Mais um grupo inglês entra no mercado nacional de educação básica. Trata-se da Affinitas Education, que desembarcou no Brasil adquirindo os colégios bilíngues St. Francis e Beacon, ambos na capital paulista. Com isso, já são cinco redes britânicas e uma suíça que juntas compraram cerca de 20 colégios no país. São escolas voltadas para um público de maior renda e, em geral, bilíngues ou internacionais. O mercado privado de educação básica movimentou, no ano passado, R$ 112 bilhões, considerando mensalidades e sistemas de ensino. Deste montante, 20% vêm dos colégios premium, cujas mensalidades podem chegar à casa dos R$ 15 mil. Os dados são da consultoria Hoper Educação. Há um interesse na consolidação da educação básica no Brasil, uma vez que apenas 20% dos alunos estudam na rede privada. Os grupos internacionais de educação que estão no país são capitaneados por investidores financeiros que, em poucos anos de atividades, fizeram várias aquisições em diferentes países de escolas de educação básica, modalidade conhecida como K-12, ou seja, desde o “kindergarten” (jardim de infância) ao 12º ano. lousa cheia_B — Foto: Arte/Valor A Affinitas foi fundada em 2022 pela Oakley, gestora britânica de private equity (que compra participação em empresas) que, no ano passado, levantou em um de seus fundos € 4,5 bilhões. A primeira escola brasileira adquirida foi o St. Francis, cuja transação foi anunciada há cerca de dois meses. Nessa semana, a Beacon informou que também passou a fazer parte do grupo, que possui um total de 29 escolas na América e Europa. “A partir de uma reflexão sobre o futuro e a continuidade da escola, entendemos que era o momento de dar um novo passo, buscando um parceiro alinhado aos nossos valores, capaz de fortalecer o nosso projeto sem abrir mão da nossa identidade e da nossa cultura de cuidado com os alunos”, informaram, em comunicado, Luciana Leite e Maria Eduarda Sawaya, sócias-fundadoras da Beacon. A escola tem 1,5 mil alunos em três unidades na capital paulista. As fundadoras permanecem como sócias. A fatia não foi revelada. A escola informou que não haverá mudanças na equipe e perfil pedagógico. No site da Affinitas, o St. Francis disse que a associação com o grupo inglês permite dar continuidade à missão, “mantendo-nos fiéis à nossa essência como instituição de ensino, e ampliar as oportunidades disponíveis para nossos alunos e para a comunidade.” Thomas Rajzbaum, CEO da Affinitas, informou que “nosso papel como parceiro vai ser apoiar e potencializar o que já existe, ampliando a experiência internacional, recursos e perspectiva global.” Os valores das transações não foram divulgados. Mas, sabe-se que os grupos internacionais, em especial os ingleses, têm desembolsado quantias relevantes nessas aquisições. A Inspired, de Londres, pagou R$ 2 bilhões pela Eleva, o equivalente a 25 vezes o lucro antes de juros, depreciação e amortização (Ebitda). Além disso, investiu mais R$ 3 bilhões em expansão. A também britânica Nord Anglia pagou US$ 500 milhões pelas unidades de São Paulo e Nova York da Escola Avenues, fundada nos Estados Unidos. No fim do ano passado, a International Schools Partnership (ISP) comprou as escolas Albert Sabin e Vital Brazil. Outra transação que chamou atenção foi a venda, em 2024, da Escola Móbile, que há anos era assediada por investidores, para a Nord Anglia. Esse grupo tem como investidores as gestoras Warburg Pincus e TA Associates. Segundo Paulo Presse, consultor da Hoper Educação, a estimativa é que haja no Brasil entre 30 e 40 escolas com esse perfil premium. “É um segmento pequeno em volume, mas muito relevante em valor, reputação e estabilidade de receita, o que ajuda a explicar o interesse crescente de grupos nacionais e internacionais”, disse Presse. Atualmente, há um questionamento sobre se ainda existe espaço para mais aquisições nesse segmento premium, uma vez que muitos colégios desse perfil já foram adquiridos. Há ainda aqueles colégios em que os fundadores não têm interesse de vender. Esse é o caso da Escola Concept, com mensalidade de R$ 13 mil na unidade de São Paulo, que é frequentemente procurada pelas redes internacionais. Hoje, a Concept está também em Ribeirão Preto (SP) e Salvador e tem uma unidade em construção no Rio de Janeiro. “Não existe chance de venda das premium. Minhas filhas assumiram a continuidade do legado. Não vamos vender, apesar das propostas mirabolantes. Faço questão de preservar o legado, 60 anos à frente de educação e minhas duas filhas, Thalita e Thamila, assumiram como CEOs, já com passagem de bastão e continuidade. Estou muito feliz, elas estão indo muito bem, superando as expectativas”, disse Chaim Zaher, presidente do grupo SEB, que é dono da Escola Concept e de outros colégios premium como Pueri Domus e Carolina Patrício. “O que estamos vendo é um mercado mais sofisticado e seletivo. Esse nicho reúne escolas internacionais e bilíngues de alto padrão, muitas delas com currículo IB Continuum [certificação do International Baccalaureate (IB)], mensalidades que podem passar de R$ 10 mil e forte apelo de exclusividade, posicionamento e formação global. Não é apenas uma entrega acadêmica, mas também um ecossistema de relacionamento voltado para famílias de alta renda”, disse o consultor da Hoper. Um dos atrativos dos grupos internacionais é a oferta de intercâmbio entre as escolas localizadas nos diferentes países. O SEB está negociando a compra de uma escola no Canadá para que os alunos de seus colégios premium estudem uma temporada fora do Brasil. Entre os grupos internacionais no Brasil há ainda a rede canadense Maple Bear. A operação local e internacional pertence também ao grupo SEB, desde 2024. No mundo, a Maple Bear tem cerca de 500 unidades que são tocadas com parceiros locais, como fundos de investimentos. Desse volume, cerca de metade está no Brasil, onde o modelo é de franquias. Há também uma consolidação nos colégios da camada de renda “intermediário alto”, mas esse movimento é tocado pelos grupos nacionais. As três maiores redes de escolas no Brasil também têm investidores financeiros como sócios. Em 2024, os fundos adquiram cerca de um terço das empresas. Entre elas estão o Salta, líder do setor com 180 mil alunos e que tem como sócios os fundos Gera, Warburg Pincus e Atmos. Na Inspira, a Advent e o fundo de pensão canadense CPP colocaram R$ 1 bilhão para expansão da companhia, que tem ainda um fundo do BTG e o fundador, André Aguiar, como acionistas. No SEB, a família Zaher vendeu um terço de sua operação de escolas focadas em aprovação no vestibular para o Kinea, fundo do Itaú, por R$ 415 milhões. A empresa está mais voltada aos colégios premium, como Concept, Pueri Domus e Carolina Patrício. Os grupos Salta, SEB e Inspira têm projetos de abertura de capital quando o ambiente macroeconômico estiver melhor e as condições do mercado financeiro forem mais atrativas. Enquanto isso, estão fazendo aquisições. O mercado de educação básica ainda é bastante pulverizado.