Um total de 23.526 brasileiros receberam autorização de residência em 2025 Paraguai passou a atrair brasileiros, motivados por fatores econômicos e políticos — Foto: Santi Carneri/Bloomberg/2-12-2023 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/05/2026 - 22:36 Migração de Brasileiros ao Paraguai Bate Recorde em 2025 por Razões Econômicas e Políticas A migração de brasileiros para o Paraguai atingiu um recorde em 2025, com 23.526 autorizações de residência concedidas, impulsionada por fatores econômicos e políticos. A proximidade geográfica, facilidades do Mercosul e vantagens fiscais atraem empresários e famílias. Apesar dos atrativos, especialistas alertam para desafios e uma romantização do processo nas redes sociais. A Lei de Maquila e menor custo de vida são destacados como benefícios adicionais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO As longas filas de brasileiros em postos migratórios tornaram-se recorrentes no Paraguai. Impulsionada por fatores que passam pelo contexto econômico e por justificativas de ordem política, a migração rumo ao país vizinho bateu recorde em 2025, em um número que mais do que dobrou nos últimos cinco anos: mais de 23 mil pessoas que cruzaram a fronteira em busca de uma “nova vida” pleitearam a residência permanente junto ao governo paraguaio. A proximidade geográfica, a facilidade migratória proporcionada pelo Mercosul e os baixos custos tributário e regulatório também aparecem como elementos que alimentam o fenômeno. Na internet, multiplicam-se os vídeos viralizados alardeando relatos de deslocamentos bem-sucedidos, mas especialistas ressaltam que os desafios são igualmente diversos. Há um ano, a comerciante Gleita Barbosa, de 49 anos, deixou para trás a casa, o carro e o comércio que mantinha na capital paulista para se mudar com o marido para Cidade do Leste, segundo maior município do Paraguai, situado na tríplice fronteira com Brasil e Argentina. Após viver como imigrante nos Estados Unidos e na Europa em busca de melhores condições de vida, ela conta que, dessa vez, a principal motivação seria ideológica. — Estávamos desgostosos e cansados de viver no Brasil por conta da situação política e viemos sem planejamento nenhum. Tivemos um período de adaptação, mas foi a melhor decisão que tomamos, me arrependo até de não ter vindo antes. Não que o Paraguai seja perfeito, mas sentimos que aqui temos mais oportunidades. No Brasil tínhamos que matar dez leões por dia, e aqui são só dois. Virei paraguaia de coração — conta Barbosa, que agora se arrisca como influenciadora nas redes sociais mostrando o dia a dia no país vizinho. Pedidos de residência de brasileiros no Paraguai — Foto: Arte O Globo Ela faz parte do grupo de 23.526 brasileiros que receberam autorização de residência em 2025, segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai. O número corresponde a mais da metade dos 40,6 mil pedidos totais e é cinco vezes maior do que a segunda nação na lista, a Argentina (4,3 mil). Esse contingente mais do que dobrou na comparação com 2020, quando pouco mais de 10 mil brasileiros buscaram esse caminho, em um índice que cresceu ano a ano desde então (veja mais no infográfico ao lado). Na últimas décadas, desde o fim da ditadura militar local, em 1989, o Paraguai foi sucessivamente governado por presidentes à direita, com exceção do ex-bispo católico Fernando Lugo, entre 2008 e 2012. O atual chefe do Executivo, Santiago Peña, vem estimulando mutirões migratórios, batizados de Migramóvil, que oferecem uma série de facilidades aos estrangeiros que pretendem se instalar no país. Múltiplos perfis Apesar das justificativas de natureza política, que aparecem com frequência na internet e no depoimento de Gleita Barbosa, o professor de Direito Internacional Solando Camargo, da Universidade de São Paulo (USP), explica que o fluxo entre os dois países é, na verdade, heterogêneo: — Não existe um único perfil. Há empresários e empreendedores que enxergam um ambiente de menor custo operacional, tributação simples e menor burocracia. Há ainda o fenômeno histórico dos chamados “brasiguaios”, ligado ao agronegócio, que são pessoas em busca de terras mais baratas e expansão agrícola. Estudantes brasileiros, especialmente nas áreas de Medicina e Odontologia, também vão ao Paraguai por conta das mensalidades universitárias mais acessíveis e processos de ingresso menos competitivos. E há famílias buscando menor custo de vida, como aposentados ou investidores imobiliários interessados em reorganização patrimonial — elenca o especialista, que alerta para a “romantização do processo” nas redes sociais. — O país não oferece a mesma estrutura estatal e institucional do Brasil, com o SUS, um sistema judiciário mais estruturado, um Ministério Público forte, maior digitalização estatal ou uma máquina administrativa mais sofisticada. Após viver nos EUA e na Europa, Gleita seguiu ao Paraguai com a família — Foto: Reprodução De olho na captação de investimentos, o Paraguai sancionou a Lei de Maquila, que permite que empresas estrangeiras operem no país produzindo para o exterior com baixa carga tributária, cobrando somente uma taxa única de 1% sobre a fatura de exportação. Ainda no campo tributário, o país adota o sistema conhecido como “10-10-10” (10% de Imposto de Renda para Pessoa Física, 10% para Pessoa Jurídica e 10% de Imposto sobre Valor Agregado, o IVA, que incide sobre o consumo). — Na América do Sul, é o percentual mais baixo. No Brasil, por exemplo, como só a alíquota do IRPF pode chegar até a 27,5%, pode fazer muita diferença no bolso para uma pessoa de classe de média. Além disso, no Paraguai ela consegue adquirir bens, como um celular moderno, pela metade do preço — explica Lígia de Souza Cerqueira, secretária da Comissão Especial de Direito Internacional da OAB de São Paulo. O aumento do poder de compra surge, de fato, como um dos principais atrativos para cruzar a fronteira. O aluguel de um imóvel de alto padrão em Assunção, capital do Paraguai, pode custar de 40% a 60% menos do que um equivalente em São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo. — O Paraguai quer isso e investe em política de atração de imigrantes. E, no caso brasileiro, o impacto não é tão grande, muito embora a questão das maquiladoras (referência aos incentivos fiscais para exportação) na fronteira tenha atraído muitas empresas nacionais. Não vejo reação negativa na elite política do Brasil ou mesmo no Itamaraty — opina Pedro Feliú, professor de Relações Internacionais da USP. Mão de obra local Os benefícios da Lei de Maquilla exigem poucas contrapartidas, como a exigência de contratar mão de obra local, com ações que devem ser comprovadas junto ao Ministério da Indústria paraguaio. No caso de quem busca abrir uma empresa no país vizinho, especialistas destacam ainda a energia até 60% mais barata e a estabilidade macroeconômica, potencializada pela sequência de administrações de viés liberal. — Para muitas empresas, principalmente industriais, internacionalizar parte da operação deixou de ser uma decisão de expansão e passou a ser sobrevivência competitiva — avalia Suelen Raizer, fundadora da consultoria tributária Frontexa. O pedido de moradia para brasileiros foi facilitado após o Acordo do Mercosul, que entrou em vigor em maio, mas não é um direito automático sem análise administrativa. O trâmite exige uma primeira solicitação da Residência Temporária, válida por até 2 anos, e, posteriormente, a conversão para Residência Permanente. É necessário apresentar documento de identidade válido (RG ou Passaporte); Certidão de Nascimento ou Casamento; Certidão de Antecedentes Criminais da Polícia Federal do Brasil e da Justiça Estadual; Certidão de Antecedentes da Polícia Nacional do Paraguai e da Interpol paraguaia; e Comprovante de entrada legal no país (carimbo ou ticket de imigração). — O brasileiro pode entrar como turista, com isenção de visto, e permanecer por até 90 dias. Se não iniciar o processo de residência e ultrapassar esse prazo, ele passa a ter o status migratório irregular. Nesse caso, pode receber uma multa por estadia vencida, cobrada na fronteira no momento em que a pessoa tenta sair do país, ou até mesmo ter uma “morte civil”, ficando impossibilitado de abrir contas bancárias, assinar contratos de aluguel formais, obter diplomas universitários válidos ou registrar empresas — pontua o advogado Alessandro Vieira Braga, especialista em Direito Imigratório e Direito Internacional Público e Privado.
Puxada por fatores como economia e política, migração de brasileiros para o Paraguai bate recorde
Um total de 23.526 brasileiros receberam autorização de residência em 2025












