O que importa não são os detalhes de engenharia, mas o que a decolagem representa para o IPO da empresa, que deve ocorrer na próxima semana e se tornar o maior da História Starship versão 3 na plataforma de lançamento no Texas, Estados Unidos — Foto: Divulgação/Spacex RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 09:15 Lançamento do Starship pode influenciar IPO histórico da SpaceX O lançamento do Starship pela SpaceX pode ser crucial não só pela engenharia, mas pelo impacto no IPO da empresa, esperado como o maior da história. O voo testa a Versão 3, com melhorias significativas, e é crucial para a expansão da Starlink. O sucesso é vital para a narrativa de crescimento da SpaceX, que almeja um valor de mercado de até US$ 2 trilhões, transformando a empresa em uma plataforma integrada de espaço, conectividade e IA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um foguete do tamanho de um arranha-céu, com uma estrutura de 124 metros de altura, está programado para decolar mais uma vez do Texas, nos Estados Unidos, a partir das 20h30 desta quinta-feira. Esse é o 12º voo de teste do Starship, o foguete da SpaceX que acumula, ao mesmo tempo, uma história de percalços e a quebra sucessiva de recordes inéditos na indústria espacial privada. A empresa de Elon Musk está na iminência de um IPO avaliado na casa de US$ 1,75 trilhão, potencialmente o maior da história, e acumula nesta missão uma concentração incomum de apostas. Este será o primeiro voo da chamada Versão 3, um veículo quase inteiramente redesenhado, com novos motores, nova plataforma de lançamento e capacidade de carga quase três vezes superior à do modelo anterior. Mais do que um teste adicional, é a versão mais próxima da configuração final do foguete, que tem contra si o relógio correndo contra o tempo para o início das operações comerciais. — O V3 representa uma consolidação da tecnologia desenvolvida até aqui. Se o teste der certo, já temos o veículo que vai ser produzido em massa. A SpaceX não pode esperar muito para entrar na fase operacional — disse Pedro Pallotta, especialista em astronáutica e fundador do canal Space Orbit, que acompanha o desenvolvimento do programa há cerca de oito anos. O que torna este lançamento verdadeiramente singular não são os detalhes de engenharia, mas o que ele representa para uma empresa que está às vésperas de abrir capital. Caso supere o recorde da Saudi Aramco — a petroleira saudita levantou US$ 25,6 bilhões quando abriu seu capital em 2019 —, e quem sabe ultrapasse a casa dos US$ 2 trilhões, a SpaceX terá em valor de mercado entre 110 e 125 vezes a receita de 2025, de US$ 16 bilhões. Montagem do foguete da SpaceX que vai voar nesta semana — Foto: Divulgação/SpaceX Em entrevista ao GLOBO, o analista americano Franco Granda, da consultoria PitchBook, afirmou que acompanha a empresa de perto e acredita que o voo desta quinta é o catalisador mais importante que resta no calendário pré-IPO da SpaceX. — Starship é o fio condutor de tudo o que a SpaceX está tentando construir. A magnitude da melhoria na economia de escala, no posicionamento competitivo e na expansão de casos de uso é o que faz com que este veículo seja tão importante na trajetória de longo prazo. Sem ele, a SpaceX é uma companhia altamente lucrativa de lançamentos e banda larga. Com ele, a empresa se torna algo categoricamente diferente. Vital para expansão da Starlink O Starlink, braço de conectividade por satélite da empresa e principal sustentáculo do valor da companhia, gerou US$ 10,4 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 18,7 bilhões em 2026, com margens operacionais de até 60%. Mas esse crescimento tem um gargalo significativo, já que a nova geração de satélites, os V3, foi projetada especificamente para ser lançada pelo Starship. Sem o foguete operacional em cadência, a expansão do Starlink simplesmente não acontece no ritmo que o IPO exige. Segundo análise da PitchBook, a capacidade de banda por lançamento do Starship é 12 vezes superior à do Falcon 9, com uma queda de quase 90% no custo incremental por gigabit por segundo de capacidade adicionada. O quadro se torna ainda mais complexo quando se olha para além do Starlink. Em fevereiro deste ano, a SpaceX absorveu a xAI, empresa de inteligência artificial de Musk avaliada em US$ 250 bilhões, numa fusão que transformou a companhia numa plataforma integrada de espaço, conectividade e IA. 1 milhão de satélites O plano inclui o lançamento de até um milhão de satélites de computação em órbita, uma infraestrutura de data centers espaciais que depende inteiramente do Starship como espinha dorsal logística. O problema deste caminho é que a xAI ainda opera no vermelho, com margem EBITDA estimada em - 44%, e já consumiu bilhões em chips e infraestrutura. Para a PitchBook, a aquisição adiciona ruído narrativo a uma história que, por si só, já seria uma grande aposta. — Os investidores neste momento não estão comprando o negócio atual da SpaceX, mas sim a plataforma futura que o Starship vai consolidar. Nossa própria análise da soma das partes estima o valor justo em cerca de US$ 1,5 trilhão. A diferença entre esse valor e a meta do IPO é quase inteiramente narrativa, e, no momento, a Starship é essa narrativa — declara Granda. Nave Starship, da SpaceX, é lançada acoplada ao propulsor Super Heavy — Foto: Divulgação/SpaceX Pallotta vai além na avaliação dos riscos e explica que a empresa está dando um all-in (nos jogos a expressão significa que o jogador decidiu apostar tudo). Diferentemente do aperfeiçoamento linear operado com o Falcon, a SpaceX amarrou seu portfólio corporativo quase inteiramente ao êxito deste único gigante — A SpaceX está agindo como se fosse um all-in. Starlink de terceira geração, data centers orbitais, o lander lunar (módulo de pouso para aterrisagem na Lua) — tudo dependendo de um único foguete. Pode ser um all-in que vai mudar a história da humanidade. Mas é um risco altíssimo que eles estão correndo — avaliou o especialista. Reabastecimento em órbita Além dos desafios técnicos para as ambições comerciais da empresa, a SpaceX ainda precisa solucionar o reabastecimento em órbita. Para que o Starship cumpra seu acordo com o governo americano no programa lunar Artemis, da Nasa, o foguete precisará realizar cerca de dez voos de abastecimento antes de qualquer pouso tripulado na Lua, transferindo combustível criogênico entre veículos no espaço, uma operação de alta complexidade que nunca foi demonstrada nessa escala. A missão Artemis III, que prevê o retorno do ser humano à superfície lunar, já foi adiada para 2028 em parte devido às incertezas no cronograma do Starship. O contrato da Nasa com a SpaceX para o sistema de pouso lunar (HLS) soma pelo menos US$ 3 bilhões, e cada novo atraso aprofunda a desvantagem americana na corrida espacial com a China. Cálculo decisivo Após investir mais de US$ 15 bilhões no programa ao longo de uma década, de ter produzido cerca de mil motores Raptor e de ter enfrentado um 2025 marcado por explosões e retrocessos, a SpaceX chega ao Voo 12 com o próximo veículo quase pronto e uma fila de compromissos que não admite mais demoras. A PitchBook estima que a precificação do IPO deva ocorrer em meados de junho, o que coloca o resultado do lançamento diretamente no radar de todos os investidores institucionais que participarão do roadshow. Um voo limpo, explica a consultoria, reforça a narrativa; um fracasso catastrófico, especialmente se danificar a infraestrutura de solo, forçaria executivos e bancos a responderem perguntas difíceis às vésperas da oferta. Starship e Super Heavy acoplados na plataforma de lançamento no Texas, Estados Unidos — Foto: Divulgação/SpaceX Neste cenário, o voo de hoje foi desenhado pela empresa de forma estratégica para avançar no desenvolvimento do programa, mas não assustar os acionistas precoces. A missão, por exemplo, não prevê o pouso cinematográfico do propulsor nos “braços” da base de lançamento, mas sim uma amerissagem controlada nas águas isoladas do Oceano Índico. Sob o aspecto técnico, o lançamento a partir da costa do Golfo do México medirá a integridade do escudo térmico e a capacidade dos novos motores Raptos, mas, fundamentalmente, também submeterá ao estresse orbital as audaciosas promessas do Vale do Silício. Caso as expectativas desse voo não se cumpram, as engrenagens de uma avaliação especulativa da SpaceX, que beira os dois trilhões, poderão ser consumidas na atmosfera antes mesmo da abertura do pregão.