Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Congresso Nacional - Senado Federal e Câmara dos Deputados — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo Passei a última semana no Rio de Janeiro por conta da estreia da minha aula-espetáculo no Teatro Axia Casa Grande. A oportunidade de voltar à cidade por um longo período me deu a chance de acompanhar de perto o cotidiano da Zona Sul. Algumas coisas seguem como sempre foram. Em um café no Leblon, uma senhora insistia em me oferecer um santinho com os dados do seu candidato. Em cinco minutos, uma outra apareceu com a camisa tomada de broches e adesivos do adversário. Na mesa ao lado, pai e filha não discordavam sobre seus votos, mas se divertiam vendo memes de candidatos e riam dos jingles políticos do momento. É o tempo da política. E a política, aqui, se faz assim. Moacir Palmeira e Beatriz de Heredia, antropólogos com larga experiência em disputas eleitorais, nos lembram que “o tempo da política” é mais do que uma expressão rotineira, comum na boca do povo. É quando se instala uma fratura temporária no tecido social e uma completa reorganização das relações, de maneira que os projetos políticos se materializem na paisagem, nos encontros e nas pessoas. É nesse intervalo temporal que nos dividimos, nos aglutinamos em novos formatos, colocamos bandeiras ou toalhas temáticas nas janelas, vestimos as cores dos candidatos e assumimos identidades coletivas, misturadas a valores partidários. É quando não se fala de política como um domínio ou uma esfera, mas se faz política. Nessas horas, é comum que as preferências se imponham sobre as relações familiares ou que um abismo surja entre velhos amigos. Por semanas, nos afastamos da tradicional rotina de encontros em nome de outros vínculos que nos parecem ter mais sentido no hoje. Esses são momentos contraditórios por si só. Afinal, se as eleições são um convite para que a nação (o todo) pense sobre quais rumos deseja seguir, para dar cabo desse objetivo somos obrigados a nos dividir, nos opor, rivalizar, disputar e romper com os nossos. Para que a fratura não fuja do controle, é preciso estarmos atentos a dois elementos fundamentais: de um lado, a crença de que o “tempo da política” tem de ter fim e vamos ter a sociedade em debate em torno de um projeto vencedor; do outro, a percepção compartilhada de que, na política, debatemos ideias, não abatemos pessoas. Desde os gregos, como nos lembrou Hannah Arendt, a política sempre foi o lugar no qual os indivíduos se reuniam, expunham suas visões de mundo distintas e se organizavam para decidir juntos, sem precisar lançar mão de socos e pontapés. É onde, apesar das divergências pessoais, nos damos conta de que há algo maior que nos une e nos impede de romper com os outros para todo o sempre. Ou, como ouvi Ailton Krenak dizer em um podcast, a política é o ato entre um bofetão e um argumento. É aquele lugar no qual, diante de uma diferença abissal, percebemos que precisamos desses mesmos outros para viver. Com isso, em vez de lançarmos mão da violência que nos separaria definitivamente, somos obrigados a discutir, argumentar, refletir e construir algo juntos. Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas. Na saída do café, as duas senhoras já não estavam mais lá. Pai e filha continuavam na mesma mesa, ainda rindo, ainda discordando. Sigamos em paz.