Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político. Por trás da estratégia eleitoral de Augusto Cury (Avante), o candidato a presidente sensação da disputa até agora, está um publicitário que passou pela campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022, além de ter prestado serviço para vários políticos de direita nos últimos anos. O currículo de Sérgio Lima, de 47 anos, vem levando os adversários de Cury a insinuar que o crescimento do escritor tem relação com movimentos trapaceiros na internet como uso de robôs ou da estrutura do ex-coach Pablo Marçal (PRTB) — o que Lima nega e, até mesmo, ironiza: “Tudo teoria da conspiração”, diz o estrategista, que chegou a ser investigado pela Polícia Federal por impulsionar mensagens antidemocráticas. Em entrevista para a newsletter, o marqueteiro explica quais fatores explicam o crescimento que levou Cury de 2% para 8% na última Quaest. Lima, que chegou a estar na campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e de Romeu Zema (Novo) no primeiro semestre, alfineta adversários da terceira via, mas admite que, para o seu cliente disputar o segundo turno, precisará fazer mudanças na campanha. Abaixo os principais trechos da conversa: Nesse século, apenas dois políticos conseguiram crescer de maneira tão expressiva de uma pesquisa para outra como Augusto Cury. Marina Silva, em agosto de 2014, subindo 13 pontos percentuais no Datafolha, e Fernando Haddad, 11 pontos percentuais em setembro de 2018 no Ibope. Como o seu candidato conseguiu isso? Para começar, ele já era um produto conhecido, as pessoas só não sabiam que agora é candidato. Todo mundo sabe o nome dele, mas não o associavam aos livros, até porque o Cury nunca botou foto dele nas páginas. Aí teve a repercussão do debate da Band. Primeiro porque o Cury se revoltou com a ausência do Lula. Ameaçou não entrar no debate e vocês da imprensa compraram aquela história. Segundo porque foi bem no embate com os outros. Ele estava tranquilo e acabou marcando um golaço quando disse que o Renan Santos era agressivo. Por fim, tem a nossa estratégia de redes... Que os adversários estão acusando de ser impulsionadas por robôs... Tudo teoria da conspiração. Acham que eu tenho o poder de apertar um botão e surgir robôs? Também já ouvi o papo de aumento de busca em países como a Índia. Normal, oras, aumentou em Portugal também o interesse pelo Cury, se um tema bomba no Brasil, há crescimento no resto do mundo. Até dizer que o TikTok está recomendando os vídeos dele estão falando. Daqui a pouco vão acusar o Cury de articular tudo isso com o presidente da China Xi Jinping. E esses perfis de fofoca que do nada passaram a falar do Cury na última semana nas redes sociais? Eles operam desta forma: um tema começa a viralizar, esses perfis publicam para ter audiência. Os sites surfaram o “hype” que geramos pós debate da Band. Depois daquele dia, o Cury mandou respostas individuais nas redes para todos que elogiaram. Teve gente que até recebeu vídeo. Ele fala o que o eleitor quer ouvir. Tem muito estrategista falando da importância das redes sociais, querendo criar memes e coisinhas criativas. Os marqueteiros das antigas não entendem a internet, querem assinar peças típicas de TV para o candidato postar nas suas redes. Acabam deixando o candidato falando sozinho, sem interagir. Agora, de tanto falarem que tem dinheiro sendo distribuído na campanha, estamos sendo procurados por influenciadores querendo grana. E vocês estão dando dinheiro para eles? Não. Isso é crime segundo a Justiça Eleitoral. Qual o papel do Pablo Marçal na campanha? Ele está querendo bloquear o crescimento do Renan Santos. Não posso negar que acabou nos ajudando quando disse que o Cury era o melhor candidato. Agora, se ele fosse tão poderoso assim, o Felipe Sabará, sócio dele e candidato a deputado estadual, já estaria bombando. E não está. As coisas não funcionam assim. Qual o fôlego do avanço de Cury no segmento evangélico, explicitado pelo apoio de influenciadores independentes das grandes igrejas? Além de ter livros com uma mensagem que mostra conexão com os evangélicos, Cury palestrou em várias igrejas em todos esses anos. A questão é que já estou vendo um outro movimento acontecendo de alguns dias para cá. Tenho recebido vídeos de ataques de pastores ao Cury, chamando ele de esquerda. Os líderes das denominações maiores começaram a dar orientações para ele ser queimado. E quem está por trás disso, na sua opinião? A campanha do Flávio que está vendo o Cury com preocupação. Só que eles não podem atacar diretamente, então preferem terceirizar. Não é prematuro achar que Cury ameaça a polarização entre Lula e Flávio? É possível subir e assumir o segundo lugar, sim. Mas vamos precisar marcar mais posição nos temas. Não dá para falarmos apenas que um governo nosso teria o melhor do Lula e o melhor do Flávio. Precisamos falar com clareza o que seria o governo do Cury. Tenho chamado de “Troféu terceiro lugar” a disputa entre Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Por que Cury está na frente deles? Todos têm campanhas com problemas. Zema ficou preso na pauta dos intocáveis. O conceito ficou perdido e as pessoas não entendem. Uma hora o intocável é o Lula, outra hora alguém do Centrão, tem vezes que os ministros do Supremo. Em campanha, inimigo tem que ter nome, e por isso o bolsonarismo é bem sucedido ao escolher apenas o Alexandre de Moraes. O Caiado demorou muito para começar a se comunicar e agora decidiu bater de frente com o Flávio, acho péssimo. E o Renan está mostrando imaturidade. Pelo visto, ele não olha pesquisa, só está falando para a torcida do MBL. A campanha é um grande stand up, um ato cômico. E a população não quer ninguém caricato para presidente da República. Quando Cury defende drones para combater o feminicídio e fica repetindo chavões como “a vida é como uma gota de orvalho”, não acaba correndo o risco de ficar caricato também? Estamos atentos a isso nessa fase de agora que ele precisa cuidar mais do posicionamento dele. Ele já gravou um vídeo explicando com mais detalhes o que seria o programa de geolocalização usando drones. Mas, sim, o Cury precisa se preparar mais para apresentar as suas propostas. Essa poesia nas palavras traz leveza, mas é preciso dosar. Ele era o poeta, agora é um político. Até por que a entrevista na Globo no sábado passado não foi boa, certo? Cury acha que poderia ter ido melhor, sim. Por que você saiu da campanha do Flávio? Não estava confortável com os rumos tomados pelo senador Rogério Marinho. A campanha do Flávio é confusa. Tem hora que ele é pai de família e moderado. Tem hora que volta a subir o tom. Aí ele vai e resolve fazer uma estratégia de lives longas como o pai lá atrás. Os tempos mudaram, ninguém consome mais conteúdos tão longos. Mesmo assim ele está empatado com o Lula nas simulações de segundo turno... Por causa do caso Lulinha. Ainda virão revelações sobre o “Dark horse” e o caso Master. Quando eu estava na campanha do Flávio, ele jurou pra mim que não teria nenhuma notícia de envolvimento. Era mentira e ele perdeu uma excelente oportunidade. Era só ter falado que foi enganado pelo Vorcaro assim como várias outras figuras e ter pedido desculpas. Por tudo isso, ainda acho o Lula favorito. Se Tarcísio de Freitas (Republicanos) fosse o candidato a presidente, o cenário seria outro? Sim. Se tivesse a Michelle Bolsonaro como vice, então, seria imbatível. Flávio é enrolado com denúncias, e política é feita de fatos. Uma bomba em cima dele na reta final de setembro pode botar o Cury no segundo turno. Recomendo "O berro do boi" O colega Alfredo Mergulhão me indicou, e fui ouvir os episódios do podcast da revista Piauí sobre a família Batista, do império da J&F Investimentos, que controla a JBS e outras diversas empresas. São seis episódios com duração de 30 a 40 minutos cada, bem fácil de devorar. Eu que acompanhei toda a cobertura da operação Lava-Jato acho impressionante esse tipo de trajetória: alguém como Joesley e Wesley Batista, trucidados pela Polícia e Ministério Público na década passada e que depois se reergueram. O livro Why Not da jornalista Raquel Landim conta toda essa agenda negativa que a família enfrentou, vale ler também. Para você que não sabe, o título da obra de Landim faz referência ao nome de um iate dos Batista. Enquanto Marcelo Odebrecht e outros donos de empreiteiras foram destruídos pela Lava-Jato, Joesley e Wesley hoje são mais poderosos ainda do que antes. Hoje controlam muita coisa. Desde de carne a sabonetes, passando por energia elétrica e serviços de pagamentos. Se você está com pressa por novidades, vá direto ao episódio quatro. É o episódio de uma entrevista inédita com Wesley Batista, falando pela primeira vez sobre a prisão e a delação premiada que ele e o irmão fizeram. Ele comenta uma das grandes lendas urbanas das redes sociais: a de que o filho do Lula, o Lulinha, é dono da JBS. Wesley, é claro, nega a fake news. "Ah, o Lula ajuda vocês? O Lula não ajuda em nada. Se ele vai a uma inauguração de uma fábrica, não faz mais do que obrigação. Quando ele vai, na verdade, é bom pra ele de se aproximar de um setor (o agro) que ele é distante", diz.
Jogo Político: 'Augusto Cury não usa robôs, só fala o que o eleitor quer ouvir', diz marqueteiro do escritor
Newsletter semanal do jornalista Thiago Prado traz bastidores da campanha do presidenciável do Avante e recomenda podcast sobre império familiar da JBS






