Nova legislação quer estimular concorrência, num segmento que ainda é altamente concentrado no Brasil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 C6 compra a startup Alymente e entra no mercado bilionário de benefícios; imagem ilustrativa do cartão de benefícios do banco — Foto: Divulgação C6 O banco C6, que tem como sócio o americano JPMorganChase, está entrando no mercado de benefícios. A instituição anunciou nesta quinta-feira a compra da start up de benefícios corporativos Alymente, que vai ampliar a oferta de produtos do banco com vale-refeição, vale-alimentação e outros serviços voltados à gestão de funcionários. O setor de benefícios atende mais de 22 milhões de trabalhadores em todo o país e é considerado um dos maiores e mais consolidados mercados desse tipo no mundo, movimentando por ano, no país, mais de R$ 150 bilhões. A conclusão do negócio depende da aprovação do Banco Central e do cumprimento de condições precedentes à transação. O valor da aquisição não foi divulgado. Com mais este passo, o C6 amplia a estratégia de oferecer produtos a empresas. Após a conclusão da compra, a Alymente passará a se chamar C6 Benefícios e o cartão de benefícios será emitido pela Mastercard. Criada em 2017, a Alymente é uma plataforma de benefícios com atuação nacional, que atende mais de 100 mil pessoas, tendo entre seus clientes empresas como Heineken, Nissan, BIC e Pernod Ricard. A empresa oferece um cartão multibenefícios com nove categorias, que incluem alimentação, mobilidade e bem-estar, além de serviços como telemedicina, apoio psicológico e acesso a academias. A plataforma também reúne funcionalidades para as áreas de Recursos Humanos, como gestão de premiações, frotas, despesas corporativas e reembolsos de funcionários. O C6 já tem uma oferta de produtos e serviços para empresas, como conta corrente, pagamentos e recebimentos, maquininhas, cartões, crédito, investimentos e soluções internacionais. Com a operação, o C6 Bank acrescenta os benefícios corporativos a esse portfólio ao mesmo tempo em que os clientes empresariais atendidos pela Alymente passam a ter acesso às soluções financeiras da instituição. Ricardo Botelho, chefe de Pessoa jurídica do C6, disse ao GLOBO que o banco estava estruturando o produto "folha de pagamentos" e percebeu que trazer um leque de benefícios faria total sentido para melhorar a vida das empresas. O C6 cogitou desenvolver a solução 'do zero e dentro de casa', mas constatou que o mercado de benefícios tem muitas especificidades, por isso a decisão foi buscar uma empresa no mercado. As conversas com a Alymente duraram cerca de dois meses. — É uma startup inovadora, pioneira no "arranjo aberto" — sendo a primeira a obter o registro no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) nessa modalidade —, possui uma prateleira de benefícios variada e personalizável, além de contar com uma carteira de clientes robusta, que vai de multinacionais a pequenas empresas — explicou Botelho, que lembrou que entre pequenas e médias empresas, os propprietários costumam gerenciar múltiplos setores sozinhos (como RH, marketing, logística e financeiro). O C6 já oferece a pessoas jurídicas uma conta empresarial que não tem tarifa de manutenção e oferece Pix gratuito e ilimitado. André Purri, fundador da Alymente, disse ao GLOBO que, há bastante tempo, a base de clientes e até mesmo potenciais clientes da Alymente vinha demandando soluções financeiras que a startup não oferecia por fugirem de seu escopo de atuação. Entre os produtos demandados estão, por exemplo, Cartão PJ e crédito. — As empresas querem um parceiro único onde possam concentrar e resolver tudo — desde os benefícios até a folha de pagamento e os serviços bancários. Com a integração ao C6, a Alymente agora consegue atender essas necessidades de forma completa e integrada — afirmou Purri. Tendência entre os bancos Para George Sales, professor de Mercado financeiro na Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), o negócio entre o C6 e a Alymente confirma uma tendência do setor financeiro em transformar o banco no principal hub operacional das empresas. André Purri, da Alymente, e Ricardo Botelho, do C6: união para avançar na oferta de benefícios à pessoa jurídica — Foto: Divulgação C6 — Faz total sentido estratégico e financeiro, pois o ideal é ter um ecossistema completo para reter clientes corporativos, especialmente pequenas e médias empresas. Para isso, o banco precisa ir além da conta corrente, crédito e máquina de cartão. Portanto, benefícios (VR, VA, mobilidade, bem-estar) são itens obrigatórios no RH de qualquer empresa e integrar isso na mesma fatura/portal reduz atrito operacional para a empresa contratante — explica o especialista, que lembra que esses benefícios são porta de entrada para a folha de pagamento. Com a aquisição, o C6 ganha também um canal para capturar pessoas físicas como novos correntistas, viabilizando oferta de crédito consignado, cartões e investimentos. A entrada do C6 neste mercado, diz Sales, ainda tem impacto pequeno na concorrência, já que trata-se de um mercado concentrado. — Mas já existe um movimento de mudança que permite discussão sobre portabilidade e outras vantagens para as empresas e seus funcionários — avalia. Concentração do setor No país, o segmento de vale-alimentação ainda é concentrado com quatro grandes operadoras respondendo por cerca de 80% desse volume. Esse cenário começou a mudar nos últimos anos, com a chegada de novos players, e ganhou força com as mudanças regulatórias recentes. O governo quer aumentar a concorrência nesse setor, e reduzir custos para os estabelecimentos comerciais que aceitam esses cartões. Purri explica que o mercado de benefícios vem crescendo no Brasil com o aumento do emprego formal, abertura recorde de empresas e a desregulamentação será uma alavanca para impulsionar o setor. — Historicamente, o mercado era altamente concentrado nas mãos de operadoras tradicionais, que detinham mais de 95% do setor. Houve uma série de atualizações legais ocorridas entre 2017 e 2025, que implementaram o "arranjo aberto" e proibiu práticas anticompetitivas. Essa abertura regulatória reduziu a fatia das empresas tradicionais para cerca de 80% e abriu as portas para novos concorrentes inovadores crescerem de forma acelerada — diz Purri. No arranjo aberto, o vale-refeição ou vale-alimentação funciona com uma bandeira de cartão comum, permitindo o uso em qualquer maquininha que aceite aquela bandeira Na legislação, que entrou em vigor ano passado, está a possibilidade de que os cartões de benefícios funcionem em qualquer maquininha, independentemente do arranjo ou bandeira da credenciadora. Outra novidade é que o trabalhador pode transferir o saldo e a gestão de seu benefício para vale-refeição e vale-alimentação. Houve também a limitação da taxa cobrada pelas operadoras dos restaurantes, lanchonetes e supermercados a no máximo 3,6%, com tarifa teto de intercâmbio de 2%, e o dinheiro das compras realizadas com VR e VA deve ser repassado ao comerciante em um prazo de até 15 dias. Ficou definido que o saldo do benefício deve ser utilizado somente para alimentação/refeição, sendo vetada a compra de itens como bebidas alcoólicas, cigarros ou produtos de limpeza. — A dinâmica competitiva desse mercado vai mudar completamente, abrindo espaço para novos participantes e fazendo com que o diferencial esteja cada vez mais em produto, tecnologia, atendimento e preço — afirmou Botelho.
Banco C6 compra a startup Alymente e entra no mercado de benefícios, que movimenta R$ 150 bilhões por ano
Nova legislação quer estimular concorrência, num segmento que ainda é altamente concentrado no Brasil









