Desde que voltou à Casa Branca, presidente promoveu ou defendeu várias mudanças de nomes, interna e externamente, e muitas causaram disputas diplomáticas, críticas e efeitos até mesmo para seus índices de aprovação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do secretário do Interior, Doug Burgum, exibe um decreto que troca o nome do Lago Ontário para Lago América — Foto: JIM WATSON/AFP Poucos dias depois de transformar o Lago Ontário, na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, em "Lago América", o presidente americano, Donald Trump, sugeriu nesta quarta-feira que o Estreito de Ormuz também seja rebatizado e, desta vez, com o seu nome: "Estreito de Trump". A tentativa de moldar o mapa-múndi à sua maneira não é de agora: desde que voltou à Casa Branca no ano passado, Trump promoveu ou defendeu várias mudanças de nomes, interna e externamente. Em muitos casos, porém, essas mudanças provocaram disputas diplomáticas, críticas e efeitos concretos até mesmo para seu índices de aprovação, que permanecem em níveis historicamente baixos ou próximos deles. "Agora que está sob controle dos EUA, deveríamos mudar o nome do Estreito de Ormuz para Estreito de Trump? Assim como os próprios Estados Unidos, estaria mais 'quentes' do que nunca!", disse o presidente nesta quarta-feira, em meio à escalada do conflito entre Washington e Teerã e à disputa pelo controle da estratégica passagem marítima. Não seria a primeira vez que Trump busca recorrer a mudanças do tipo como forma de demonstração de poder. A mais recente, do "Lago América", por exemplo, ocorreu em meio à deterioração das relações entre EUA e Canadá e à imposição de novas tarifas sobre produtos canadenses. Porém, a ordem presidencial, assinada na semana passada, não altera automaticamente o nome utilizado pelo Canadá — que rejeitou veementemente a mudança do governo americano — ou por governos estaduais americanos, nem obriga empresas privadas a adotar a nova denominação, apesar de já ter sido acatada por algumas. O Google Maps logo passou a exibir a versão à la Trump para usuários americanos, justificando a decisão pela adoção dos nomes oficiais registrados pelo governo dos EUA, especificamente o Sistema de Informação de Nomes Geográficos dos EUA (GNIS, na sigla em inglês). A Apple também alterou a nomenclatura em seu aplicativo Maps. Em ambos, o nome original continua sendo mostrado fora dos EUA, embora, em alguns casos, em conjunto com a nova nomenclatura americana. Apesar da insistência do governo Trump, a mudança não foi bem recebida internamente. Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 28 e 30 de agosto com 1.023 adultos mostrou que 63% dos entrevistados se opõem à alteração, enquanto apenas 14% são favoráveis. Entre os republicanos, 43% disseram ser contra a mudança e 33% a apoiam. A controvérsia permitiu que um concorrente menor, o MapQuest, alcançasse o primeiro lugar entre os aplicativos gratuitos mais baixados para iPhone nos EUA, um sinal de protesto contra as grandes empresas de tecnologia por cederem aos caprichos de Trump. "Adotamos a mesma abordagem que usamos no Golfo do México: participar da conversa e oferecer às pessoas um aplicativo que preserva os nomes com os quais elas estão familiarizadas", disse Doug Berger, CEO da MapQuest, em comunicado, referindo-se à polêmica do "Golfo da América", também rebatizado por Trump no primeiro dia de seu mandato no ano passado. Na época da polêmica, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ameaçou processar o Google pela mudança de nome, argumentando que a ordem de Trump se aplicaria apenas aos usuários americanos. O nome até hoje aparece na plataforma, juntamente com o original. A medida também não foi bem recebida pelos americanos. Segundo uma pesquisa Reuters/Ipsos, 70% dos entrevistados também se opuseram à decisão, enquanto apenas 25% eram favoráveis. Para especialistas em geografia política, a importância dessas disputas está no fato de que nomes de lugares não são apenas referências para localização, mas carregam história, identidade, relações de poder e reivindicações de soberania. A compulsão de imprimir o próprio nome aos lugares foi descrito como "narcisismo toponímico" pelos geógrafos Reuben Rose-Redwood e Derek Alderman à revista Time. — Mapas e política estão ligados desde o princípio. Nomear é reivindicar — disse ao site Politico o professor de geografia Karl Offen, da Universidade de Syracuse. De aeroportos a calçadões O uso político de nomes tem sido recorrente durante o segundo mandato de Trump, de forma a promover sua ideologia "América Primeiro" até mesmo dentro dos EUA. Em outros casos, porém, as intervenções prevaleceram. Em Washington, a sede do Instituto da Paz também foi renomeada como Instituto da Paz Donald J. Trump. Na Flórida, o aeroporto internacional de Palm Beach, próximo à residência do republicano em Mar-a-Lago, passou a se chamar Aeroporto Internacional Donald J. Trump. E o trecho de 6,5 quilômetros da antiga Southern Boulevard, que liga o aeroporto a Mar-a-Lago, também ganhou o nome de Donald J. Trump Boulevard. E, embora não tenha recebido o nome de Trump, o ponto mais alto da América do Norte, por sua vez, deixou de ser chamado de Denali — que significa "grande" no idioma dos povos nativos — e voltou a ser oficialmente Monte McKinley, em referência ao 25º presidente dos Estados Unidos, por quem o republicano afirma ter grande admiração. Mas projetos novos continuam aparecendo, como o "Arco de Trump", proposto durante as comemorações dos 250 anos de independência do país. Com cerca de 76 metros de altura, o monumento, se aprovado em definitivo, será mais alto que o Capitólio, sede do Legislativo. O projeto enfrenta desafios legais contínuos e resistência da área de preservação, que afirmam que o monumento teria "efeitos adversos" sobre as vistas históricas e os marcos vizinhos. Há ainda uma proposta para uma "Calçada de Trump", que ligaria o imponente Lincoln Memorial, em homenagem ao ex-presidente Abraham Lincoln, ao Rio Potomac. Segundo reportagens da imprensa americana, o presidente também apoiou propostas para rebatizar a estação Penn, em Nova York, e o Aeroporto Internacional Dulles, em Washington, com seu nome. As iniciativas, no entanto, não avançaram. Com agências internacionais.
Estreito de Trump, e não de Ormuz? O que explica a estranha obsessão de Trump de rebatizar lugares e monumentos?
Desde que voltou à Casa Branca, presidente promoveu ou defendeu várias mudanças de nomes, interna e externamente, e muitas causaram disputas diplomáticas, críticas e efeitos até mesmo para seus índices de aprovação














