Esfoliantes, hidratantes e ácidos ganham espaço nas rotinas de beleza, mas dermatologista alerta para os limites entre cuidar da região e transformar características naturais em problemas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Butt care: por que os cuidados com a pele do bumbum viraram tendência de beleza — Foto: Magnific Durante anos, a rotina de cuidados com a pele ganhou novas etapas, ativos e produtos específicos para praticamente cada necessidade do rosto. Agora, a lógica desce alguns centímetros e chega ao bumbum. O chamado butt care, expressão usada para definir os cuidados com a região, começa a ganhar espaço no universo da beleza e transforma uma área antes pouco discutida em alvo de esfoliantes, hidratantes, séruns e tratamentos dermatológicos. A tendência faz parte de um movimento mais amplo de levar esses cuidados para o corpo. Questões como textura irregular, foliculite, pelos encravados, ressecamento e alterações de pigmentação passaram a receber atenção semelhante à dedicada ao rosto. Para o dermatologista Gustavo Saczk, porém, ampliar os cuidados não significa transformar características naturais da pele em problemas que precisam necessariamente ser corrigidos. "O bumbum é uma região que sofre constantemente com atrito, suor, abafamento e contato prolongado com roupas. É absolutamente possível cuidar melhor dessa pele, principalmente quando existem queixas como ressecamento, foliculite ou pelos encravados, mas não devemos transformar características normais da pele em defeitos que precisam obrigatoriamente ser corrigidos", explica. Afinal, existe 'acne no bumbum'? As chamadas "espinhas no bumbum" nem sempre são acne. Em muitos casos, as pequenas bolinhas avermelhadas podem estar relacionadas à foliculite, uma inflamação que envolve os folículos pilosos. Atrito, suor, depilação e roupas muito justas podem favorecer o problema. "É muito comum o paciente chegar ao consultório dizendo que tem acne no bumbum, mas existem diferentes condições capazes de provocar lesões parecidas. Foliculite, queratose pilar e até processos inflamatórios mais importantes podem ser confundidos. O diagnóstico correto é essencial porque o tratamento muda de acordo com a causa", ressalta Gustavo. A distinção é importante também na hora de escolher os produtos. Embora alguns ingredientes conhecidos do skincare facial possam aparecer em cosméticos corporais, concentração, frequência de aplicação e indicação devem levar em conta as características da região. Do hidratante aos ácidos No universo do butt care, hidratantes e produtos com ativos esfoliantes estão entre os mais procurados. Substâncias como ureia e determinados ácidos podem fazer parte de estratégias dermatológicas para melhorar a hidratação e a textura da pele. Outras abordagens podem ser indicadas para alterações de pigmentação ou foliculite. A popularização da tendência nas redes sociais, porém, também pode estimular uma espécie de corrida por resultados. Esfoliar demais, combinar diferentes ácidos ou tentar clarear a região sem orientação são práticas que podem provocar irritação e piorar justamente a condição que se pretendia tratar. "A pele não melhora necessariamente quanto mais produtos utilizamos. O excesso de esfoliação pode comprometer a barreira cutânea, provocar inflamação e favorecer alterações de pigmentação. Principalmente quando existe uma queixa persistente, o ideal é entender primeiro o que está acontecendo para depois escolher o tratamento", alerta o dermatologista. Skincare corporal ou mais uma cobrança estética? A tendência também levanta uma discussão que vai além dos cosméticos. Falar mais abertamente sobre pelos encravados, manchas e foliculite pode ajudar a reduzir constrangimentos e estimular a busca por tratamento quando há desconforto. Ao mesmo tempo, a criação de produtos específicos para cada parte do corpo pode reforçar a ideia de que toda textura, marca ou diferença de tonalidade precisa ser eliminada. O desafio do butt care está justamente nesse equilíbrio: cuidar da pele sem transformar características naturais em novos motivos de insatisfação. "Uma rotina corporal pode ser simples. Higiene adequada, hidratação e atenção aos fatores que provocam atrito já fazem diferença para muitas pessoas. Quando há lesões recorrentes, coceira, dor, secreção, manchas persistentes ou piora progressiva, aí sim é importante procurar um dermatologista. Cuidado com a pele deve significar saúde e conforto, não a obrigação de alcançar uma aparência irreal", conclui Saczk.