“Bottle”, na sua forma mais simples, quer dizer garrafa, mas o futebolês britânico dá-lhe um significado extra, os que deitam tudo a perder quando estão quase a ganhar – “to bottle”. No futebol inglês, ninguém simbolizava mais isto do que o Arsenal, perdedor nos últimos 22 anos, a equipa que nunca resistia ao abismo. Nesta terça-feira, os “gunners” finalmente deixaram de carregar esse peso, garantindo o título de campeão da Premier League da forma mais tranquila possível, a verem os outros perderem pontos, neste caso o Manchester City a empatar em casa (1-1) do Bournemouth. Não foi preciso esperar pelo último dia para celebrar – não houve ninguém, como disse um comentador na televisão inglesa, a beber de uma garrafa com as lágrimas de adeptos do Arsenal.Foram 22 anos à espera para regressar ao topo, depois da sua última fase dominante com Arsène Wenger, nos anos 1990 e 2000 – três títulos, em 1998, 2002 e 2004, este último sem derrotas, a equipa dos “Invencíveis”. Esta equipa apurada por Mikel Arteta nas últimas seis épocas e meia não foi invencível e, a uma determinada altura, parecia quebrada pelo peso das expectativas, mas quem quebrou foi a equipa que estava habituada a ganhar, o City, e o treinador quem mais ganhou na última década, Pep Guardiola – e a estocada final foi dada por um amigo de infância de Arteta, Andoni Iraola, treinador do Bournemouth, no dia em que ficou confirmada a saída do catalão dos “citizens”.Longe de Londres, no sul de Inglaterra, o Bournemouth também jogava pelos seus próprios objectivos, para manter viva a chama de uma presença inédita na Liga dos Campeões. Iraola, que jogara na mesma equipa de miúdos de Arteta no País Basco, era quem estava entre Guardiola e a possibilidade de levar a luta pelo título até ao último dia. Desde cedo se percebeu que a equipa da casa estava altamente motivada para chegar aos seus objectivos e que o City simplesmente já não tinha a mesma energia para continuar a lutar, como que a sentir o abandono iminente de Pep.