O Grupo Refit está no centro de mais uma operação da Polícia Federal (PF), ampliando a longa lista de polêmicas que a companhia se envolveu nos últimos anos. Nesta sexta-feira (15), a PF deflagrou a Operação Sem Refino que investiga possíveis fraudes fiscais, ocultação de patrimônio e evasão de divisas cometidos pela antiga Refinaria de Manguinhos, que já é conhecida como uma das maiores devedoras de impostos do país. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) foi alvo de busca e apreensão pela polícia, enquanto o empresário Ricardo Magro, dono da Refit, é alvo de um mandado de prisão e deve ter o seu nome incluído na lista de difusão vermelha da Interpol. No total, a PF iria cumprir 17 mandados de busca e apreensão. Em nota enviada ao Valor, a Refit afirmou que suas questões tributárias estão sendo discutidas nas esferas judicial e administrativa, como ocorre com outras empresas do setor, e destacou que herdou passivos de gestões anteriores, adotando medidas para regularizá-los. A empresa negou ainda qualquer falsificação de declarações fiscais. O que é o Grupo Refit? A Refit foi inaugurada em 1954, com o nome original de Refinaria de Manguinhos, sob a liderança de Drault Ernanny e o grupo Peixoto de Castro. Ela foi a primeira refinaria particular do país e surgiu dentro do contexto da campanha “O petróleo é nosso”, que visava o monopólio estatal da exploração do petróleo no país. “Construída em apenas 255 dias, com contribuições de engenheiros e operários brasileiros, a refinaria nasceu com 200 funcionários e, na década de 60, alcançou uma expansão notável, atingindo a produção diária de 10 mil barris de petróleo”, descreve a companhia em seu site. Entre os anos de 1998 e 1999, a argentina YPF e a espanhola Repsol entraram na sociedade da refinaria, após a Lei do Petróleo, que quebrou o monopólio estatal. Porém, em 2005, a Refit foi forçada a suspender as suas operações e reestruturar a sua, após dificuldades financeiras enfrentadas nos anos anteriores. Como resultado, em 2008, o Grupo Peixoto de Castro, que até então era o maior acionista da companhia, vendeu o controle acionário da empresa para o grupo Andrade Magro, por cerca de R$ 2 milhões na época. Nesse mesmo período, as sócias estrangeiras YPF e Repsol também deixaram a refinaria. A produção da companhia só foi retomada em 2010, mas a Refit enfrentou outro revés em 2012, quando o então governador Sérgio Cabral tentou desapropriar o terreno da empresa, o que só foi revertido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015. Em 2017, a Refit passa a ser nomeada como é conhecida atualmente, deixando de usar oficialmente o nome Refinaria de Manguinhos. Atualmente, o grupo possui algumas empresas que atuam em diferentes etapas da cadeia de combustíveis e logísticas. Além de operações de logística, também existe a unidade central de refino e armazenamento no Rio de Janeiro, que se chama Refit, assim como o grupo todo, e a distribuidora Fit Combustíveis. O Grupo é controlado pelo advogado Ricardo Magro, de 51 anos, alvo da Operação Sem Refino e que reside em Miami, nos Estados Unidos. Em 2016, ele também foi alvo da Operação Recomeço, que investigava o desvio de recursos dos fundos de pensão da Petrobras e dos Correios. Ricardo Magro, responsável pelo Grupo Refit — Foto: Divulgacao Magro também era sócio do Grupo Galileo, que em 2010, emitiu R$ 100 milhões em debêntures para captar recursos para a Universidade Gama Filho. Investigações do Ministério Público Federal encontraram índices de que o valor arrecadado foi desviado para outros fins, incluindo para a conta bancária dos investigados. Operação Poço de Lobato Essa não é a primeira vez que o Grupo Refit é envolvido em uma investigação. Em novembro de 2025, a refinaria foi um dos alvos de operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a "Operação Poço de Lobato". Segundo o MP, a operação visava “desarticular um engenhoso esquema de fraude fiscal estruturada que causou enormes prejuízos ao erário de Estados e da União estimados em mais de R$ 26 bilhões de débitos já inscritos A operação descobriu que a Refit sonegava impostos desde a importação de combustíveis via portos até a hora em que realizava a venda do produto em postos de gasolina. Na época, a empresa era a maior devedora de Impostos sobre circulação de Mercadorias ou Serviços (ICMS) do estado de São Paulo, a segunda maior do Rio de Janeiro e uma das maiores da União. Operação Cadeia de Carbono Antes disso, em setembro de 2025 a Operação Cadeia de Carbono, da Receita Federal, teve como alvo a companhia. A Refit teve a suas operações suspensa e a carga de combustíveis de quatro navios apreendia. Em outubro, o Valor apurou que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entendeu, em fiscalização da planta, que a Refit não vinha operando como refinaria, mas como formuladora - o que a empresa negou na ocasião. Em parecer do qual o Valor teve acesso, a ANP detalhou que a planta veiculou documentos de importação à agência, de que produto apreendido pela Justiça, na Operação Cadeia de Carbono, seria insumo destinado para refino. Porém, outro aspecto salientado pela ANP foi o fato de que, após investigações nas instalações da Refit, a agência concluiu que elas não seriam capazes de alcançar a "octanagem" dos produtos pelo refino. Mas a ANP informou que as instalações, porém, seriam capazes de realizar o processo conhecido como "formulação de combustível". Isso é uma mistura mecânica de componentes e aditivos para que o produto final, como gasolina ou diesel, atenda especificação de qualidade por órgão regulador. A refinaria foi desinterditada no final de outubro de 2025 por determinação da sexta Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio. A ANP já havia desinterditado parcialmente a refinaria dias antes, com a liberação de dez de 11 áreas da planta, mantendo suspensa a torre de destilação. Recuperação judicial Em 2013, ainda com o nome de Refinaria de Petróleo Maguinhos, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial, para viabilizar pagamentos de passivos. O pedido foi homologado pela Justiça e o plano de recuperação foi aprovado por credores em 2016. Naquela ocasião, o Valor apurou que, até maio de 2017, a refinaria devia cerca de R$ 5 bilhões aos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Instalações da Refit — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg Em 2020, a Justiça do Rio determinou o fim de recuperação judicial da empresa. Porém, a decisão foi contestada pela planta, porque o fim da medida judicial retirava proteção contra possíveis credores. Em 2021, segundo apuração do colunista “Lauro Jardim” do jornal “O Globo”, a 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro acolheu apelação e determinou a retomada do processo de recuperação judicial do Grupo Refit como um todo, que englobaria a Refinaria de Petróleos Manguinhos, Gasdiesel Distribuidora de Petróleo, Manguinhos Distribuidora e Manguinhos Química.
O que é a Refit, a antiga refinaria de Manguinhos investigada por sonegação e fraudes
Além da Operação Sem Refino, deflagrada nesta sexta-feira, refinaria também já foi investigada outras duas vezes










