“Vocês não vieram na melhor época para visitar o Taj Mahal, agora o calor é muito severo”, alertou o guia na entrada de uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, quando o termômetro de uma rua próxima estampava 37ºC. Foi um breve exemplo de um desafio existencial enfrentado pela Índia: o país empilha recordes de meses com temperaturas extremas, registrou mais de 700 ondas de calor em cinco décadas e corre o risco de ver regiões inteiras se tornarem inabitáveis. Para o premier Narendra Modi, que mira o posto de terceira economia do planeta, a pressão por ações urgentes é impossível de ignorar, por questões de saúde pública e de sobrevivência política. Hoje, três em cada quatro distritos do país são vulneráveis a eventos extremos. No dia 27 de abril, na lista das 50 cidades mais quentes do planeta, havia apenas localidades indianas. Em Agra, onde fica o Taj Mahal, o pico naquele dia foi de 45,5ºC. A permanência no interior do mausoléu de mármore branco fornece aos visitantes uma breve chance para amenizar a temperatura, diante da ausência de meios para se refrescar, como fontes de água ou vaporizadores. Em Nova Délhi, onde fez 44ºC, uma visita à histórica Porta da Índia, cercada de pedra e concreto e com escassas sombras, era altamente desencorajada. Embora não tenha sido lembrado por ondas de calor, agosto passado foi o mais quente desde o início dos registros locais, em 1901 — uma sensação térmica extrema atestada (e suada) pela reportagem do GLOBO. Para alguns visitantes, o hábito local de servir água à temperatura ambiente pode ser uma surpresa desagradável. — Precisamos mencionar os episódios de calor extremo, e eles estão se agravando. Hoje, a Índia reconhece que as temperaturas muito elevadas são um desafio — disse ao GLOBO Amit Prothi, diretor-geral da Coalizão para uma Infraestrutura Resiliente a Desastres (CDRI), iniciativa lançada pela Índia em 2019 e que reúne mais de 50 países, agências da ONU e instituições privadas e públicas. — Já percebemos alguns trabalhos em curso sobre o tema, mas ainda não como parte de um pacote único e integrado. Porta da Índia, em Nova Délhi — Foto: Filipe Barini Um estudo de abril, publicado pela Universidade Harvard, usou números para detalhar o impacto humano das temperaturas extremas, não apenas durante as mais de 700 ondas de calor registradas nas últimas cinco décadas. Segundo a publicação, três quartos da força de trabalho local, ou 380 milhões de pessoas, enfrentam alto grau de exposição ao calor, sendo que muitos na informalidade. Até 2030, diz o texto, 200 milhões de pessoas estarão sujeitas a condições letais de calor, resultando na perda de milhões de postos de trabalho. Há dois anos, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente apontou que partes do país se tornarão inabitáveis até 2070. Apesar de uma corrida em busca de aparelhos de ar-condicionado, estima-se que pouco mais de 10% das residências tenham acesso a eles. Nas zonas rurais, o índice fica abaixo de 2%, um reflexo da disparidade econômica indiana, onde a renda média mensal é menor do que o valor de um aparelho. E mesmo que o acesso à climatização seja ampliado, será criado um novo desafio: produzir energia suficiente. De acordo com a Agência Internacional de Energia, se houver um aumento de 900% no número de aparelhos até 2050, como prevê um dos cenários, eles exigirão um volume de eletricidade similar ao consumo de todo o continente africano. A opção mais barata, os ventiladores, são onipresentes, mas como orientou a Organização Mundial de Saúde em julho, seu uso em ambientes acima de 40ºC não é recomendado. Em certos mercados, é difícil saber se está mais quente dentro ou fora das barracas que oferecem desde pulseiras prateadas até pashminas feitas de lã da Caxemira. No poder desde 2014, Modi prometeu elevar a Índia ao posto de terceira maior economia do mundo, suplantando Reino Unido, Japão e Alemanha. Uma política pautada por grandes investimentos em setores estratégicos, desde o desenvolvimento de novas tecnologias até obras de infraestrutura. Em grandes áreas urbanas, desde Bengaluru até a futurística Noida, guindastes e arranha-céus disputam a paisagem, enquanto surradas ruas convivem com novos viadutos e estradas. — Quando assumimos o poder em 2014, a maior questão era como colocar a economia de volta nos trilhos — disse, há dois anos, em um evento da Confederação Indiana da Indústria. — Tiramos a economia indiana de uma situação muito delicada. Os planos do premier podem ser afetados pelo clima extremo, especialmente pelo calor. Para cada grau a mais no termômetro, a estimativa é de queda de 2% na produtividade no setor manufatureiro, e redução de até 16% na renda média. Em Nova Délhi, as temperaturas elevadas podem levar a uma perda de 5% na produção econômica até 2050 — nos dias quentes, a produtividade dos trabalhadores é até 25% menor do que em momentos mais amenos. “Se fossem considerados todos os impactos econômicos do calor — por exemplo, danos a infraestruturas e maquinário, aumento dos custos com saúde e os impactos indiretos da redução da produtividade na economia em geral —, as perdas totais poderiam ser substancialmente maiores”, acrescenta um relatório do Centro de Resiliência Climática, ligado ao centro de estudos Atlantic Council. O governo parece ter entendido o recado. No mês passado, as ondas de calor foram incluídas na lista de desastres nacionais, abrindo caminho para o uso de verbas públicas em ações imediatas e futuras. No âmbito regional, estados e distritos também tentam avançar em ações de resiliência. — Acredito que já existam mais de 300 cidades com planos definindo as medidas necessárias para enfrentar os riscos relacionados ao calor em seus territórios. Há exemplos no setor agrícola, pois a atividade depende totalmente das monções, da seca ou da disponibilidade de água — diz Prothi. — O próprio reconhecimento do calor extremo como um desastre natural representa uma iniciativa nacional de grande porte. No estado de Tamil Nadu, planos de ação promovem o uso de telhados frios, que refletem parte da luz solar, a ampliação de áreas arborizadas e medidas para reduzir a temperatura nas escolas. Mas o concreto ainda é dominante, especialmente longe das áreas mais nobres ou das zonas costeiras. As chuvas de monção, que em instantes enchem ruas e avenidas, nem sempre ajudam a amenizar a temperatura: as gotas caem com força e parecem saídas de um chuveiro com aquecimento a gás. Rua de Nova Délhi, na Índia — Foto: Filipe Barini Em Jodhpur, no Rajastão, foi instalada, ainda em 2024, a população recebe alertas para ondas de calor iminentes. Em Nova Delhi, onde vivem 23 milhões de pessoas, aulas e expedientes são adaptados aos picos de calor, e um plano de ação com prazo até 2041 prevê novas áreas arborizadas, biocorredores entre regiões verdes e mais veículos elétricos, com ar-condicionado, nos próximos anos. — Estão sendo realizados esforços para definir como lidar com o calor extremo em áreas, estados e regiões específicos, sob a ótica da segurança hídrica. Há também a questão da saúde pública: reconhece-se que, quando as temperaturas sobem excessivamente, a saúde da população é afetada. E há a ciência por trás da compreensão do fenômeno — acrescenta Prothi. — Gradualmente, veremos mais resultados concretos, pois o país reconheceu a questão (calor extremo) em nível nacional. Para Modi, também se trata de uma questão política. Em 2021, ele enfrentou uma onda de protestos de produtores rurais que se queixavam de mudanças no modelo agrícola local e dos impactos das mudanças no clima na lavoura. No ano passado, manifestantes foram detidos em um ato contra a poluição na capital indiana, no momento em que os representantes de Nova Délhi promoviam a Índia como protagonista da questão climática na COP30, em Belém. Modi e seu partido, o BJP, seguem fortes, e se as eleições fossem hoje não teriam problemas. Mas com uma votação prevista para 2029 e padrões climáticos pouco afeitos a acertos palacianos, ninguém pode garantir que os ventos não mudarão de direção. *O jornalista viajou a convite do Ministério de Relações Externas da Índia
Calor extremo impõe desafio existencial à Índia, e governo acelera planos de resiliência climática
Temperaturas chegam com frequência aos 45ºC e produzem impactos sobre a saúde e a economia locais; premier Narendra Modi vê planos de ação como vitrine para seu país no mundo







