neste mês, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou que as bolsas de nicotina frequentemente escapam das malhas regulatórias, uma vez que cerca de 160 países não possuem regulamentação específica. Apenas 16 países proíbem sua venda, e 32 regulamentam o comércio de alguma forma, incluindo restrição de sabores, vendas a menores de idade e proibição de publicidade, promoção e patrocínio. Segundo a OMS, as vendas de varejo de sachês de nicotina ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024, registrando um aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior. Ainda de acordo com a OMS, o mercado global de produtos de bolsas de nicotina atingiu um valor de quase US$ 7 bilhões em 2025. "O uso de sachês de nicotina está se disseminando rapidamente, enquanto a regulamentação tem dificuldade em acompanhar esse ritmo", afirma a OMS. Riscos à saúde OMS destaca que algumas bolsas de nicotina chegam a concentrações entre 50 e 150 mg/g, valores substancialmente maiores do que os presentes em cigarros convencionais. Mesmo que não envolva fumaça e combustão, o uso dos “pouches” pode ser tão ou mais nocivo do que o próprio cigarro, afirma Jaqueline Scholz, cardiologista e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor da USP. Esse aspecto, na visão de Scholz, descarta a tese de que o produto pode ajudar no desmame dos cigarros tradicionais. "A própria concentração de nicotina nesses produtos entrega a intenção de quem o vende. É uma busca por novos clientes, não por uma saída do tabagismo. Essas bolsas têm 20mg, 25mg de nicotina e com um nível de absorção muito alto. É capaz de gerar uma dependência até mais grave que o cigarro". Segundo Scholz, o uso dos sachês de nicotina pode gerar dependência química e prejudicar o desenvolvimento do cérebro em jovens, afetando aprendizagem e a memória. “O ‘pouch’ está relacionado a vários problemas. Gera uma dependência química muito grande, que por si só já é uma doença grave. Acaba com a saúde bucal, causa gengivite, perda de dentes, perda de massa dentária. O uso contínuo e crônico também está relacionado a doenças metabólicas como diabetes”, afirma. *Estagiário sob supervisão de Diogo Max