Sei que o Roberto Medina, que já não é nenhum garoto, vai entender a minha sugestão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rock in Rio 2026 - Show do cantor Gilberto Gil no Palco Mundo, no quarto dia de festival — Foto: Guito Moreto A gente já percebeu que a população está envelhecendo (basta olhar no espelho, dirão os leitores mais atentos). Pois chegou a hora de o Rock in Rio entrar nessa onda grisalha. Sei que o Roberto Medina, que já não é nenhum garoto, vai entender a minha sugestão. Aliás, generoso que sou, vou oferecer uma consultoria de graça. Anota aí, Roberto: Primeiro, os artistas: Chico, Caetano, Bethânia, Roberto Carlos, Gil e Paulinho da Viola. Fechando as noites, óbvio. Artistas estrangeiros são bem-vindos, mas que não se cometa a heresia de escalar Rolling Stones, U2 ou Bob Dylan depois de Chico ou Caetano. Respeite a hierarquia, por favor. O horário: já foi o tempo em que os 50+ chegavam de madrugada em casa e acordavam de boas no dia seguinte. O último show tem que ser às nove da noite, no máximo. E nada de começar muito cedo, que à tarde faz muito calor. Vire-se para encaixar tudo entre 18h e 22h. Essa história de BRT, ônibus e metrô lotados é coisa de jovem. Quem tem mais de cinquenta só entra em transporte cheio por absoluta necessidade. Na hora do lazer queremos é conforto; a gente já pagou boletos demais para passar aperto. Ou seja, o senhor trate de fazer um estacionamento gigante e um esquemão de Uber e táxi. Nada de chuva! Assine um contrato premium com o Cacique Cobra Coral. Evoque divindades, reze para os santos, dê o seu jeito. A gente não pode pegar chuva, friagem ou vento encanado. Ordens médicas. Outra coisa: precisamos de lugar para sentar. Ficar horas em pé é coisa de Satanás. Espalhe bancos, pufes, espreguiçadeiras etc. Quem sabe umas cadeiras de balanço para uma soneca entre os shows? Aquela poltrona Mole do Sérgio Rodrigues é a ideal para assistir a um show do Caetano. Fica a dica. Pode até deixar um pequeno espaço perto do palco para que os mais emocionados — e jovens — fiquem em pé, mas o resto é no conforto. A gente merece. Fast-food, nem pensar. Aquele hambúrguer tostado por fora e congelado por dentro, a gente deixa para os adolescentes. Já deu. Leve uns botecos bacanas para lá. Monte uma franquia do Jobi, um posto avançado do Momo, uma embaixada do Bracarense. Quem sabe uma Confeitaria Colombo no dia do Roberto Carlos? E garçons, muitos garçons, por favor. Nada dessa história de ficar no balcão, com uma ficha na mão, mendigando atenção. Ninguém merece. Montanhas-russas ou tirolesas, esqueça. O senhor deixe essas loucuras pra lá: nosso plano não cobre. No máximo um carrossel ou uma roda-gigante, mas só depois de um Dramin. Ou umas mesinhas para um carteado no fim de tarde. Quem sabe um chá dançante nos intervalos? Precisa, claro, ter um espaço para o flerte, que ninguém aqui tá morto. Pelo contrário, nós somos da pá virada! Como a gente é vintage, um correio elegante seria perfeito. Não sabe o que é correio elegante, Medina? Ora, não se faça de desentendido. Por último, o som. Baixo, por favor. Sei que é um festival, mas ninguém aqui é surdo. Quer dizer, alguns até são, mas de qualquer maneira a gente odeia som alto. Não dá pra conversar. E se tem algo que os 50+ gostam é de jogar conversa fora. E de reclamar. Deve ter mais coisa que estou esquecendo, o que, pensando bem, é outra característica dos 50+. De qualquer maneira, Roberto Medina, fica a sugestão do Rock in Rio grisalho. Vou esperar. Sentado, é claro.
Por um Rock in Rio grisalho
Sei que o Roberto Medina, que já não é nenhum garoto, vai entender a minha sugestão






