Autoridades meteorológicas de Cingapura alertaram que a parte sul do Sudeste Asiático provavelmente enfrentará condições de seca nos próximos dias 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ponte Ampera sobre o rio Musi, envolta em neblina causada por incêndios florestais em Palembang, na Indonésia — Foto: AFP Uma densa e tóxica neblina está envolvendo algumas das maiores ilhas da Indonésia e se espalhando para os países vizinhos, como Malásia, Cingapura e Filipinas, enquanto incêndios florestais que já duram semanas continuam a se intensificar, principalmente na província de Kalimantan do Sul. Grande parte da fumaça vem da queima de turfeiras, solos que armazenam carbono por milhares de anos e podem se transformar em verdadeiras "bombas de carbono" quando incendiados. As autoridades meteorológicas de Cingapura alertaram que a parte sul do Sudeste Asiático provavelmente enfrentará condições de seca nos próximos dias, com um "risco contínuo de forte neblina transfronteiriça". Autoridades do governo da Indonésia e especialistas afirmam que o fenômeno do El Niño, que descreveram como "Godzilla" por sua força neste ano, provavelmente vai exacerbar os incêndios florestais à medida que o fenômeno climático atingir seu pico neste mês. Milhões de pessoas em vastas áreas do Sudeste Asiático foram expostas à poluição atmosférica, que em algumas regiões causou níveis "extremamente prejudiciais à saúde", mais de 15 vezes superiores ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. "Espera-se que a situação de focos de incêndio e fumaça permaneça elevada em regiões propensas a incêndios que sofrem com condições secas prolongadas", disse a Agência Nacional do Meio Ambiente de Cingapura (NEA), em comunicado. Já nas regiões do norte do Sudeste Asiático, bem como nas partes centrais de Bornéu e nas áreas norte da Malásia Peninsular e da ilha de Sumatra, a neblina deverá ser "atenuada", já que essas regiões terão tempo chuvoso nos próximos dias, segundo a agência. A fumaça obrigou o fechamento de escolas em Banjarbaru, uma das cidades mais afetadas da Indonésia, onde uma auxiliar de ensino disse à rede britânica BBC que as condições ficaram tão ruins que "não dava nem para ver os próprios pés" por causa da fumaça. Uma jovem mãe na mesma cidade contou que sua filha de três anos desenvolveu "tosse, dor de garganta e coriza" depois que a fumaça entrou em sua casa. A Malásia, por sua vez, registrou um aumento nos casos de asma e conjuntivite em meio à piora da qualidade do ar em todo o país, à medida que a fumaça continua a atravessar a fronteira. Bombeiros tentam extinguir incêndio florestal lançando água e criando trincheiras para impedir que as chamas se alastrem na área de Tumbang Nusa, Kalimantan Central — Foto: AFP O Ministério da Saúde da Indonésia, ainda de acordo com a BBC, registrou mais de 50 mil casos de infecções respiratórias entre julho e agosto relacionados a incêndios florestais e em áreas de vegetação rasteira, e milhares de pessoas foram hospitalizadas. Muitos dos incêndios ocorrem na parte indonésia de Bornéu, ilha compartilhada com a Malásia e Brunei. Em Sarawak, no lado malaio da ilha, o Índice de Poluição do Ar (IPI) atingiu, em diversas áreas, níveis considerados "insalubres". El Niño 'muito forte' A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da ONU, alertou que o El Niño — fenômeno que eleva as temperaturas da superfície no centro e no leste do Pacífico equatorial — será "muito forte" nos próximos meses e deve prosseguir até fevereiro. Segundo a entidade, há uma "probabilidade extraordinariamente elevada, próxima de 100%" de que o episódio atual persista até lá, com o pico esperado para o final do ano, embora os impactos no clima devam continuar ao longo de 2027. "O El Niño está claramente estabelecido e vai se intensificar até se tornar um fenômeno muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e temperatura, além de riscos associados a inundações, secas e calor extremo", afirmou a agência da ONU. A secretária-geral da OMM, a argentina Celeste Saulo, disse que o episódio atual "pode ser mais potente que tudo o que foi observado" desde que a organização começou seu monitoramento, há quatro décadas, e classificou o fenômeno como um possível "golpe devastador" para comunidades e economias em todo o mundo. — Já estamos vendo perturbações e devastação causadas por secas e inundações, e esperamos que estes impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique — declarou a secretária-geral, que pediu a setores sensíveis ao clima, como agricultura, saúde, energia e recursos hídricos, que adotem medidas de prevenção. Entre os padrões meteorológicos historicamente associados a episódios significativos de El Niño estão secas em partes da Indonésia, da Amazônia e da Austrália, além de monções alteradas na Índia. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que "o El Niño está se tornando gigantesco diante de nossos olhos" e que "o planeta se encontra em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando". Décadas de mudanças no uso da terra Os incêndios florestais e em turfeiras na Indonésia não são um fenômeno novo. Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que a crise tem raízes em décadas de mudanças no uso da terra, que remontam à era Suharto (1968-1998), quando vastas áreas de floresta tropical e turfeiras em Kalimantan foram abertas para exploração madeireira, plantações e projetos de desenvolvimento em larga escala. Atualmente, incêndios de grande escala são frequentemente associados à expansão de plantações industriais e outros usos comerciais da terra. Grupos ambientalistas, pesquisadores e investigações governamentais têm alegado que algumas empresas utilizam o fogo como um método barato e eficaz para limpar vastas áreas de terra. O que torna esses incêndios particularmente preocupantes é o fato de estarem devastando um dos maiores ecossistemas de turfeiras tropicais do mundo. Em condições normais, essas turfeiras funcionam como gigantescos reservatórios de carbono. Mas, em condições anormais, como as que atualmente afetam a região, podem se transformar em verdadeiras "bombas" de carbono. — As turfeiras são reservatórios de carbono incrivelmente eficazes porque suas condições de alagamento retardam a decomposição, permitindo que o carbono se acumule no subsolo por milhares de anos. Mas isso também significa que elas podem se tornar uma "bomba de carbono" quando forem esvaziadas ou queimadas, porque esse carbono pode ser liberado rapidamente na atmosfera — explicou à BBC a pesquisadora de turfeiras Nisa Novita, da ONG de conservação indonésia Yayasan Konservasi Alam Nusantara. Pesquisadores argumentam que, embora a seca e o fenômeno El Niño contribuam para a propagação dos incêndios, a intensidade da fumaça também está ligada à atividade humana. Turfeiras drenadas, áreas de exploração madeireira industrial e plantações de palma de óleo podem tornar as paisagens mais vulneráveis a queimadas, com incêndios frequentemente ocorrendo nas mesmas áreas. Ao contrário das práticas tradicionais de queima controlada, de pequena escala e geridas pela comunidade, os incêndios associados ao desenvolvimento territorial em larga escala podem ser muito mais difíceis de controlar e causar impactos ambientais e de saúde pública em escala muito maior. Com AFP