Como Epstein e seus aliciadores buscaram garotas no Brasil por mais de uma década?Estadão analisou mais de 30 mil arquivos do caso que revelam os tentáculos do milionário no País. Crédito: João Abel (edição de vídeo)Gerando resumoSÃO PAULO E BRASÍLIA – Os arquivos sobre o caso Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos esboçam um modus operandi que durou mais de uma década entre o bilionário e de seus cúmplices para obter meninas, algumas delas menores de idade, para exploração sexual no Brasil. PUBLICIDADEA reportagem do Estadão examinou mais de 30 mil arquivos do caso que mencionam o País, entre e-mails, imagens e depoimentos. Eles mostram um padrão que envolve viagens em busca de oportunidades para encontrar aspirantes a modelos que busquem uma carreira no exterior, fortalecida por contatos com agências, revistas de moda e concursos de beleza. Há também indícios de aliciamento feito por outra mulher brasileira que já era explorada por Epstein, similar ao esquema original montado pelo bilionário e sua companheira, Ghislaine Maxwell em Palm Beach no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000.A estratégia dos recrutadores de Epstein não foi aplicada apenas no Brasil. Nos arquivos, há indícios que os mesmos nomes, Jean-Luc Brunel e Ramsey Elkholy, agiram na América do Sul, Sudeste Asiático e Leste Europeu. Eles circularam por países como Polônia, Lituânia, Estônia, Equador e Filipinas e há sinais de que aplicaram por lá as mesmas táticas mostradas nos e-mails sobre o Brasil.PublicidadeBrunel, um agenciador de modelos francês que também se suicidou na prisão em 2022, é o princpal personagem da expansão internacional do esquema de Epstein. Atuaram também no Brasil, até onde se sabe, o britânico Ramsey Elkhouly e uma das próprias vítimas de Epstein — uma jovem brasileira que, após se relacionar com o bilionário, levou ao menos mais uma menina para os EUA.Brunel se aproximou de Epstein nos anos 90. Com apoio financeiro do bilionário, fundou a agência MC2, que, segundo as investigações do FBI, funcionava como fachada para receber as meninas estrangeiras.Um depoimento crucial liga Brunel e o bilionário ao Brasil. Segundo a contadora Maritza Vásquez, ambos estiveram no País na década de 2000. Aqui, contavam com a ajuda de uma cafetina para obter prostitutas, algumas delas menores de idade. Em 2006, segundo ela, ao menos quatro das meninas foram levadas a NY por Brunel. Duas eram menores de idade, com idades entre 15 e 17 anos. Epstein pagava pelos vistos de entrada delas nos EUA, que eram emitidos pela MC2. Elas ficaram em apartamentos que pertenciam ao bilionário. Os imóveis eram sublocado às garotas por Brunel no valor de US$ 1 mil, ainda de acordo com a testemunha.Publicidade“Jeffrey Epstein estava indo ao Brasil porque ele tinha clientes que eram de lá. Quando ele e Jean-Luc estavam lá uma mulher fornecia prostitutas a eles e algumas delas eram menores de idade”, diz ela ao FBI.Os arquivos também mostram que antes de ir para a cadeia pela primeira vez, em 2008, Epstein já tinha contato com brasileiras menores de idade. Quatro dias após ele deixar a cadeia, em 13 de junho de 2009, depois de 1 ano e um mês preso, o bilionário escreve para uma brasileira, à época com 19 anos. A troca de e-mails dá sinais de que eles se conheciam desde antes da prisão do financista — ela tinha 18 anos quando Epstein foi detido“Livre e em casa”, diz ele. PublicidadeA vítima responde no dia seguinte.“Isso é ótimo, você deve estar se sentindo muito bem. Estou muito feliz que isso tudo acabou”, diz. “Também estou em casa e com peitos novos. O tamanho parece ótimo e mal posso esperar para mostrá-los.”A réplica de Epstein é curta e grossa:“Mande fotos.”PublicidadeO Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou fotos do empresário Jeffrey Epstein, que morreu em uma prisão em Nova York em 2019 Foto: Departamento de Justiça dos Estados Unidos/AFPAmbos mantêm contato ao longo dos anos seguintes. Entre o final de 2010 e o início de 2011, a vítima brasileira escreve para Epstein do Brasil em janeiro daquele ano. Àquela altura, ela já recrutava outras meninas para o bilionário.“Queria saber como nós vamos fazer sobre (nome da vítima sob tarja). Acredito que seja melhor ela voltar comigo para Nova York. Ela não fala bem inglês e nunca viajou antes. Ela vem de uma pequena cidade nos arredores de Natal e não tem passaporte. Como vamos fazer? Ela tirou uma foto no ano novo para você. Ela é muito doce e você vai adorá-la.”Epstein então responde:“Posso te dar dinheiro em NY”.PublicidadeA brasileira responde que não tem dinheiro para todo o trâmite e pede uma transferência via Moneygram, um aplicativo de transferência on-line de dinheiro, e Epstein concorda.O Ministério Público do Rio Grande do Norte está investigando o caso Epstein no Estado desde o começo do mês.O ano seguinte à saída de Epstein da prisão foi também quando outra figura importante entra em cena. O músico Ramsey Elkholy oferece ao bilionário uma garota brasileira identificada como Juliana. Após o encontro, o financista lamenta que ela ficou “o tempo todo falando sobre o namorado”.Ainda em 2010, Jean-Luc Brunel retomou as viagens ao Brasil, desta vez com um padrão: trafega por capitais do Sul, Sudeste e Nordeste, sempre comunicando a Epstein o status de sua procura por garotas. Naquele ano, ele passa por Recife, São Paulo e Brasília.PublicidadeO recrutamento de garotas brasileiras parece ganhar força, no entanto, entre 2012 e 2016. Nesse período, Brunel percorre mais cidades, como Fortaleza, Rio, Vitória, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em 2012, há registros de Brunel se comunicando com Epstein para marcar um encontro posterior a viagem sobre resultados de sua busca por mais mulheres para a “equipe”.Na viagem ao Espírito Santo, após ser cobrado por Epstein, Brunel comenta que não encontrou ainda o perfil exato de meninas que ele procura.“Não encontrei o perfil correto ainda. Além de tudo, elas precisam de um mínimo de cultura. Não seria fácil encontrar alguém para mim aqui, quanto mais para você. Vou dar uma olhada em Manila. Eles tem uma ótima agência lá que provê gente para cassinos.”Jean-Luc Brunel, recrutador de Jeffrey EpsteinElkholy, por sua vez, volta à cena em 2013. Ele tenta intermediar um encontro entre Epstein e a brasileira Juliana, que o esnobou anos antes. O músico também menciona a intermediação de encontros para Epstein em NY, que envolveria uma brasileira e uma finlandesa. Antes de embarcar, ele se reúne com Epstein, após marcar uma reunião com a ajuda da assistente do empresário, Lesley Groff.Em 2016, Elkholy sugere um novo foco no Brasil, com a compra da revista de moda L’officiel Brasil que poderia, segundo ele, fornecer um casting de 20 a 30 meninas para Epstein.PublicidadeA ideia de Elkholy era comprar 50% da versão brasileira da revista e 25% da empresa nos EUA antes do IPO (Oferta Pública Inicial) da companhia, que transformaria a empresa em uma companhia de capital aberto. Nos e-mails, o britânico pede conselhos sobre o negócio e a indicação de um advogado que poderia costurar os dois negócios. Saiba mais Quem é Jean-Luc Brunel, o elo entre o caso Epstein e o BrasilJeffrey Epstein: relembre o caso e entenda acontecimentos recentesE-mails mostram interesse de Epstein na exploração sexual de meninas brasileiras; veja o que se sabeEm agosto daquele ano, o Elkholy reclama para Epstein sobre a lentidão para o fechamento da compra da revista. Já em janeiro de 2017, Epstein sugere que o britânico desista do negócio depois de Elkholy reclamar de uma mudança nos termos propostos pelos proprietários. Em um e-mail posterior o britânico aponta que ao invés de comprar a revista ele teria subornado um editor brasileiro conseguir um casting de garotas. “Tenho o editor local (brasileiro) na palma da minha mão. Então, sempre que quero que fotografem uma garota, basta dar-lhe alguns milhares. É muito mais barato assim”, apontou Elkholy nos e-mails. PublicidadeApós Epstein autorizar a busca, Elkholy então embarca para São Paulo. Uma vez na capital paulista, passa a fazer contato também com agências de modelo. É quando ele tenta intermediar a compra da agência Ford Models e comprar os direitos para organizar um concurso de beleza no país.“Meu foco é o Brasil, onde posso gastar menos para obter o mesmo resultado (b...)”Os últimos registros de recrutadores de Epstein no Brasil são de 2019. Na ocasião, Brunel vai a Brasília a discutir a compra de uma agência de modelos local que não foi para a frente. Há inclusive um registro no Facebook da agência, chamada Mega Model Brasília, de Brunel fazendo turismo diante do Palácio do Planalto. “Jean-Luc Brunel esteve aqui para um casting para levar nossas modelos para NY”, diz o post de 4 de abril. PublicidadeOutro ladoSegundo a Mega Model Brasil, a agência do post questão é uma franqueada da empresa, que diz repudiar veementemente qualquer crime ou conduta ilícita.“A agência esclarece que jamais realizou transferências de modelos ou negociações de franquias com Jeffrey Epstein ou quaisquer indivíduos a ele vinculados”, diz a empresa em nota.“Ressaltamos que a unidade citada em Brasília opera sob o regime de franquia e não possui autonomia para negociar a internacionalização de agenciados sem a prévia e expressa autorização da matriz. ”Um e-mail que consta nas investigações do FBI mostra que a empresa-mãe se negou a fazer negócios com a agência de Brunel em consequência das ligações dele com Epstein, ainda em 2015.Publicidade“Neste documento, a Mega Model esclarece que já havia interrompido qualquer possibilidade de contato ou trabalho com a MC2 Models há mais de cinco ou seis anos, fundamentando sua decisão justamente nas denúncias de tráfico sexual e condutas ilícitas que pesavam contra Brunel e sua associação com Epstein.“Neste documento, a Mega Model esclarece que já havia interrompido qualquer possibilidade de contato ou trabalho com a MC2 Models há mais de cinco ou seis anos, fundamentando sua decisão justamente nas denúncias de tráfico sexual e condutas ilícitas que pesavam contra Brunel e sua associação com Epstein”, diz a empresa. “A Mega Model Brasil reitera seu compromisso com a integridade do mercado da moda e permanece à disposição para esclarecer quaisquer fatos que utilizem documentos jurídicos de forma descontextualizada.”
Como Epstein e sua rede de aliciadores agiram no Brasil por mais de uma década
Documentos mostram um padrão que envolve viagens em busca de oportunidades para encontrar aspirantes a modelos entre 2006 e 2019












