Roberto Paris, diretor-executivo do Bradesco, assumiu o cargo de presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em cerimônia realizada em São Paulo nesta segunda-feira. Conforme o novo presidente, uma das suas prioridades é ampliar a autorregulação e criar normas de transparência na venda de títulos bancários, excluídos da resolução 179 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em seu discurso oficial de posse, Paris destacou que a entidade tem uma agenda para aprimorar a distribuição de investimentos, para que as recomendações de produtos estejam mais alinhadas aos interesses dos investidores, “sem que as motivações dos agentes estejam à frente do que é melhor para o investidor”. De acordo com o executivo, um dos planos da Anbima é criar normas de autorregulação para elevar a transparência na venda de produtos. “A ideia é acabar com a assimetria na distribuição de investimentos e trazer visibilidade para as remunerações recebidas. Quem ganha é o investidor”, afirmou. Em conversa com jornalistas posteriormente, Paris detalhou que a Anbima deve ampliar a autorregulação e criar normas de transparência sobre a venda de títulos emitidos pelos bancos. “Nos últimos quatro anos, ampliamos a autorregulação sobre a transparência na distribuição de diversos produtos. Vamos tratar também de produtos bancários e aperfeiçoar a autorregulação para que o investidor entenda o que está comprando”, disse. A resolução 179 da CVM obrigou que as remunerações recebidas por corretores, bancos e assessores para distribuir investimentos se tornassem transparentes, com o objetivo de ajudar os brasileiros a identificar os conflitos de interesse na oferta desses produtos. Contudo, a distribuição dos papéis emitidos por bancos, como os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), ficou de fora da norma, porque é regulada pelo Banco Central. O caso dos CDBs emitidos pelo Banco Master, vendidos pelas plataformas com o marketing da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), reacendeu esse debate. Paris, que acumula 38 anos de experiência no mercado financeiro, construiu sua carreira no Bradesco e chega à presidência da Anbima em um momento em que participantes do setor estão no centro dos holofotes em meio a operações da Polícia Federal — entre elas, a Carbono Oculto e a Compliance Zero, que investiga o Banco Master, de Daniel Vorcaro, por suspeita de fraudes que envolvem uma complexa cadeia de fundos. As investigações levaram à liquidação extrajudicial do banco e da administradora Reag Trust DTVM. Em seu discurso oficial de posse, Paris afirmou que o “momento é especialmente desafiador para a indústria”, mas que “casos isolados não podem definir a percepção sobre o setor”. O presidente novo da Anbima destacou que o diálogo com as 1,6 mil empresas da indústria de investimentos — incluindo bancos, corretoras, gestoras e administradoras de fundos de investimentos e securitizadoras — e com o regulador é uma das marcas da associação. Além disso, o executivo ressaltou que a entidade deve se esforçar para aprimorar as bases que sustentam um ambiente de negócios saudável. “Vamos atuar ativamente para aperfeiçoar a autorregulação e continuar sendo uma grande referência na capacidade de antecipar os movimentos e trazer propostas ágeis em meio aos desafios do mercado”, afirmou. Conforme Paris, a associação está analisando com atenção temas emergentes, como os ativos digitais e o mercado de carbono, e buscando se antecipar na criação de diretrizes. “Estamos atentos a arranjos novos. O mercado evoluiu de forma organizada, as estruturas de negócios se tornaram mais complexas e atividades novas surgiram, mas nem sempre a regulação acompanhou. Ajudaremos a criar soluções para o mercado continuar crescendo de maneira sustentável”, disse. Em conversa com jornalistas, Paris afirmou que sua ideia é aperfeiçoar a autorregulação com “mais tempestividade” para responder ao que acontece na indústria de investimentos de maneira mais acelerada. “O mercado está evoluindo muito rapidamente, precisamos ser capazes de agir para fazer frente às evoluções e conseguir ser mais tempestivos para se adaptar rapidamente à realidade”, afirmou. De acordo com o executivo, o plano é seguir com o trabalho que já estava sendo feito na Anbima, ampliando a autorregulação com foco na proteção dos investidores, em uma indústria mais complexa. “Proteger os investidores ficou mais difícil. O arcabouço autorregulatório precisa ser adaptado a essa nova realidade”, disse.