Horácio Goicoechea, 83, uruguaio nascido em Paso de los Toros, morava no Brasil em 1977 quando recebeu a notícia de que o irmão caçula, Gustavo Goycoechea Camacho, então com 28 anos, estava desaparecido. Na madrugada de 23 de dezembro, homens armados invadiram o local onde ele vivia com a mulher, Graciela Basualdo, e o filho de dois anos em Buenos Aires.
O dono de um bar próximo reconheceu o motorista do veículo que parou em frente à casa como um soldado do Exército argentino. Outros vizinhos receberam ordens de apagar as luzes e voltar a dormir sob a mira das armas.
Em uma ação supostamente parte da Operação Condor, plano repressivo de cooperação entre as ditaduras do Cone Sul, o casal foi levado dali para centros de detenção clandestinos e seu paradeiro segue desconhecido. O filho, Nicolás, foi entregue a uma vizinha, que comunicou a família de Gustavo no Uruguai, antes que a criança fosse levada para ter o destino de tantos filhos de presos políticos da época.
Há quase 50 anos, Horácio, que vive no Rio Grande do Sul desde os anos 1960, espera respostas com o retrato do irmão na parede. Ainda que parecesse irracional, guardou a esperança de que ele tivesse perdido a memória e que ainda pudesse reaparecer. Quando compartilhava com alguém sua história, tinha de ouvir que Gustavo, o caçula gentil, trabalhador filiado a movimentos de esquerda, devia ser "um delinquente", "um subversivo".










