Natalia Bertran estava disposta a gastar até US$ 90 mil (cerca de R$ 463 mil) no primeiro ano de faculdade de seu filho. Quando chegou a hora, porém, a maior parte desse dinheiro acabou sendo destinada a um ano sabático. Em vez de levar o filho mais velho para morar em um alojamento universitário no ano passado, Bertran o acompanhou até o aeroporto para uma viagem de oito meses ao redor do mundo com a Baret Scholars. O programa, que custa US$ 94.500 (R$ 486 mil), se apresenta como algo muito além de uma pausa nos estudos: é uma experiência na qual estudantes de 17 a 22 anos passam “um ano totalmente envolvidos com a vida”. A tendência de proporcionar aos filhos um ano ou período sabático antes do ingresso na universidade está cada vez mais comum entre os americanos. Se, no passado, famílias dos EUA —e muitas também no Brasil — se organizavam para que o filho recém-aprovado na Universidade usufruísse alguns meses de mochilão pela Europa, agora a ambição é maior. O filho de Bertran praticou bungee jump perto das Cataratas Vitória, no sul da África, visitou o banco brasileiro Itaú Unibanco e desenvolveu um aplicativo — tudo isso antes de seguir para a Universidade Bocconi, em Milão, em agosto. — É claro que foi caro. Mas foi razoável levando em conta o que eles receberam — afirmou Natalia. Natalia Bertran e seus dois filhos Jorge e Matias — Foto: Joelle Grace Taylor/Bloomberg A Baret reduziu o valor da mensalidade, mas, somando as despesas de viagem e o dinheiro para gastos pessoais, ela desembolsou cerca de US$ 80 mil (R$ 411,4 mil). Ainda assim, ela acredita que a experiência proporcionou algo que a faculdade não poderia oferecer: — Posso garantir que ele aprendeu mais naquele ano do que em um ano de universidade. Os anos sabáticos premium estão se tornando cada vez mais atraentes à medida que as famílias questionam se um diploma universitário, por si só — ou um diploma de qualquer instituição que não seja de primeira linha — é suficiente para se destacar. Os pais estão dispostos a gastar, às vezes, mais do que o valor de um ano de faculdade para compensar aquilo que temem que a universidade talvez não ofereça. Seja para conseguir uma candidatura mais forte a uma universidade, um currículo melhor ou mais clareza sobre o futuro, os pais veem isso como mais uma forma de preparar os filhos para um mercado de trabalho extremamente competitivo. É difícil medir o que as famílias obtêm em troca desse investimento. Uma análise de 2020 realizada por pesquisadores do Colorado College e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill constatou que estudantes que fizeram anos sabáticos obtiveram médias universitárias mais altas, mas também tinham maior probabilidade de vir de famílias abastadas e de frequentar escolas de ensino médio mais rigorosas. Para controlar adequadamente as diferenças entre estudantes de origens diversas, os estudos teriam de distribuir aleatoriamente os alunos entre os programas, disse Sandy Baum, pesquisadora sênior não residente do Urban Institute, que estuda o acesso ao ensino superior. — Se o que o programa faz, além de ser incrivelmente enriquecedor e ensinar você a ser um aluno melhor, é melhorar seu currículo e fazer com que você entre em uma universidade melhor, isso, por si só, já vai melhorar seu resultado, independentemente do que o programa tenha feito — afirmou. A falta de evidências concretas, porém, não impediu que as famílias aderissem à ideia. Bertran, na verdade, está enviando seu filho mais novo para um programa da Baret em setembro, adiando o primeiro ano dele na Universidade Purdue. Inscrições só aumentam O número de membros da Gap Year Association, uma organização sem fins lucrativos que estabelece padrões para o setor, dobrou em seis anos, chegando a quase 90 programas, impulsionado em parte pelo surgimento de novas opções de alto padrão. Outras instituições que oferecem programas similares também afirmam estar registrando uma demanda maior. A EnRoute Consulting atingiu seu limite de 50 estudantes pela primeira vez desde 2021, enquanto as inscrições para a Baret quase dobraram, chegando a cerca de 750 para sua próxima turma. Já a Tilting Futures recebeu mais de 18 mil inscrições para seu programa Take Action Lab, lançado em 2023 e que custa US$ 21 mil (R$ 108 mil) por semestre. Quando Holly Bull começou a trabalhar como consultora de anos sabáticos, há 40 anos, não era incomum que estudantes passassem um ano acompanhando bandas como Grateful Dead e Phish ou trabalhando em um rancho. Nos últimos anos, porém, ela percebeu que estudantes e pais passaram a querer mais estrutura. Há muito tempo, ela mantém um exemplo de roteiro que compartilha com as famílias: um programa em grupo com acompanhamento, de setembro a dezembro; férias de inverno (fim do ano no Hemisfério Norte); um trabalho remunerado, estágio ou atividade voluntária na primavera; e viagens independentes durante o verão. — Especialmente neste momento, há muito mais hesitação e uma necessidade maior de um pouco mais de estrutura, orientação e apoio — disse Holly. Holly Bull, consultora de longa data especializada em anos sabáticos, afirma que, atualmente, mais famílias buscam programas estruturados — Foto: Elinor Key/Bloomberg A mudança em direção a programas mais estruturados e com supervisão mais próxima vem acompanhada de custos mais altos. O roteiro de exemplo de Holly Bull geralmente custa entre US$ 20 mil (R$ 102,8 mil) e US$ 25 mil (R$ 128,5 mil), sem incluir algumas despesas de viagem e gastos pessoais, além de sua taxa de consultoria de US$ 2.800 (R$ 14, 4 mil). Algumas famílias estão preparadas para gastar muito mais. Na Dynamy Internship Year, um programa voltado para o trabalho em Worcester, no estado de Massachusetts, um ano completo de estágios, orientação e moradia custa US$ 38.650 (quase R$ 199 mil), um aumento de 31% desde 2020. O diretor de admissões atribui o aumento aos custos operacionais mais elevados. Enquanto isso, a Futures Forge planeja cobrar cerca de US$ 82 mil (R$ 421, 7 mil) por um futuro programa que combinará viagens internacionais, uma experiência profissional de 12 a 20 semanas e um boot camp de desenvolvimento de habilidades com duração de 12 semanas. O fundador, Nathaniel Greene, disse que consultores lhe disseram que ele poderia cobrar perto de US$ 120 mil (cerca de R$ 617 mil). Encontrar opções mais baratas está ficando mais difícil. Cortes no orçamento federal reduziram drasticamente o financiamento do programa de serviço AmeriCorps National Civilian Community Corps e do Peace Corps. Os custos mais altos de passagens aéreas, hospedagem e seguros fizeram com que programas que antes cobravam US$ 10 mil (R$ 51,4 mil) passassem a custar perto de US$ 20 mil (R$ 103 mil), segundo Jason Sarouhan, diretor-executivo interino da Gap Year Association. — Eu realmente encaro isso como um investimento — disse a consultora de anos sabáticos Julia Rogers, fundadora da EnRoute. Ano sabático típico O ano sabático típico que ela ajuda as famílias a planejar custa entre US$ 30 mil (R$ 154 mil) e US$ 35 mil (R$ 180 mil). Esse valor inclui um programa estruturado durante um semestre, seguido de voluntariado, viagens ou trabalho na segunda metade do ano. — É uma experiência tão exclusiva e personalizada que você está tendo por menos do que custaria a faculdade — afirmou. Mas esses programas não são faculdades. Eles funcionam fora do sistema de credenciamento acadêmico que regulamenta o ensino superior, e não existem padrões uniformes que determinem o que um programa de ano sabático deve oferecer. Com a confiança dos americanos no ensino superior em queda, isso pode ser parte do atrativo. Apenas 38% dizem ter muita ou bastante confiança no ensino superior, contra quase 60% em 2015, segundo uma pesquisa da Gallup divulgada em julho. Custo-benefício e preparação para o mercado de trabalho são grandes preocupações. Cerca de 22% dos americanos dizem que um diploma de quatro anos vale o custo, mesmo que para frequentar a faculdade seja necessário contrair empréstimos, enquanto quase metade afirma que esse diploma se tornou menos importante para conseguir um emprego bem remunerado, segundo uma pesquisa de 2024 do Pew Research Center. A mensalidade média de uma universidade privada de quatro anos subiu para quase US$ 61 mil no ano letivo de 2025-26, um aumento de 13% desde 2010, de acordo com o mais recente relatório de preços do College Board. Nas universidades de elite, como Duke, Columbia e Brown, o custo está se aproximando de US$ 100 mil (R$ 514 mil) para o próximo ano acadêmico. A queda na confiança na faculdade não fez as famílias abandonarem o ensino superior. Para algumas, isso tornou a entrada na faculdade “certa” ainda mais importante. Olivia Centeno esperava que um ano sabático a ajudasse a entrar em uma universidade mais competitiva. Quando ficou na lista de espera da Universidade Duke, decidiu fazer um ano sabático com a Baret e se candidatar novamente. Ela escreveu uma redação pessoal sobre suas viagens pela Floresta Amazônica e, na segunda tentativa, foi aceita. Você sabe o que é a jornada de trabalho '996'? Modelo ganha força no no Vale do Silício Daniel Sobel, estudante de análise de negócios no Boston College, disse que vinha seguindo uma trajetória profissional convencional sem entender o motivo. Em vez de continuar gastando dinheiro com um diploma antes de saber o que queria fazer com ele, começou a enxergar o tempo longe da faculdade como um investimento para descobrir isso. Daniel Sobel tirou um semestre sabático depois de notar que alguns alunos de MBA haviam feito o mesmo. — Foto: Kendrich Brison/Bloomberg Enquanto pesquisava programas de MBA, percebeu que alguns estudantes haviam feito anos sabáticos. Seus pais pagaram cerca de US$ 15 mil (R$ 77 mil) por um semestre na Malásia através da Tilting Futures, onde ele trabalhou com conservação ambiental e organização de eventos. Depois, passou outro semestre fazendo um estágio. — A faculdade é valiosa, mas se torna muito mais valiosa quando você realmente tem experiências que pode aplicar a ela. Você precisa de inspiração fora daquilo que foi cuidadosamente selecionado para você — disse ele.
Mochilão pela Europa? Famílias agora querem mais antes da faculdade, e ano sabático sai por até US$ 130 mil
Pais veem investimento como maneira de proporcionar 'experiência de vida' e ampliar chances de sucesso profissional ou de admissão na universidade. Mas é difícil mensurar se esta estratégia é exitosa









